Sem Resposta

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Por: Mauricio lahan Junior

Era por volta de 01:30 da madrugada, e ele se revirava de um lado para o outro, impaciente, enquanto o sono não chegava. Milhões de coisas passavam por sua cabeça em questões de segundos e isso tornava a noite insuportável!

Ele queria lutar e se manter firme, mas foi vencido pelo cansaço. Esticou o braço e apanhou o celular ao lado da mesinha de sua cama e deixou as palavras presas em sua garganta saírem por seus dedos em uma mensagem:

Eu sei que é tarde.. E que vc pode estar dormindo ou talvez em algum role.. Desculpa de novo por mandar msg essa hora.. Eu não sei mais o que fazer.. Eu acordo pensando em vc, eu durmo pensando em vc, eu saio pensando em vc e eu vivo SÓ pensando em vc! Eu até sonhei com vc! Eu não consigo me envolver com outras mulheres.. Todas elas me irritam.. Qnd elas tentam se aproximar de mim eu fico com raiva.. Eu quero o seu bem e quero que vc se torne a pessoa mais feliz deste mundo.. Eu sei que hoje eu nao sou mais o que fui para vc.. Eu acredito que sou muito especial para vc mas eu sei que nao sou o que fui antes para vc.. Eu preciso saber.. Se tudo entre a gente acabou.. preciso saber se vc sente minha falta como seu namorado ou como seu amigo! Eu preciso saber o que vc sente qnd lembra de mim!

Um sentimento de alivio começou a correr por seu corpo. Estava feito! Mas ainda não era o suficiente. Respirou e sem dar tempo de uma resposta iniciou uma nova mensagem. Sem pensar antes de escrever deixou-se levar pelo impulso:

E eu preciso saber o que vc esta pensando agora sobre nós.. por favor se não existe mais chances de ficarmos juntos me diga! Me diga por favor tudo que vc pensa sobre a gente! Eu sinto como se ainda tivesse milhões de coisas no ar mal resolvidas e eu não sei o que Fazer!

Depois da segunda mensagem já não tinha mais controle. Sua cabeça estava confusa. Não recebia nenhuma resposta e pensou “Deve estar dormindo”. Esperou 15 minutos e ainda com a cabeça cheia percebeu que não conseguiria dormir, percebeu que ainda haviam palavras a serem ditas:

Eu lembro dos detalhes e sinto falta de tudo entre a gente.. Das nossas tequilas, nossas risadas nossas cervejas do macarrão que fazia para mim.. Do molho com azeitonas.. Sinto falta de te abraçar.. De te apertar e morder.. Das nossas lutinhas que muitas vezes eu te jogava no chão! Sinto falta de sentir seu cabelo.. Do jeito que vc cheirava meu pescoço e dizia o qnt gostava do meu cheiro.. Falta de ouvir musicas com vc.. Até de fazer regime com vc eu sinto falta.. Sinto falta dos nossos beijos.. Sinto falta das noites de Amor.. Sinto falta do nosso sentimento vivo..

Adormeceu.

Passou o primeiro dia, o segundo, uma semana. Não houve resposta. Uma palavra, um esclarecimento, um pingo no “i”. Nada.

Conformado, e sem saber quantos dias haviam corrido desde aquela noite, tentou colocar um ponto final no assunto:

Vou encarar seu silencio como uma resposta.. Msm assim obrigado por tudo que vivemos juntos.. Vc é especial e nunca vou te esquecer!

Mas no fundo o seu desejo é que esse ponto se torne reticências.

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Sinceridade

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Por: Mauricio Lahan

Dia chega dia vai
Em versos livres me deixo guiar

Sem tentar pensar no que vou escrever
Deixo letras serem desenhadas,
Esperando que assim
Eu possa alcançar a sinceridade pela escrita!

Já que hoje em dia é difícil ser sincero!
Ser sincero com o próximo,
Ser sincero consigo mesmo.

Chega a ser quase um desafio
Encontrar maturidade para revelar a verdade

Mas nada eu posso julgar
Sendo que decido por mim mesmo
Negar o que muito já é evidente.

Dia chega dia vai
E não importa quantos dias se passem
No fundo todos sabem
Que somos sinceros apenas
Durante a noite,
Quando aguardamos o sono chegar…

Mulher traída

mulher-traida

 

Por Anderson Estevan

 

Ele tem uma amante. Este foi o primeiro pensamento que invadiu a sua mente assim que abriu os olhos. Levantou-se rapidamente. Alongou o corpo, como sempre fazia ao acordar. Também conferiu os utensílios da casa, afinal, o Feng Shui poderia estar desarrumado.

