Carta à Soledade

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Por Anderson Estevan

 

Soberana, latitude, Soledade, solítude

Tu és bruxa, cigana, safada, profana

 

Solidão, Salazar, onde isso vai parar?

Doente, ausente, descrente, urgente

 

Tanta mulher errada para se entregar

Rodar, deitar, cruzar, suar

 

Mas escolhestes justo a tal Soledade

Com maldade, idade, saudade, vontade

 

Sofre de uma vez então pobre Salazar

Por respirar, escutar, chorar, olhar

 

Ver tal amada se insinuando o dia inteiro

Para o leiteiro, o padeiro, o cozinheiro e o banqueiro

 

E não para o sofrido Salazar

Que envia esta carta com pesar:

…Sangra-me os olhos, cigana e não me deixa ver tal atrocidade.

Decepa-me com a guilhotina da paixão ou despeja sobre os meus lábios a cicuta dos loucos. Ò Soledade, bruxa enrustida, escrava da paixão e ceifadora de sentimento. Mata-me por traição.  

As cores tornaram-se opacas sem a tua sacra presença. Os dias já não têm a mesma alegria, como em um passado distante. Dedico a ti, ó profana Soledade

este gole de veneno que me arranca a existência…

Do seu Salazar

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Homem invisível

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Por Anderson Estevan – Texto publicado também em Outras Estórias

O homem invisível caminhava, lento, vagaroso, esquivo. Quase arrastava-se, com medo de que quando alguém lhe tocasse, num grito, toda a sua invisibilidade pudesse desaparecer, transformada num rompante em violência gratuita.

O homem invisível tinha muita fome, mas não podia comprar nada, pois não podia conseguir um trabalho, afinal, ninguém poderia contratar alguém que não poderia ser visto.

Pensou em pedir algum dinheiro, pois a sua voz poderia ser ouvida, mas também não obteve o resultado que gostaria. A maioria não o escutou, estavam inebriados em seus fones de ouvido e conversas cotidianas. Outros assustavam-se com o som da voz do homem invisível e corriam, desconcertados, com lagrimas nos olhos.  Um terceiro tipo, raro, podia escutá-lo perfeitamente, mesmo sem vê-lo, deixavam algumas moedas no chão e seguiam seu caminho.

Porém, invisível, como era o homem não conseguia comprar nada. Quem venderia para alguém invisível? No seu tempo livre, que era todo o tempo possível, homem invisível gostava de caminhar pelos viadutos da cidade. Não havia nada mais bonito, ao menos ao homem invisível, do que o colorido dos grafites que rompiam o cinza da cidade. Assim como ele, os grafites também eram invisíveis.

Assim passaram-se estações. E, com um estalo mental, o homem invisível descobriu como poderia ser visto. Bastou um salto, um movimento, calculado a exaustão, para que todos o enxergassem.

Um dia, estatelado, o homem invisível jazia, morto, em uma poça de sangue rubra em uma dessas avenidas em que adorava caminhar. Sob os olhares das pinturas urbanas, o homem invisível, magicamente pôde ser visto, não em sua completude, mas parcialmente, miserável e com os pés descalços.

Atrapalhando o tráfego, como o operário de Chico Buarque, o homem, apenas homem, quebrou a sua mais intensa maldição, morrendo diante de toda glória que poderia ter, notado em uma segunda-feira de janeiro.

Ao viajante

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Por: Anderson Estevan

 

Divido-me em pedaços

esfarelados em fragmentos perdidos

recolho o viver estilhaçado

sobram-me alguns velhos resquícios

 

Queira Deus e um dia ainda espero

pintar o céu de vermelho ou amarelo

criar vida em tacho de marmelo

ruir muros, mover castelos

 

Reflito por um breve momento

Logo tudo pode ter sido em vão

olhos fechados, joelhos dobrados

Uma prece, uma oração

 

Sangram-me os olhos, ouço a razão

Grito, insulto e mordo. Haverá uma opção

Um pouco de vida um pouco de morte

segue o caminho, ruma para o norte

 

Desde que cheguei aqui

enfrento este dilema profundo:

A cada instante mais longe da vida

e na mesma medida perto de virar defunto

 

É fato, é fio, é pavio

(Aceso ou no escuro)

 

É mudança, infância, fiança

(Sua cabeça aberta e cheia de esperança)

 

É o caminho, colírio, canastra

(Joga tudo que tiver em aposta máxima)

 

É o feijão, o arroz, a saliva

(Pois somente se pisa nesse chão uma vez na

vida)

 

Até logo, vou-me embora

sigo aquela estrada estreita

Que o caos lhe acompanhe

e que mantenha a mente sempre acesa

Palhaço!

