Nós dois

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Por Anderson Estevan

Os dias eram intermináveis, ou nossa imaginação que nos permitia pensar assim. Eternidade, tudo era eterno naquele espaço, como as pegadas do coelho e as letras garranchadas no caderno de caligrafia. Não pensávamos tanto no amanha, éramos nós mesmos. Criança e adulto, velho e moço, unidos desde sempre, desde a primeira palavra soletrada, o primeiro castigo. Sempre fomos eu e você, nós contra todo o mundo.

A inquietude não me tocava, era livre, um revolucionário da vida. Acho que todos, mesmo que por um ínfimo instante, já se sentiram assim. As idéias, o que quer que saja que brotava na minha cabeça, encaixava-se perfeitamente, não era complexo, prolixo, confuso. Enfim, éramos crianças.

O ninja na janela, o lápis de cor e o hino nacional nos pertenciam, era um grande tesouro. Não havia talvez, dúvida, medo, porque éramos crianças. Fugíamos voando se posse preciso, heróis e vilões surgiam aos montes nos corredores. Trocávamos o arroz doce por bolachas e não comíamos a merenda, afinal, éramos só crianças.

Olhares espertos percorriam tudo com curiosidade, diferentes dos lhos que tudo tentam filtrar. Falávamos coisas sem sentidos, que não conhecíamos, inventávamos letras de musicas que nem existiam. Hoje conhecemos e ainda falamos de forma confusa. Éramos mais espertos, sagazes, despreocupados. Hoje fazemos tudo por impulso, sem pensar, porque ainda continuamos crianças.

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Barriga

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Por: Anderson Estevan

O sujeito olha para o espelho. Até aí nenhuma novidade. Observa os braços, as pernas, o peitoral. Nada de diferente.

O rosto continua o mesmo, a barba por fazer de cada manhã e o infalível cabelo despenteado, mas o problema não está ai.

Uma bela e maciça barriga reluzia diante do espelho. Mole, chegava até a ser engraçada, mas o mistério estava além de seu aspecto. Como, diabos, ela havia aparecido.

Ele achou estranho que até então não havia reparado nela. Será que ela sempre esteve aí? Acho que foi por conta da academia? Foi o fim do futebol no domingo? Exagero na cervejinha? A pergunta sem resposta inundou seu fluxo de pensamento por alguns segundos.

“Barriga? Macho que é macho tem de ter barriga”, é o que o Carlão diria, pensou o pobre rapaz.

E realmente essa pequena crise existencial, confidenciada em uma mesa de bar poderia ser facilmente confundida com um caso de boiolice aguda.

Será que realmente ele estava caminhando para o outro lado da faixa? Não, definitivamente não.

Lembrou-se em seguida de um verdadeiro martelo de ira disparado pela namorada.

“Aí, amor, bem que você podia dar uma maneirada na cerveja, né? Tá gordinho”. Um cruzado de esquerda a lá Sugar Ray Leonard.

Realmente, se a barriga crescesse muito, poderia ficar menos atraente para a namorada. E por que não, ela acabaria lavando roupa em outro tanquinho?

Então mirou seriamente o espelho, ainda olhando para a barriga. Colocou a mão sutilmente no queixo, como um pensador grego e tentou assimilar todos aqueles pensamentos em relação a sua barriga.

Não chegou a nenhuma conclusão. Olhou no relógio e percebeu, estava atrasado. Tomou banho, vestiu-se e foi trabalhar. Logo se esqueceu da sua protuberante barriga.

Caminhando na chuva

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Por: Anderson Estevan

O frio cortava até almas aquela hora da manhã. Ela já não era mais nenhuma garota. Aliás, até tentava ser, mas o esforço era vão. Os sinais da idade já lhe deixavam cansada. E também furiosa. Qual mulher quer ficar velha?

Os joelhos reclamavam a cada dois passos. Pensou que devia ser por conta do frio, mas lembrou-se da dor em outras ocasiões também lhe importunou.

Mesmo encapotada, o frio lhe tremia as canelas, como quando se está com medo do desconhecido. Na verdade, outra coisa a fazia andar: obstinação.