A sua intuição era única. Nunca falhava. Ainda mais estes pensamentos que vinham logo pela manhã. Mas era difícil imaginar que estava sendo traída. Ele era um bom pai, um bom marido e acima de tudo, a chama do casamento mantinha-se acesa.

Como tirar a prova? Pensou em contratar algum daqueles detetives particulares. Até pegou a lista telefônica, mas desistiu. Pensou então em ligar para a sua melhor amiga. Desistiu também, não queria sua vida como o assunto da semana.

Ainda sentada na cama, uma ideia brilhante lhe iluminou. Foi direto para as gavetas dele no guarda-roupa.

– Eles não sabem esconder esse tipo de coisa – Disse baixinho, enquanto olhava minuciosamente as cuecas e meias do marido.

Procurou por algum perfume diferente, alguma marca que não estava ali, algo que o denunciasse. Não achou. Ali estavam as mesmas cuecas e meias, que ela mesma havia comprado. Todas.

Foi para as camisas, as calças e os ternos. A prova cabal, definitivamente, estaria em algum lugar nesta parte. Procurou por marcas de batom, por bilhetinhos ou alguma nota comprometedora. Também não obteve êxito. Sentiu-se decepcionada. Sua intuição a desapontara.

Um misto de alivio e desilusão lhe levaram de volta para a cama. O celular tocou. Era o alarme, que a lembrava da hora marcada no salão. Respirou fundo e foi para o banheiro. Durante o banho ruminou este pequeno dilema. Esqueceu-se dele enquanto escolhia o vestido para ir ao salão.

Carta Aberta à Renato

renato

Por: Mauricio Lahan Junior

Renato!

Meu grande amigo.

Escrevo-te para dizer o quanto sinto sua falta companheiro!

Você se foi quando eu tinha apenas cinco anos e nessa época não entendia muito bem seus versos musicais. Acredito que ainda hoje não consigo entendê-los por inteiro! Mas, contrário a isso, o senhor, meu amigo, parece conhecer-me por completo.

Sua capacidade de entender todos a partir de si é incrível e acredito que esse estilo universal e atemporal torna toda a sua obra algo imortal.

Assim como Shakespeare ou Machado de Assis suas canções se aproximam a fundo na natureza humana, do caráter humano e da personalidade humana. Não é algo que se trate de momento e sim da composição do ser Humano. De alguma forma, pelo menos uma entre todas as suas letras acaba por fazer parte do que somos.

Por isso é impossível não se identificar com toda a beleza da sua ARTE, que é composta por Amor, Alegrias e Tristezas misturadas com Verdades que não gostamos de assumir e temperadas muitas vezes com um toque apimentado de Revolução e Protesto!

Renato, Eterno! Talvez você nem imagine ai de cima quantas pessoas você conheceu a fundo. Quantas mentes você influenciou e sentimentos especiais criou dentro de cada um de nós. Pois saiba que sentimos muito sua falta e temos certeza que nunca haverá alguém que possa substituí-lo.

Por fim deixo um pouco de ti aqui registrado que tanto faz parte de mim:

“Já não sei dizer o que aconteceu

Se tudo que sonhei

Foi mesmo um sonho meu

Se meu desejo então já se realizou

O que fazer depois

Pra onde é que eu vou?”

[Maurício; Legião Urbana]

Elevador (o canalha)

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Por Anderson Estevan

Ele estava atrasado. Geralmente ele se atrasava, mas nada que lhe rendesse uma bronca no trabalho. O dia era ensolarado, quente, seco, um típico começo do outono. Depois de pegar um ônibus e atravessar a cidade por baixo da terra, finalmente ele chegou ao trabalho. Era a rotina.

Como sempre, o elevador estava cheio. Ele nunca gostou muito disso. Já bastava o metrô e o seu calor humano. Mas naquela sexta-feira não teve jeito. Entrou na cabine mais cheia. Ele não queria atrasar tanto.

Além dele, estavam dois senhores, que deviam ser chefes em algum departamento. Duas estagiárias com quem ele já havia trocado olhares e dois colegas de trabalho. O vice-diretor da empresa também estava lá, ele e a sua estranha mania de tentar “se misturar” com os seus funcionários. Ele era artificial.

A porta se fechou. Coincidentemente, todos iriam sair no mesmo andar, o décimo.

Os rapazes conversavam sobre o resultado da próxima rodada do futebol, os senhores olhavam nos relógios e faziam observações pontuais e o nosso protagonista olhava para o teto.

O vice-diretor tentava cantar as duas estagiárias, que resistiam bravamente ao cavanhaque grisalho do chefe. Ele devia usar estas investidas desde os anos 70. O casamento deve tê-lo enferrujado as idéias.

