Poema nº 54

 

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Por: Anderson Estevan

Os fogos de artifício
Queimam
Todos os sonhos
Noturnos
Que alguém poderia
Imaginar
Em meio à escuridão
Um poema age assim
Rasgando a carne,
A carapaça etérea
Que nos faz pedaços
Retalhos mal feitos
De papel machê
Estraçalhados de pólvora
Disformes e espalhados
pela areia das horas
E o presente da manhã chega
(A manhã sempre chega)
Fazendo da palavra morta
Cinzas e restos mortais
Que um dia sumirão
Não há escapatória
Muito menos atalho
Que encontre o chão
E o imenso universo
Escondido em um grão
Pequeno pedaço de vida

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Dúvida, Amor e o Fim em 3 partes II

Por: Maurício Lahan Junior

I –

Eu não gostava de você,
Não de início pelo menos,
Mas você persistiu, e veio até mim.

Eu gostava de outra pessoa
Não gostava de você
Mas eu queria gostar.

Tanto quanto poderia
E de olhos fechados me entreguei.

II –

A gente se olhava fixamente,
Fora a nossa primeira noite,
Quente e intensa.

“Quer namorar comigo?”
Você sempre tomando o primeiro passo,
E aceitei sem pensar duas vezes.

Fui feliz…
Como pensava não ser possível outra vez.

III –

Eu nunca entendi seus motivos
Talvez você não tivesse motivos
Nem mesmo para continuar.

Eu só pedi para você ser sincera
Mas você foi fria e evasiva,
Disfarçou e enrolou.

E todas as palavras e promessas
Foram-se como vento.

A moda dos bonecos humanos

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Originalmente publicado em Outras Estórias

Sou de uma época em que todas as crianças sonhavam em se tornar heróis da televisão ou das histórias em quadrinhos (Não existia internet e os filmes de heróis eram péssimos). Eu mesmo, quando pequeno, me imaginava como os imortais Jiraya e Jaspion.

Sdds musiquinha do Daileon

Ah, claro, lembro-me também do começo dos Power Rangers, seriado que revolucionou essa coisa de heróis gigantes em cidades de papelão, explosões e danças esquisitas como técnicas de luta. O tempo passou e cá estou eu, adulto, neurótico, mas sem nenhuma tatuagem I Love Daileon ou sem nenhuma réplica do MegaZord ou do device que eles usavam para se transformar.

Na última semana, porém, me deparei com um nível totalmente diferente de adoração a infância, a saga dos bonecos humanos. Homens com seus vinte e poucos anos que gastam milhares de reais para ficarem idênticos ao “noivo da boneca”. Alguns deles, inclusive, morreram em razão disso. Confesso que ainda não tenho nenhuma opinião em relação a isso, porém, fico um pouco assustado. E se essa moda tivesse pego nos anos 90?

Hoje teríamos milhares de clones dos CiberCops ou mesmo dos WildCats. Não, eu não me esqueci dos Cavaleiros do Zodíaco. Imagine a miríade de jovens que colaram os olhos para ficarem iguais ao Shaka de Virgem? Os cabelos verdades, azuis e brancos? O laranjão dos macacões de Dragon Ball e os meninos e meninas cachorros por causa da TV Colosso?

Tem também o clássico Jovens Tatuados de Beverlly Hills, mas esses… É… Essa moda pegou.

Essa é a hora de sentir vergonha. Não tenha medo de ser feliz

Se você pensa que já tem neuroses demais, pense melhor, você poderia ser o Power Ranger humano de amanhã. E por falar nisso, vou mudar o toque do meu celular. Pega mal.

 

Em uma viagem qualquer eu te vi

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Por: Mauricio Lahan Junior

Ela passa ao longe
“Oi”
De forma discreta
Vira-se e segue seu rumo

Eu paro no meio do Caminho
Tímido
Pensando em algum motivo ou desculpa
Imaginando meios e conversas

Agora lhe encontro por perto
Eu disfarço, Finjo que não vi
“Oi Moço”
E me toca o braço

Depois disso, tudo acontece:
Olhares, Sorrisos e Abraços.
Por apenas um momento,
No meio da Estrada, em Lugar Nenhum

A pizza in the heart of Vacationland

 

Originalmente publicado em: Outras Estórias

Afrânio tem um problema. E, por mais que muita gente pense que não é nada de mais, ele contesta. Sofre demais e a razão é a seguinte: Não consegue comer pizzas com azeitonas. Na capital mundial da pizza na pós-modernidade, São Paulo, isso pode ser um verdadeiro problema.

“Não adianta. Peço sem as malditas azeitonas, todas as vezes. Não adianta. Elas sempre estão lá”, gritou, em um café na região central da cidade. De acordo com ele, até mesmo os motoboys já sabem da sua fama pregressa e saem em disparada assim que foi paga.

Essa é uma tendência pela cidade e não uma exclusividade da mente cansada e estressada do comerciante. Valquíria, auxiliar administrativa, tem pavor a cebolas. Para evitar ter a sua pizza de calabresa “infectada” pela verdura. “Chego a ir à pizzaria e acompanhar tudo in loco. Se colocam uma delas – cebolas – por desatenção, reclamo e faço desmontarem a pizza”, concluiu ela.

Muitas pizzarias estão investindo na capacitação dos seus funcionários e a customização dos pedidos. Álvaro, dono da pizzaria “The Pitição”, desenvolveu um sistema de preenchimento eletrônico que pode ser feito antes do primeiro pedido. “Os clientes entram em nosso site, se cadastram e colocam as suas preferências num questionário. É muito bom”.

