Aurora particular.

Por: Luma Cavalcanti

Todo dia a gente acorda com uma expectativa. A gente pega o metrô torcendo pra que um moço troque olhares com você e se apaixone pela sua cara de sono e seu cabelo desgrenhado, assim como você se apegou ao moletom e ao tênis velho dele. Ou que o livro na sua mão seja assunto com o cara ao seu lado que insiste nos livros de auto-ajuda. A gente sai de casa com a esperança de algo novo, que esse longo suportar no transporte público seja ao menos fruto de algo belo (ou interessante).

Mas a vida não traz.

Vai ser sempre assim.. todo dia você rezando pra acabar, torcendo pra mudar, pra que sua vida não seja um mero ir e vir.

E a vida traz.

Mas não no metrô, nem naquelas outras tantas possibilidades que sonhou.. traz naquele momento em que sua expectativa é zero, em que tudo se sustenta por um único pilar. Naqueles momentos em que tem a certeza que é a hora perfeita de simplesmente não ter ninguém na sua vida.

Mas aí simplesmente vai ter.

Vai ter um raio de sol pra te fazer sorrir, um amanhecer pra te completar. Ou talvez tenha alguém pra ser sua aurora  particular.

 

Em:

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Dália

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Por: M. Lahan

Eu venho distraído no metrô de São Paulo ouvindo Foo Fighters e com Barba Ensopada de Sangue – de Daniel Galera – nas mãos.
Quando alguém diz:
– Esse livro é muito bom!
Levanto os olhos do livro e percebo um rosto bem branquinho:
– Sério? Alguém me indicou e comecei a ler ontem.
Ela responde:
– SIM! Quando terminei fiquei uma semana paralisada só pensando nele!
Fitei seu rosto com mais cuidado…
Havia marcas de espinhas da juventude o que significava que já não era uma menina, era mulher feita! Usava uma regata leve, de cor vermelha, resultado do calor dessa cidade, com um jeans simples, algo que despertou mais ainda minha vontade de conhece-la a fundo! Uma simplicidade que já não é mais comum. Por fim voltei meu olhar novamente ao seu rosto e vi cabelos loiros, um dourado natural, lisos no começo e com algumas ondulações nas pontas, de uma forma em que não se pode dizer “Acabou de arrumar” mas ao mesmo tempo não estavam descuidados, e sim naturais! E nesse momento mergulho no azul claro de seus olhos, tao límpidos e profundos…
– Espero que você goste do Livro! Eu gostei Muito!
Volto em mim:
– Claro! Vou Aproveitar.
Ela desce do metro e acena. Se despede.
Depois fiquei pensando “Quem será ela?”
E o livro me responde “Ela se chama Dália”
Sera? Me pergunto.
Talvez…
Quem sabe eu volto a reve-la por ai, em uma outra vida.

A Brochada latina

Por: Anderson Estevan

Era a sua primeira noite com ela. Finalmente havia conseguido levá-la para a cama. Todos os paparicos, as adulações e os presentinhos valeram a pena. Somado a uma conversa bem agradável, sua colega de setor sucumbira aos seus encantos.

Levou-a para jantar em um restaurante japonês. Claro, japonês sempre funciona. Conversaram sobre o trabalho, sobre a possibilidade do chefe  usar peruca e também sobre como estariam daqui dez anos.

Beberam vinho, deram boas risadas, tudo estava como ele havia planejado. Saíram do restaurante num ritmo bem amigável.Em frente ao prédio dela ele foi convidado para subir. Deixou o carro na garagem e já se agarraram no elevador.

O seu vestido preto lhe caia muito bem, nem muito colado, nem muito largo. Aquela roupa devia ter sido feita para o seu corpo. As mãos se procuravam e se perdiam enquanto o elevador chegava ao andar certo.

Entraram em seu apartamento meio apressados. Ele nem havia reparado na decoração. Na verdade ele não conferiu nada ali. Foram direto para o quarto dela.

Em meio aos amassos e carícias ele subitamente estacou. Algo lhe deixou perplexo, paralisado. Algo que também estava estático e também o encarava.

Um pôster em tamanho real do Julio Iglesias o observava e a sua cena de amor. O sorriso metálico, a pele bronzeada e aquela quase peruca estavam todos lá. Lembrou-se de sua mãe cantarolando junto com o rádio. Brochou na hora.

E para explicar, o que diria? Ah, isso nunca me aconteceu… Estou com muitos problemas no trabalho… Ou a verdade, de que não conseguia transar sob o olhar malicioso do pôster de Julio Iglesias?

Analisou a situação e saiu de lá como um verdadeiro mestre.

– Calma, querida, não estamos indo rápido demais, não?

– Como assim?

– É que eu não acho certo fazer isso com você

– Isso o quê? Transar comigo?

– Não, mas acho devíamos sair novamente antes disso

Imagine, caro leitor, esta cena surreal se desenrolando na cabeça da moça. Todas as suas expectativas, inseguranças e medos fundindo-se em um simples: – Ok, tudo bem.

Mesmo sem entender direito a situação ela concordou. Pensou também na possibilidade dele ter brochado. Logo desconsiderou. Um homem daqueles não devia brochar assim. Vai ver ele era estranho assim mesmo.

