14º andar

thehotel06

 

Por Anderson Estevan

 

Publicado Originalmente no blog Outras Estorias

 

A chave dançava ligeira ao redor da fechadura. É o álcool começando a inebriar os seus sentidos, pensou Alice. Quem diria que meia hora e cinco copos de cerveja depois, o drive do mundo estaria no modo very hard? Pois é. Se o tempo pudesse ser retrocedido, como um relógio de corda, o faria sem pensar. Nesse momento, cada segundo era essencial.

Click! A chave decidiu cumprir a sua função. Uma… Duas… E logo a porta estava aberta.

Meio desequilibrada, mas com uma destreza ímpar, levantou uma perna e depois a outra. Os sapatos voaram leves, como falcões imperiais, pela sala cuidadosamente limpa. Antes de atingirem a parede e a mesa de centro, respectivamente, ela já estava com o corpo colado na grande janela que permeia quase um quarto do cômodo.

– Oba! Está aceso, sussurrou.

Como se desperta de um sonho, sacudiu o corpo, e correu em direção à pequena cozinha.

Água quente, panela e macarrão instantâneo. Três minutos depois, com um pouco de química e modernidade, lá estava o seu jantar pronto e servido em um pote fundo de sopa. Fumegante, a mistura batia profunda em seu estômago. Dizem que a fome pode fazer milagres.

Rapidamente ela voltou ao seu posto. Com os olhos atentos sob um binóculo, ajustava a visão até chegar ao conjunto de janelas tão familiar. Eram do condomínio em frente ao seu. Um andar ou dois, talvez. Sem persianas ou cortinas. Quando se queria dormir naquele apartamento, fechava-se as janelas.

Mas dessa vez, como quase todos os dias, ele estava lá. Roendo um pedaço de lápis e encarando uma folha em branco. Eis o escritor. O seu escritor. O que embalou anos e anos de suspiros e leituras adolescentes. Nem um pouco bonito, feio, aliás, ele ainda continuava a ser o escritor. Conseguir esse apartamento, com essa localização estratégica, foi um verdadeiro achado. Quem poderia imaginar que o escritor estivesse apenas há algumas janelas de distância.

Poderia ser excitante, mas foi se convertendo em um lamento frustrante. Desde que começara a espioná-lo, nem uma só palavra havia sido escrita. Será que a sua curiosidade havia convertido a inspiração do pobre escritor em tédio? Ao menos até o momento.

– Ui, exclamou, quando, após muito tempo, ele começou a rabiscar o lápis pelo papel.

Em vão, tentava identificar o que estava sendo escrito, porém o braço comprido do escritor a impedia.

Com a mesma rapidez que começou, o escritor também terminou seu rascunho, saindo do raio de visão de Alice. Finalmente conseguiria ver o que tanto atormentava o escritor.

Sem fazer muita força, ajustou o binóculo e foi lendo, letra a letra, a frase que se desenhava em grafite pelo papel.

NÃO SOUBE O QUE DIZER… OI, TALVEZ? TUDO BEM? BELO BINÓCULO…

Uma súbita tontura pareceu remexer todo o apartamento. A cabeça de Alice girava, assim como as suas pernas. Aquilo não podia ser real. Não poderia. Era apenas o álcool lhe pregando uma peça.

Sem ter coragem suficiente para tirar sua dúvida, fechou lentamente a cortina e voltou para o seu macarrão instantâneo, que agora jazia gelado. Sem misericórdia, deu duas garfadas no emaranhado de fios de trigo e os enfiou na boca. Enquanto mastigava, passou os dedos pelo controle, mas não ligou a tevê. Só conseguia pensar em como essa vida é louca.

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16 responses to “14º andar

  1. Pingback: Mastigando fatos | Crime sem Castigo

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