E os resultados são impressionantes. Segundo o empresário, as recusas das pizzas de salmão defumado com croutons e linhaça salpicada diminuíram a menos de 5% dos pedidos. A de petit gâteau também é mais bem recebida do que antigamente. “A customização do sabor é a arma do negócio”, concluiu Álvaro.

Já Fritz Hansen, Psiquiatra e Pós Doutor em neuroses cotidianas pela Universidade Federal de Caxambu é lacônico. “Façam terapia ou deixem de frescura”.

O louco do metrô

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Publicado originalmente em Outras Estórias

Pablo adora o metrô. Por mais absurda que essa afirmação possa ser, tem lá o seu fundamento. Diretor de uma multinacional israelense (não adianta, não direi qual), ele faz questão de chegar e sair do trabalho a pé e seguir com o seu ritual de locomoção pelo transporte público.

Pela manhã, Pablo acorda, religiosamente, antes das seis da manhã – mesmo sem precisar – e inicia os seus preparativos. Espalha o seu papaia pelo prato, degustando-o com um croissant de queijo minas e o suco de clorofila. Com o estômago cheio e de banho tomado, segue apressado, com o motorista e os dois seguranças pelas ruas da cidade. Mas não tem problema algum, o seu caminho é contrafluxo. O destino. Itaquera.

Ao descer do automóvel, ele respira fundo e segue pela estação. Os seguranças ficam responsáveis pela sua passagem. O momento mais emocionante está próximo: a hora de entrar no vagão. Ajudado pelos funcionários, consegue sempre um bom lugar no vagão. “O cheiro é maravilhoso”, disse.

Além da variação étnica e da beleza da diversidade, Pablo também destaca a fauna que pode conviver todos os dias. “Mesmo tão cheio, é impressionante quantos pernilongos voam pelo vagão. Quem sabe um dia posso pegar uma dengue?”, enfatizou.

A estação Brás e os trens da CPTM são as suas paradas preferidas. “Meus olhos lacrimejam de emoção. Ver as pessoas entrando e empurrando os outros pelo vagão me lembrou o encontro dos rios Negro e Solimões”.

Com os trens acontece algo semelhante. “Essa coisa de não ter tempo para chegar. Nem como o vagão virá é mágica. É a impermanência. As possibilidades. As veredas infinitas que se bifurcam. Você consegue entender?”

Pablo diz chegar ao trabalho renovado. Pleno. Pronto para enfrentar os seus problemas. “Todo líder deveria fazer isso”. De acordo com ele, o sistema funciona bem, é bem limpo, rápido e climatizado. “Quando atrasa, quase ninguém passa mal. O governador está de parabéns”.

Com isso, Pablo também diminuiu os problemas de atraso, pois seus funcionários não tem mais a desculpa de que “o metrô atrasou”. Se o chefe chega ao trabalho com a ajuda do metrô – e cercado pelos seus seguranças – no horário, não há desculpas para ninguém.

“Definitivamente, São Paulo anda sob trilhos. Quem diz que isso não funciona é porque não se aventura no metrô paulista. Isso aqui é tudo de bom”, diz apressado. O piloto do helicóptero o espera para levá-lo para casa.

E com um sorriso amarelo, diz:  “Não faço isso normalmente, prefiro o metrô. Mas estou atrasado”.

Sobre o meu Demônio

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Por: Mauricio Lahan Junior

-Boa noite.

Uma voz tranquila e grave. Elegante em seu tom, em suas roupas e em sua postura. Um blazer negro e uma camisa cinza. Cabelos penteados para trás e uma barba bem feita em torno de um queixo alinhado e quadrado. Um Corpo meio atlético, perfeito em proporções. Com um olhar frio, que poderia ler sua alma, e um sorriso fácil, capaz de enganar qualquer mulher.

– Quem é você? E o que faz em minha sala a esta hora da noite!?

Eram três da madrugada e não havia explicações plausíveis para entender como aquele homem estava recostado em minha janela dentro de minha própria casa.

– Eu vim por que você me chamou. Afinal, ninguém levanta a essa hora, quase todas as noites, sem motivos. Sem precisar de ajuda.

Ajuda?

– O que você sabe sobre mim?

Ele sorri desdenhoso

– Tudo…

Sou tomado por um calafrio. Mas quem diabos é essa pessoa?

– Você me faz lembrar um cientista que conheci. Cansado de tudo o que o cerca. Das leis e as formas desde mundo. Eu vejo em seus calmos e recaídos olhos. Você quer conhecer mais, quer tudo o que possa ser lhe oferecido. Você pode ter tudo o que quiser. Basta aceitar a queda. O Fundo do poço.

Mas que maldito abusado! Como pode me provocar dentro de minha própria casa?

– Não adianta negar. Se fazer de honesto. Eu sei o que você quer.
Eu sou aquele que você sempre procurou. Aquele que você sempre teve medo de buscar. Venha comigo! Venha e esqueça esses papéis. Essas contas de todos os meses. Esses personagens falsos que você encontra todos os dias em seu computador e que escondem suas reais vidas entre fotografias alegres.

Estou atônito. Paralisado. Não consigo imaginar quem possa ser este homem.

– Você sabe quem eu sou. Sabe que estou dentro de você. Sou aquele que paira sobre seu ombro esquerdo a cada momento de dúvida.
Mas quem é você? Você é aquele cientista que sabe o que quer, mas tem medo de escolher. É aquele louco que a muito tempo está preso numa caixa, construída por uma tal moralidade, que a bem da verdade é apenas uma desculpa para justificar o seu medo de arriscar.

Demônio!

– Mefistófeles seria o correto. Agora venha. Vamos usar o tempo que lhe resta para aproveitar isso que você chama de vida.