Rubem Fonseca: 50 anos de beijos, tiros e sangue

Rubem-Fonseca-foto-de-Zeca-fonseca

Por: Anderson Estevan

“Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.

Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse”

Confesso que ao terminar de ler estre trecho de Feliz ano novo, conto/título do livro de Rubem Fonseca, esta hipnotizado. A sua mistura coesa de violência estilizada, linguagem corrida e literatura noir me ganhou em menos de cinco minutos.

E em menos de um mês já havia lido seis de seus livros em ritmo acelerado. Em pouco tempo, pude conhecer Mandrake, o advogado canastrão e mal humorado; Gustavo Flávio, o escritor atormentado de Buffo e Spalanzani; e o comissário Mattos, de Agosto, com ovos, copos de leite e a sua úlcera crônica.

E o pior: eu sempre queria mais!

Até então, nunca havia lido ninguém que conseguisse transmitir tão bem a atmosfera urbana brasileira, na periferia e no centro, como ele. Embora suas histórias se passem no Rio de Janeiro, elas poderiam perfeitamente estar alojadas no coração de São Paulo sem nenhum problema.

Outra coisa que merece ser destacada nesta resenha/declaração é o trato com os protagonistas. Não há piedade nem sentimentalismo. Na literatura de Fonseca, ninguém é à prova de morte.

O padrão branco, alto, bonito e de olhos claros também passa longe dos personagens principais. Por seus contos, novelas e romances há gente feia, desdentada, suada e com problemas que fariam qualquer personagem de um romance adolescente chorar e pedir arrego. Essas figuras bizarras, que eu e você encontramos caídos pela rua, gente de verdade, estas sim são as personagens ideais do escritor.

E essa atmosfera dos fodidos, dos segregados, esta é a realidade para a literatura de Fonseca. Sabe toda aquela fúria e descontrole que vez ou outra acompanhamos na televisão? Em sua obra ela ganha contornos de arte. Já as mulheres sedutoras e com um quê de ingenuidade. Tipos tupiniquins de Femme fatale que todo mundo espera encontrar por aí, mas não encontra nunca. Talvez por que estejam todas na literatura de Fonseca.

De Os prisioneiros, seu primeiro livro, lançado há 50 anos, até hoje, são mais de 26 obras, entre coletâneas, novelas e romances. Mesmo assim, o velho Rubem Fonseca continua vigoroso, sendo um cronista cada vez mais atual da situação sócio política brasileira.

Não vou dizer que todos devem “devorar” Rubem Fonseca, mas que ao menos uma espiada em alguma coisa do velho escritor não faz mal a ninguém. Ou melhor, faz sim, e no máximo você pode acabar ficando viciado em um dos mestres da literatura policial brasileira.

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