Este clima pacato durou alguns segundos, todos foram emudecendo aos poucos. Alguém havia tratado com má fé os seus iguais no local. O cheiro estranhíssimo que exalou no ambiente calou a todos. Havia só uma pergunta a se fazer: Quem foi o canalha?

Todos se encaravam. O clima de desconfiança era mútuo. As garotas olhavam para os senhores do outro lado, que retribuíam o olhar, mas indicavam que também poderia ser um dos três rapazes novos. O vice-presidente tossiu, mas não disse nada.

O décimo andar finalmente chegou. Todos saíram e foram para suas respectivas funções. Ninguém conseguiu identificar o culpado, mas mentalmente todos eles o amaldiçoaram pelo resto do dia.

Rubem Fonseca: 50 anos de beijos, tiros e sangue

Rubem-Fonseca-foto-de-Zeca-fonseca

Por: Anderson Estevan

“Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.

Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse”

Confesso que ao terminar de ler estre trecho de Feliz ano novo, conto/título do livro de Rubem Fonseca, esta hipnotizado. A sua mistura coesa de violência estilizada, linguagem corrida e literatura noir me ganhou em menos de cinco minutos.

E em menos de um mês já havia lido seis de seus livros em ritmo acelerado. Em pouco tempo, pude conhecer Mandrake, o advogado canastrão e mal humorado; Gustavo Flávio, o escritor atormentado de Buffo e Spalanzani; e o comissário Mattos, de Agosto, com ovos, copos de leite e a sua úlcera crônica.

E o pior: eu sempre queria mais!

Até então, nunca havia lido ninguém que conseguisse transmitir tão bem a atmosfera urbana brasileira, na periferia e no centro, como ele. Embora suas histórias se passem no Rio de Janeiro, elas poderiam perfeitamente estar alojadas no coração de São Paulo sem nenhum problema.

Outra coisa que merece ser destacada nesta resenha/declaração é o trato com os protagonistas. Não há piedade nem sentimentalismo. Na literatura de Fonseca, ninguém é à prova de morte.

O padrão branco, alto, bonito e de olhos claros também passa longe dos personagens principais. Por seus contos, novelas e romances há gente feia, desdentada, suada e com problemas que fariam qualquer personagem de um romance adolescente chorar e pedir arrego. Essas figuras bizarras, que eu e você encontramos caídos pela rua, gente de verdade, estas sim são as personagens ideais do escritor.

E essa atmosfera dos fodidos, dos segregados, esta é a realidade para a literatura de Fonseca. Sabe toda aquela fúria e descontrole que vez ou outra acompanhamos na televisão? Em sua obra ela ganha contornos de arte. Já as mulheres sedutoras e com um quê de ingenuidade. Tipos tupiniquins de Femme fatale que todo mundo espera encontrar por aí, mas não encontra nunca. Talvez por que estejam todas na literatura de Fonseca.

De Os prisioneiros, seu primeiro livro, lançado há 50 anos, até hoje, são mais de 26 obras, entre coletâneas, novelas e romances. Mesmo assim, o velho Rubem Fonseca continua vigoroso, sendo um cronista cada vez mais atual da situação sócio política brasileira.

Não vou dizer que todos devem “devorar” Rubem Fonseca, mas que ao menos uma espiada em alguma coisa do velho escritor não faz mal a ninguém. Ou melhor, faz sim, e no máximo você pode acabar ficando viciado em um dos mestres da literatura policial brasileira.

Sem Titulo

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Por M. Lahan

Mais uma tarde chuvosa e não é a toa que chamam essa a terra da garoa.

O metrô mantém seu ritmo. O ritmo apressado do paulista que parece estar correndo da chuva.

Olho pela janela e vejo arvores correndo, prédios correndo, carros correndo, casas correndo. Tudo aqui parece estar correndo, parece estar preocupado, parece estar atrasado!

Logo me sinto irritado e o nervosismo se espalha pelo corpo e meus ombros enrijecessem inconscientemente.

De surpresa um clarão rasga o céu ao meio e, depois do estrondoso trovão, escuto um sussurro:

“Eparrei minha Mãe..”

Ao meu lado uma velhinha de pele escura e costas curvadas faz um apelo aos céus.

Como se estivesse pedindo para alguma força “La de Cima” ter paciência com as pessoas “Aqui de Baixo”.

Estas pessoas que vivem correndo em busca de imagens, sem procurar entender a real essência das coisas.

Por fim olho novamente o céu pela janela.

Depois disso não vejo mais a velhinha.

Sumiu!

Mas o sentimento de que há quem olhe por nós ficou.