Tempos modernos

estrada-montanha-farois

Curva sinuosa à direita. Era o que indicava a placa há quase trezentos metros à frente do Lamborghini Gallardo que cruzava a rodovia bem acima do limite permitido. Os letreiros multicoloridos e os velhos outdoors refletiam sob o vulto negro que cruzava a estrada a quase 200 km por hora. Engana-se quem acha que ali havia alguma instabilidade, como costumavam dizer. Nenhuma vibração ou mesmo algum desconforto. Alguém poderia tomar um milk-shake de ponta cabeça sem derramar uma gota de leite com sorvete nos bancos de couro e poliéster. Acredite. Eu já testei.  

Aquele automóvel era uma verdadeira joia vintage, ano 2008, se não estou enganado, mas parecia ter vindo de um futuro utópico e longínquo. Não havia força em seus movimentos, nem mesmo no acelerador, que muito bem poderia se mover com a força do pensamento. O Lamborghini acelerava, quase gentilmente, em resposta ao meu desejo de seguir direto pela curva. Possuíamos uma conexão espiritual.     

O breque é acionado. Depois de passar 75 metros exatos da placa. Válvulas bloqueiam as quatro rodas do Lamborghini, que vai deslizando por mais 100 metros, o que ocorre em exatos seis segundos e nove centésimos. Nos próximos quatro subsequentes, o câmbio recebe a informação de que está em primeira marcha e depois de mais ou menos sete segundos, o veículo segue novamente pela estrada, desta vez com a velocidade subindo vertiginosamente.

Uma fina lâmina de água cobria a pista, fruto da leve chuva que mal conseguia acompanhar tal velocidade. Em exatos 37 segundos, o automóvel conseguiu ultrapassar as primeiras gotas que molhavam o solo. E o Lamborghini continuava colado ao chão quente, matando a sua e a nossa fome de transcender aquela simples pista. Uma máquina capaz de me tornar um deus. Um super-herói disforme. Um punhado de átomos felizes.

A viagem não estava tão agradável para o meu companheiro no porta-malas. Nunca é. Não que eu tenha andado em um desses, mas, você sabe, ninguém gosta de perder o visual da estrada. Os seus grunhidos e outros sons indescritíveis, que insistiam a cada declive, denunciavam o seu contragosto com todas aquelas amarras e ataduras que envolviam seu corpo. A percepção do real nem sempre é como imaginamos.

Nova freada brusca e uma inclinação à esquerda. Assim como todos os pensamentos, a pista se subdividiu em uma nova ramificação, dificultando o meu desejo em ultrapassar os limites da máquina que me envolvia. A cada nova diminuição, por conta de obstáculos naturais ou mesmo por algum curva sinuosa, nova frustração. Estava a ponto de chorar, quando tive que estacionar o veículo. Uma pequena morte nasceu em mim.

O que aconteceu em seguida não é tão importante assim, mas, sob as atuais circunstâncias, devo dizer, ao menos superficialmente os fatos citados. Depois de desligar o Lamborghini, destravei as portas e caminhei até o porta-malas. Um simples movimento o abriu e de lá, os olhos medonhos do Sr. Meu Marido, que não merece ser citado, surgiram como estrelas em meio ao espaço sideral.

Foi complicado reconduzi-lo ao volante. Porém, para o seu azar, e o dele, sempre fui bastante obstinada. E, assim como você, fiz todos os processos que me garantem desfrutar novamente da liberdade. Você deve estar pensando nisso e vou poupá-lo desse exercício. O que acontecerá a seguir é exatamente igual. Vou ajustar o espelho, os retrovisores e ligar o carro para que você despenque precipício abaixo. Não, não há como os peritos suspeitarem. Me certifiquei de que tudo pareça e, de fato, seja um acidente. Se eu tenho como voltar? Claro. Está vendo ali, naquela pedra ao lado daquela trilha? Uns quatro quilômetros para dentro da mata há uma moto leve cuidadosamente escondida para garantir a minha fuga.

Quero deixar claro que não faço isso por ódio. Você sempre foi ótimo. Romântico e tal. Mas, infelizmente trata-se de dinheiro e… Você sabe. Acho melhor pararmos por aqui. Penso em te cremar, ok? Seria uma hipocrisia se te enterrasse depois de tudo o que estamos passando. Com os outros dois maridos fiz o mesmo. Acho que agora não precisarei mais me casar. Ótimo, não é?