Ele então se vestiu e após uma longa conversa foi para casa. Chegou rapidamente no lar. Tomou um banho gelado e foi dormir. Não conseguiu. A imagem aterradora do sorriso de Julio Iglesias o manteve acordado durante a noite toda.

Desabrochar da Alma

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Por: M Lahan

 

As vezes sentimos um Vazio, algo nada fácil de explicar ou entender.

Lutamos diariamente pela sobrevivência sem saber qual é o real motivo para isso. Sem ao menos compreender o por que sentimos a necessidade de permanecermos vivos.

Por que vivemos? Por que estamos aqui? Por que nós?

De tempos em tempos nos questionamos sobre o sentido da existência e nesse momento tudo fica confuso, sem rumo ou direção. Chega a dar uma sensação de abandono, uma sensação de algo sem propósito. Sentimos fome de saber, sede sobre a verdade e desejo de compreensão.

“Verdadeiro, sem falsidade, certo e mais do que real, aquilo que está em baixo é como aquilo que está em cima, e o que está em cima é como o que está em baixo..”

O mundo e as pessoas precisam de clareza, precisam aprender a olhar além do horizonte de suas limitadas visões e precisam acreditar que sempre haverá mais e mais para ser descoberto.

Deve-se entender que a Alma, assim como a Rosa, sente a necessidade de desabrochar para uma nova forma, em um novo nível de entendimento do Mundo. Esse desabrochar naturalmente ocorre com o tempo, como tudo no perfeito equilíbrio da natureza, porém podemos buscar por novas fontes de Luz que cada vez mais transformam nossa essência!

Não é fácil lidar com o Caos e a Complexidade que é a Grande Obra mas é de suma importância manter firme a serenidade da mente para melhor desenvolver nosso interior.

“Quem permanece sereno e imperturbável no meio de prazer e sofrimento, somente este é que atinge imortalidade.”

Por fim, acredito que somente com o coração aberto para todo e qualquer ensinamento benevolente é que encontramos caminhos para o desabrochar de nossa alma. Deixando as sólidas amarras da Certeza para alcançar a Leveza do Pensamento Livre.

Noite

mulher_chorando1

Por Anderson Estevan

Ela só quer que o whisky esquente
E que todas as lágrimas cessem
Diluídas em sal e saliva
Num alvorecer prematuro e inconcebível

Dane-se o vinho
As coisas bonitas
Os animais

Enquanto a madrugada avança
Lenta
Todos se enganam e desenganam
Cheios de soberba e confusão

Enquanto o sol não vem
E a luz não se abre
Zelo por seu sono em prece
Não vejo forma mais pura e sublime de afeto

Preocupação de Amigo

Por: Mauricio Lahan

 

Um amigo,

Mais que isso!

Um irmão,

Me disse certa vez:

“Você tem que parar de escrever o que sente,

Deixa claro que escreve o que esta se passando”

E para ele, o irmão preocupado,

Dou minha resposta

Usando as letras de Quintana:

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”

Digo… e retorço as pobres mãos cansadas:

“Eu sei chorar… Eu sei sofrer… Só isto!”

Trote

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– Alô!? – Falou quase gritando.

– Pronto. – Respondeu a voz do outro lado.

Havia um ligeiro chiado na ligação. Realmente era difícil escutar.

– Quem é!? – Gritou novamente.

– Como assim quem é? Com quem você quer falar?

– Aqui é o Zeca, queria falar com o Alemão. – Se não fosse pelo chiado, tinha-se a impressão de que ele gritava de sacanagem.

– Olha meu senhor, não tem nenhum Alemão aqui. – Disse incisivamente.

– Ele saiu? – Gritou pela quarta vez.

Sua educação lhe impediu de desligar o telefone na mesma hora. Suspirou, colocando em prática a tolerância que o analista sempre lhe cobrava. Disse calmamente:

– Não senhor, ele não mora aqui

– Ah, entendi. Você pode me passar o telefone de onde ele se mudou? – falou em um tom menor, mas a gritaria continuava.

Pensou seriamente em desligar o telefone. Afinal, quem faria uma palhaçada dessas. Não seria possível existir um sujeito tão burro. Se não fosse imbecil era surdo, com toda certeza.

– Oi, o senhor me escutou? O telefone do Alemão – Gritou novamente.

Aquilo só poderia ser trote. Não é possível que aquilo não fosse um trote. Não seria mais feito de trouxa.

– Olha aqui, meu amigo, não existe ninguém nessa casa com esse nome e eu não conheço ninguém que se chama Alemão. Não tem ninguém que é Alemão aqui nessa casa. – Disse quase berrando.

– Ué? Mas você tem certeza de que ai não é da casa do Alemão? – Repetiu.

Sonoros xingamentos vieram do outro lado. Os anos de analise e controle de raiva foram para o espaço.

– Calma meu senhor, não precisa gritar nem me xingar – Disse em um tom ofendido.

– NÃO TEM NENHUM ALEMÃO AQUI, RAPAZ – Berrou novamente.

– Olha aqui meu caro, diga para Alemão vir pagar suas contas aqui na quitanda ou eu mando Pedrinho atrás dele com uma barra de ferro.

– SEU FILHO D – Foi subitamente interrompido pelo corte na ligação.

O TU TU TU TU TU TU TU seguiu-se enquanto o sujeito expurgava toda a sua raiva pela ligação indesejada.