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Com trilha sonora , que acompanha no fim do post

Por Anderson Estevan – Publicado também em Outras Estórias

– Olha o palhaço, amiguinho! Exclamou o homem que sapateava rente a calçada.

Pintado de maneira impecável, com batom, babados e sapatos gigantes, ele agitava um grande saco de doces com uma das mãos. Com a outra, oferecia, com uma imensa alegria as duas mulheres que relutavam em dedicar sua atenção aos galanteios do pierrô.

Right About Now

The Funk Soul Brother

E ele, fazendo cara de choro, insistia, em meio ao trânsito infernal, um pouco de atenção das jovens colombinas. A música alta, eletrônica e grave, impedia que as garotas lhe ouvissem.

Check It Out Now

The Funk Soul Brother

A situação era ridícula. Por mais puto que estivesse, ele permanecia sorrindo, mesmo suando sob a fervente roupa de paetê. Não chovia há dias. E, apesar do calor, era tudo o que ele não desejava que ocorresse. Na mais ridícula acepção da palavra, era um palhaço.

Right About Now

O carro andou um pouco, ele seguiu a sua marcha, oferecendo as balas e batendo no vidro. Do lado de dentro, as garotas, refrescadas pelo ar condicionado e inebriadas com os seus aparelhos celulares, finalmente perceberam a presença do homem que se desdobrava pelo lado. Trocaram sorrisos.

The Funk Soul Brother

Check It Out Now

– É só uma balinha, amiguinha. Aceita. Disse o palhaço

A mensagem, abafada, chegou ao entendimento das duas, que se olharam. A dúvida pairou no ar. Ficaram tensas por alguns instantes. Novamente o trânsito fluiu um pouco mais.

The Funk Soul Brother

Nova corrida do palhaço. E, assim que alcançou o automóvel, deparou-se com os olhos verdes das moças, que, ansiosas, aguardavam as balas que o palhaço lhes ofereceria.

Right About Now

The Funk Soul Brother

O palhaço paralisou por um momento, uma gota rala de suor escorregou por sua testa. Enquanto enfiava a mão no saco, um sorriso exagerado começava a se desenhar pelo rosto colorido.

– Muito bem amiguinha, vai querer uma balinha?

Check It Out Now

As garotas sorriram, inocentes, e estenderam as mãos em direção ao homem.

The Funk Soul Brother

Right About Now

Mantendo o sorriso e a serenidade, mas com ares sombrios, o palhaço tirou, rapidamente, uma pistola 45 mm, prateada e gelada. Após sacá-la, em um rápido movimento, ele a posicionou entre os olhos da motorista, que, em um misto de surpresa e pavor, ainda mantinha o sorriso no rosto.

– Dá tudo logo, porra! Celular bolsa e relógio, vai! No sapatinho!

Check It Out Now

The Funk Soul Brother

Antevendo a reação catártica da amiga ao volante, a que ia no banco do passageiro entregou-lhe tudo o que queria.

– Agora, uma balinha para cada um – falou o palhaço, jogando o saco de doces janela a dentro, enquanto corria pelos becos que cercavam a avenida.

Right About Now

The Funk Soul Brother

Cobertas por lágrimas, ambas jamais chegariam perto de um circo em suas vidas.

Poema vermelho

vermelho

 

Por Anderson Estevan

Publicado também em Outras Estórias

Sabes que por cada fio, cada célula
pétala de bem ou mal me quis
Segundo errante em que o desejo impera
eternamente intenso, céu cor de anis

Sou teu de carne e alma
espero que sejas também minha
entre os poucos segundos de calma
e nem quando se for estará sozinha

Fala de amor que respondo com palavras
com sonetos, trombetas, milagres
ou em provas, juras
poemas vermelhos

Guia-me no escuro, entre as rochas
e me conduza até o teu peito
Em perfeita sintonia,
para que possa alcançar o céu

O cheiro do espelho

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Publicado também em Outras Estórias

Poucas coisas podem perturbar mais a mente humana que o zumbido da Dermatobia hominise, conhecida também como mosca varejeira. Não adianta. Por mais concentrado que o indivíduo esteja, até mesmo os mais concretos pensamentos podem ser estraçalhados pelo seu farfalhar ligeiro de asas, patas e torso. O mesmo vale para os sonhos. A estranha frequência do ruído tem o poder, quase sobrenatural, de arrancar-nos dos mais profundos períodos de inércia.