Tem algo que você queira dizer? E, por favor, sem essa babaquice de pedir para que te solte. Não há mais volta. Na verdade, quem deve te pedir desculpas por isso sou eu. Das outras vezes tudo aconteceu em lugares deslumbrantes, como as montanhas norueguesas e os andes chilenos. Sei que é horrível morrer em um carro popular e no meio da serra do mar. Quer dizer, não sei como é , mas tenho mais experiência no assunto que você, meu bem. Enfim, acho melhor não prolongarmos isso.

Últimas palavras?

Homem invisível

post-inv-g

Por Anderson Estevan – Texto publicado também em Outras Estórias

O homem invisível caminhava, lento, vagaroso, esquivo. Quase arrastava-se, com medo de que quando alguém lhe tocasse, num grito, toda a sua invisibilidade pudesse desaparecer, transformada num rompante em violência gratuita.

O homem invisível tinha muita fome, mas não podia comprar nada, pois não podia conseguir um trabalho, afinal, ninguém poderia contratar alguém que não poderia ser visto.

Pensou em pedir algum dinheiro, pois a sua voz poderia ser ouvida, mas também não obteve o resultado que gostaria. A maioria não o escutou, estavam inebriados em seus fones de ouvido e conversas cotidianas. Outros assustavam-se com o som da voz do homem invisível e corriam, desconcertados, com lagrimas nos olhos.  Um terceiro tipo, raro, podia escutá-lo perfeitamente, mesmo sem vê-lo, deixavam algumas moedas no chão e seguiam seu caminho.

Porém, invisível, como era o homem não conseguia comprar nada. Quem venderia para alguém invisível? No seu tempo livre, que era todo o tempo possível, homem invisível gostava de caminhar pelos viadutos da cidade. Não havia nada mais bonito, ao menos ao homem invisível, do que o colorido dos grafites que rompiam o cinza da cidade. Assim como ele, os grafites também eram invisíveis.

Assim passaram-se estações. E, com um estalo mental, o homem invisível descobriu como poderia ser visto. Bastou um salto, um movimento, calculado a exaustão, para que todos o enxergassem.

Um dia, estatelado, o homem invisível jazia, morto, em uma poça de sangue rubra em uma dessas avenidas em que adorava caminhar. Sob os olhares das pinturas urbanas, o homem invisível, magicamente pôde ser visto, não em sua completude, mas parcialmente, miserável e com os pés descalços.

Atrapalhando o tráfego, como o operário de Chico Buarque, o homem, apenas homem, quebrou a sua mais intensa maldição, morrendo diante de toda glória que poderia ter, notado em uma segunda-feira de janeiro.

Palhaço!

640x480-86abb016d855ae878f9d2a12a13357df

Com trilha sonora , que acompanha no fim do post

Por Anderson Estevan – Publicado também em Outras Estórias

– Olha o palhaço, amiguinho! Exclamou o homem que sapateava rente a calçada.

Pintado de maneira impecável, com batom, babados e sapatos gigantes, ele agitava um grande saco de doces com uma das mãos. Com a outra, oferecia, com uma imensa alegria as duas mulheres que relutavam em dedicar sua atenção aos galanteios do pierrô.

Right About Now

The Funk Soul Brother

E ele, fazendo cara de choro, insistia, em meio ao trânsito infernal, um pouco de atenção das jovens colombinas. A música alta, eletrônica e grave, impedia que as garotas lhe ouvissem.

Check It Out Now

The Funk Soul Brother

A situação era ridícula. Por mais puto que estivesse, ele permanecia sorrindo, mesmo suando sob a fervente roupa de paetê. Não chovia há dias. E, apesar do calor, era tudo o que ele não desejava que ocorresse. Na mais ridícula acepção da palavra, era um palhaço.

Right About Now

O carro andou um pouco, ele seguiu a sua marcha, oferecendo as balas e batendo no vidro. Do lado de dentro, as garotas, refrescadas pelo ar condicionado e inebriadas com os seus aparelhos celulares, finalmente perceberam a presença do homem que se desdobrava pelo lado. Trocaram sorrisos.

The Funk Soul Brother

Check It Out Now

– É só uma balinha, amiguinha. Aceita. Disse o palhaço

A mensagem, abafada, chegou ao entendimento das duas, que se olharam. A dúvida pairou no ar. Ficaram tensas por alguns instantes. Novamente o trânsito fluiu um pouco mais.