O lenço na cabeça e os óculos escuros, somados ao capote e roupas de frio lhe conferiam aquele aspecto meio estranho. Algo parecido com um artista atormentado fugindo dos paparazzi.

Mesmo beirando os sessenta anos, ela não abria mão da caminhada diária. Com chuva, com sol, no calor ou no frio, ela não deixava de percorrer as ruas do bairro todos os dias.

Naquela quarta-feira fria e chuvosa ela se levantou cedo. Arrumou-se como se fosse ao baile e saiu para caminhar. A solução para a chuva foi o bom e velho guarda-chuva. Saiu sem se despedir do cachorro.

Andou por um quarteirão. Com passos curtos, porém lépidos, ela ia desviando das poças e continuava o seu percurso com determinação. Estava na esquina e ouviu um som vindo do outro lado. Manteve-se na calçada.

Logo passou o automóvel. Rápido, imponente e beirando a guia. Não sei se foi por distração ou simplesmente por vontade de maltratar o próximo, mas o percurso do veículo a encharcou. Foi embora sem prestar satisfações.

A primeira reação foi de choque. Em seguida veio a raiva. Ainda meio atordoada pela falta de caráter do motorista, ela permaneceu na calçada por mais de um minuto, enquanto desferia palavrões sem parar. Cansou-se. Deu meia volta e foi para casa.

Trem lotado

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Por: Anderson Estevan

Lotado. Esta é a melhor descrição possível para alguém que tente entrar no metrô pela manhã. Em alguns dias o negócio é um pouco melhor, mas na maioria das vezes a lotação é extrema mesmo. Dizem as más línguas que se você tirar os pés do chão, você não caí.

Ele vinha empolgado, embora o frio o castigasse. Algo o distraia durante o caminho. Vinha lendo o novo romance de seu escritor predileto. Havia economizado durante dois meses para que finalmente pudesse comprá-lo e devorá-lo em poucos dias.

A história era eletrizante. Havia um assassino oculto, um detetive excêntrico e também o narrador, que participava ativamente de todo o percurso. O livro era um sucesso. Todos os seus amigos já sabiam do final. Disseram que poderia virar até um bom filme.

O trem chegou à estação. Sempre há aqueles segundos de agonia que se seguem até as portas se abrirem. Ele estava com seu livro fechado. Não havia pressa, afinal, conseguiria saber quem era o assassino. Faltavam dez páginas para o final do livro.

Assim que as portas se abriram, a massa entrou furiosa, como se não houvesse amanhã. Senhoras, mulheres grávidas e crianças, todos o empurraram para o meio do vagão.

Acomodou-se e abriu novamente o livro. Conseguiu ler a primeira página. O trem parou na estação seguinte, que estava ainda mais lotada. Em poucos minutos não havia nem mais espaço para manter o livro aberto.

Outra estação chegou. E outra. E mais uma. Logo até o ar já faltava no ambiente. Frustrado, nervoso e suado, ele finalmente desistiu. O assassino tinha que esperar mais um dia para ser revelado.

A estação final chegou. Todos desceram. Caminhou por mais ou menos uns dez minutos e chegou à portaria da empresa. O assassino teria de esperar até o fim do expediente.

O cata-vento

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Por: Anderson Estevan

Lá pelas bandas da Espanha, onde o vento faz a curva, há um grande moinho, um cata-vento gigante, que fornece energia aos aldeões de uma vila. Ele fica distante da cidade, onde ainda aferroam-se os cavalos e a água ainda é límpida.

É um daqueles lugares onde ainda podemos nos perder. Em volta do moinho, formado por pedras, madeira e muito suor, pessoas trabalham com seus burrinhos, crianças descansam nos campos e o sol brilha fortemente.

A grama em volta é baixinha, rasteira, de um verde vivo que impressiona. Normalmente o calor é grande, daqueles que chega a queimar na gente.

Rodeado por diversos caminhos, o tal moinho “cata-venta” a vida daquele povo e move suas ações. Naquele grande pedaço de grama verde, o vento bate como nos tempos de criança.