Aurélio se encaixava na segunda categoria de perturbados por moscas. Dormia profundamente, porém completamente imóvel. Em um piscar de olhos, um estalo mental. Um momento. E o insistente som cumpriu o seu objetivo, trazendo-lhe de volta ao mundo concreto, despertando-o em um susto que o fez arregalar os olhos negros e fundos, até então grudados de água e fluidos corporais.

Sacudiu-se, esticando o corpo ao máximo. Ouviu alguns estalos e sentiu que o dedo mínimo do pé esquerdo se descolava dos demais. Não doeu absolutamente nada. Virou-se para o outro lado da cama, espantando os insetos que lhe interrompiam o sono. Levantar parecia uma tarefa hercúlea. A preguiça lhe envolvia dos pés à cabeça. Um cheiro incômodo, porém, daqueles de revirar o estômago, tratou de levá-la para além-mar.

Levantou-se em um salto, ignorando toda a sua indisposição. Chocou-se contra a cômoda, posicionada estrategicamente ao lado da cama. Esfregou o machucado, meramente por costume, e cambaleou até a porta do quarto. Abriu a porta e um jato luminoso invadiu o cômodo. O lusco-fusco o impediu de olhar claramente, mas a sua visão, pouco a pouco, se acostumou às sombras que começavam a se formar.

Quando já tomava ciência da enorme bagunça que o apartamento abrigava, o infernal réquiem das moscas voltou, desta vez carregado pela iluminação de seus sentidos. O odor esquisito, forte em demasia, mas que não conseguia identificar. Suas narinas identificavam a cozinha como origem para o que parecia uma mistura esquisita de carne e comida embolorada. Aurélio apostou em algum defeito na geladeira.

Ele continuou se arrastando, com sono, enquanto suas córneas se ajustavam às mudanças que a luminosidade lhe causara. Papéis, embalagens e garrafas cobriam a paisagem desordenada. Alcançou a cozinha e encontrou a geladeira como imaginava: totalmente aberta. Porém não havia nada lá.

O cheiro aumentava à medida que caminhava, falho, e sem direção pela casa. Suas memórias teimavam em falhar, formando uma densa bruma branca, inundando o seu passado recente em imenso véu de esquecimento. Imagens distorcidas e sons desconexos tornavam a tarefa ainda mais desafiadora. O banheiro, talvez? Foi a sua nova aposta.

Desviando dos cacos de vidro, com grande atenção, o rapaz notou que as suas unhas dos pés estavam além do tamanho aceitável, assim como as das mãos, conferidas em seguida. Ao que lhe pareceu, havia muito que estava naquela casa.

Chegou ao banheiro e os seus sentidos denunciavam a aproximação da podridão. Era esse o local em que aquela carniça estava escondida. As moscas apareceram, aos montes, acompanhando o caminho que havia feito há pouco. Aurélio examinou minuciosamente os armários e também o boxe. Nada. Abriu a tampa da privada na esperança de encontrar algo que resolvesse o mistério. Nada.

Ficou à deriva por alguns segundos. Que poderia ser aquilo? Um novo estalo mental. Cheirou-se as axilas. Uma, duas, três vezes. Era dele que o odor exalava. Quantos dias havia ficado sem tomar banho? Deu um sorriso e passou as mãos pelo próprio rosto. A barba estava bem desenvolvida, proeminente, não era algo que se lembrasse. Decidiu olhar-se no espelho.

Silêncio. Ao olhar sua aparência, entendeu exatamente os pormenores da situação. Era óbvio que o cheiro exalasse dele. Como fora tão ingênuo. Em um novo piscar de olhos tudo ficou cristalino. Do outro lado do espelho, estático, jazia a sua figura morta, ou melhor, a definição mais próxima de um morto que alguém poderia poderia estar. Um belo furo à bala no meio da testa não deixava dúvidas: alguém o havia matado.

Embasbacado, encarou  a sua face branca e sem mobilidade por alguns segundos, quando decidiu mover o corpo e voltar a dormir. No meio do caminho mudou de ideia. Voltou ao armário e pegou uma das cervejas que o enfeitava. Abriu-a com um dos dentes, que, por sinal, saiu rolando pelo chão da casa e manteve-se inundado em pensamentos. Mesmo com as moscas, agora ainda mais insistentes, conseguia pensar com uma clareza cristalina.

Que loucura, pensou. Afinal, como é que tudo isso foi acontecer?