The Funk Soul Brother

Nova corrida do palhaço. E, assim que alcançou o automóvel, deparou-se com os olhos verdes das moças, que, ansiosas, aguardavam as balas que o palhaço lhes ofereceria.

Right About Now

The Funk Soul Brother

O palhaço paralisou por um momento, uma gota rala de suor escorregou por sua testa. Enquanto enfiava a mão no saco, um sorriso exagerado começava a se desenhar pelo rosto colorido.

– Muito bem amiguinha, vai querer uma balinha?

Check It Out Now

As garotas sorriram, inocentes, e estenderam as mãos em direção ao homem.

The Funk Soul Brother

Right About Now

Mantendo o sorriso e a serenidade, mas com ares sombrios, o palhaço tirou, rapidamente, uma pistola 45 mm, prateada e gelada. Após sacá-la, em um rápido movimento, ele a posicionou entre os olhos da motorista, que, em um misto de surpresa e pavor, ainda mantinha o sorriso no rosto.

– Dá tudo logo, porra! Celular bolsa e relógio, vai! No sapatinho!

Check It Out Now

The Funk Soul Brother

Antevendo a reação catártica da amiga ao volante, a que ia no banco do passageiro entregou-lhe tudo o que queria.

– Agora, uma balinha para cada um – falou o palhaço, jogando o saco de doces janela a dentro, enquanto corria pelos becos que cercavam a avenida.

Right About Now

The Funk Soul Brother

Cobertas por lágrimas, ambas jamais chegariam perto de um circo em suas vidas.

O cheiro do espelho

download

Publicado também em Outras Estórias

Poucas coisas podem perturbar mais a mente humana que o zumbido da Dermatobia hominise, conhecida também como mosca varejeira. Não adianta. Por mais concentrado que o indivíduo esteja, até mesmo os mais concretos pensamentos podem ser estraçalhados pelo seu farfalhar ligeiro de asas, patas e torso. O mesmo vale para os sonhos. A estranha frequência do ruído tem o poder, quase sobrenatural, de arrancar-nos dos mais profundos períodos de inércia.

Aurélio se encaixava na segunda categoria de perturbados por moscas. Dormia profundamente, porém completamente imóvel. Em um piscar de olhos, um estalo mental. Um momento. E o insistente som cumpriu o seu objetivo, trazendo-lhe de volta ao mundo concreto, despertando-o em um susto que o fez arregalar os olhos negros e fundos, até então grudados de água e fluidos corporais.

Sacudiu-se, esticando o corpo ao máximo. Ouviu alguns estalos e sentiu que o dedo mínimo do pé esquerdo se descolava dos demais. Não doeu absolutamente nada. Virou-se para o outro lado da cama, espantando os insetos que lhe interrompiam o sono. Levantar parecia uma tarefa hercúlea. A preguiça lhe envolvia dos pés à cabeça. Um cheiro incômodo, porém, daqueles de revirar o estômago, tratou de levá-la para além-mar.

Levantou-se em um salto, ignorando toda a sua indisposição. Chocou-se contra a cômoda, posicionada estrategicamente ao lado da cama. Esfregou o machucado, meramente por costume, e cambaleou até a porta do quarto. Abriu a porta e um jato luminoso invadiu o cômodo. O lusco-fusco o impediu de olhar claramente, mas a sua visão, pouco a pouco, se acostumou às sombras que começavam a se formar.

Quando já tomava ciência da enorme bagunça que o apartamento abrigava, o infernal réquiem das moscas voltou, desta vez carregado pela iluminação de seus sentidos. O odor esquisito, forte em demasia, mas que não conseguia identificar. Suas narinas identificavam a cozinha como origem para o que parecia uma mistura esquisita de carne e comida embolorada. Aurélio apostou em algum defeito na geladeira.

Ele continuou se arrastando, com sono, enquanto suas córneas se ajustavam às mudanças que a luminosidade lhe causara. Papéis, embalagens e garrafas cobriam a paisagem desordenada. Alcançou a cozinha e encontrou a geladeira como imaginava: totalmente aberta. Porém não havia nada lá.

O cheiro aumentava à medida que caminhava, falho, e sem direção pela casa. Suas memórias teimavam em falhar, formando uma densa bruma branca, inundando o seu passado recente em imenso véu de esquecimento. Imagens distorcidas e sons desconexos tornavam a tarefa ainda mais desafiadora. O banheiro, talvez? Foi a sua nova aposta.

Desviando dos cacos de vidro, com grande atenção, o rapaz notou que as suas unhas dos pés estavam além do tamanho aceitável, assim como as das mãos, conferidas em seguida. Ao que lhe pareceu, havia muito que estava naquela casa.

Chegou ao banheiro e os seus sentidos denunciavam a aproximação da podridão. Era esse o local em que aquela carniça estava escondida. As moscas apareceram, aos montes, acompanhando o caminho que havia feito há pouco. Aurélio examinou minuciosamente os armários e também o boxe. Nada. Abriu a tampa da privada na esperança de encontrar algo que resolvesse o mistério. Nada.

Ficou à deriva por alguns segundos. Que poderia ser aquilo? Um novo estalo mental. Cheirou-se as axilas. Uma, duas, três vezes. Era dele que o odor exalava. Quantos dias havia ficado sem tomar banho? Deu um sorriso e passou as mãos pelo próprio rosto. A barba estava bem desenvolvida, proeminente, não era algo que se lembrasse. Decidiu olhar-se no espelho.

Silêncio. Ao olhar sua aparência, entendeu exatamente os pormenores da situação. Era óbvio que o cheiro exalasse dele. Como fora tão ingênuo. Em um novo piscar de olhos tudo ficou cristalino. Do outro lado do espelho, estático, jazia a sua figura morta, ou melhor, a definição mais próxima de um morto que alguém poderia poderia estar. Um belo furo à bala no meio da testa não deixava dúvidas: alguém o havia matado.

Embasbacado, encarou  a sua face branca e sem mobilidade por alguns segundos, quando decidiu mover o corpo e voltar a dormir. No meio do caminho mudou de ideia. Voltou ao armário e pegou uma das cervejas que o enfeitava. Abriu-a com um dos dentes, que, por sinal, saiu rolando pelo chão da casa e manteve-se inundado em pensamentos. Mesmo com as moscas, agora ainda mais insistentes, conseguia pensar com uma clareza cristalina.

Que loucura, pensou. Afinal, como é que tudo isso foi acontecer?

Mastigando fatos

tumblr_lmca18k1en1qcmf8fo1_500_large

Publicado também em Outras Estórias

Esse conto é uma continuação informal do post 14º andar

Mascar um chiclete era a sua terapia predileta. O delicado gesto lhe conferia uma série de sensações que tiravam toda a tensão e os pequenos espasmos musculares produzidos pela concentração que o seu trabalho lhe exigia. Além da respiração, é claro. Seis aulas de yoga e já conseguia ver os benefícios na concentração e na clareza de pensamento.

O café também permanecia inseparável. Morno, descafeinado e com adoçante, afinal, tinha de cuidar da saúde, o pequeno copo para viagem se mantinha na pequena mureta, esfriando. Há poucas coisas na vida que sejam tão desanimadoras quanto a frustração de descobrir que o seu café perdeu a magia das bebidas quentes. Por isso, entre um ajuste e outro, interrompia o mastigar da goma e bebericava o extrato do nobre grão.

Sussurrou reclamando o frio que fazia e puxou as mangas do casaco. A mescla de vento e água beliscava os seus punhos, que permaneciam arrepiados. A espera a estava deixando aborrecida. Teve tempo suficiente para terminar a maquiagem, prender os cabelos, que teimavam em cair nos olhos, e atualizar-se de todas as novidades das redes sociais. E nada dele.

Olhou novamente no relógio e lá estava. Atrasado como sempre. Porém, sem o menor traço de preocupação. Sempre fora assim. Livre, desimpedido, uma espécie de espirito livre e sem amarras. Certa preguiça guiava o seu caminhar, assim como os velhos chinelos e as meias esgarçadas. A calça de moletom e a camisa amarrotada, assim como os cabelos despenteados e a barba por fazer, poderiam colocar em dúvida a qualquer um que lhe conhecia. Mas, para ela, não havia uma dúvida sequer: era o seu escritor.

Ele não era popular. Quase anônimo. Não para ela. Quase um ano de observações ininterruptas e tudo o que ele pôde produzir foi aquele livro patético? Quem ele acha que é? Hemingway? Kafka? Tolstói? Ao invés de tomar café, ele deveria estar produzindo o maior romance já feito. Aquilo não poderia mais continuar.

Voltou a mascar o chiclete e o assistiu, com seus passos vagarosos, cruzar a cafeteria e chegar ao caixa. Pediu o mesmo café com leite e os pães de queijo de sempre. Pagou em cédulas, pois, como já havia deixado claro em uma entrevista a um blog underground, odiava cartões de crédito, e voltou caminhando para a mesma mesa do lado de fora. Ao contrário dela, o escritor adorava o frio.

Sentou-se e estendeu o jornal, escondendo-se completamente sob o manto de notícias. Melhor assim.

Que previsível, ela sussurrou enquanto fazia os últimos ajustes no rifle. Quantas e quantas vezes havia feito as contas para que o disparo seja o mais limpo e sonoro possível. Muitos vão achar que ele padeceu de um mal súbito. Era só uma questão de relaxar e deixar o M14 fazer a sua parte. O tripé, assim como a correia estavam prontos, a mira eletrônica também.  Graças à internet poderia cumprir à risca o seu plano traçado minuciosamente por mais de um ano.

PAM! O baque surdo do rifle quase deslocou o seu ombro direito. Assim como tinha imaginado, o estrondo saiu limpo e alcançou o seu alvo com precisão suíça. Embrulhado no jornal ele jazia estatelado sobre a mesa do pequeno café. O que restava dos músculos do seu coração agora eram metal e pólvora. Morreu em menos de um segundo.

Esboçou um sorriso. Quase chorou de emoção. Todos agora sairiam ganhando. O dono do café faria do lugar um ponto turístico. Ele, o escritor, finalmente alcançaria o sucesso, após a morte trágica. E ela, por sua vez, seria a única a ter todos os livros autografados pelo seu escritor favorito.

Ela mal podia se conter. Mordeu os lábios para conter o sorriso e saiu caminhando calmamente enquanto o som das sirenes aumentava exponencialmente. Olhou para o céu e piscou somente o olho direito. Em seguida indagou a si mesma:

– “Que tal, escritor? Arrume um final melhor que esse.

Cinco segundos e o que vem depois…

0725f4b8f8df89ff38b780635f340e1c_L

Publicado também em Outras Estorias

O farfalhar das teclas incomodava. Aliás, quando não incomodou. O lapso temporal entre a intenção, as relações neurais, os eletrochoques e a ação motora é quase instantâneo. Como é que tudo pode ser tão acelerado? Antes mesmo de concluir o pensamento, a palavra já migrou do mundo analógico, que chamamos de real, para um ambiente gasoso, invisível, que apelidamos de internet. Isso sim é magia.

Em menos de um segundo, um simples desejo se materializou em ação, escorreu entre os dedos e se transformou em um oceano binário, que explodia em luz na tela do computador. Era mais um dia de digitação pesada para Melquíades.

Mal lembrava-se como era escrever à mão. Sustentava cada clique e campainha – eram muitas, uma de cada rede social – com uma reação distinta. Do assovio, levantava apenas a sobrancelha; da campainha, apenas sorria; quando soava o clique, apressava-se para visualizá-la. Com a maestria de um Mozart, comandava essa verdadeira sinfonia de ruídos com as pontas dos dedos. Cansou-se. Era um sinal do corpo de que aquilo se esgotara.

Prestes a entregar os pontos, sentiu os ouvidos arranharem mais uma vez. Assim que o relógio alcançou a décima segunda unidade de tempo, dissipou-se a sua angústia, ao menos por alguns instantes. Após longas e intermináveis horas, a vida desenrolava-se, mesmo aos poucos, para que pudesse tornar-se algo. Até então, ao menos nesse dia, fora somente objeto.

Respirou fundo a poluição da cidade e sentiu-a rasgar suas narinas assim que colocou os pés na rua. E arrastando-se, continuou até que um pingo d’água lhe atingisse o nariz. Espanto. E novamente o cérebro trabalhando. O simples contato inesperado entre elemento e elementar produziu uma onda generalizada de tremores e formigamentos em todo o seu corpo. O cheiro da chuva se destacou dos demais.

Sem que pudesse se dar conta disso, o seu sistema nervoso acelerou seus batimentos cardíacos. Outro choque e o sistema límbico gerou uma resposta imediata ao organismo. Com isso, noradrenalina e serotonina são liberadas e jorram com destino certo. Ao receber o estímulo, o sistema nervoso independente contrai e estressa as glândulas em questão. Uma lagrima escorre pela bochecha, atravessando ligeira a barba mal feita.

O que se nota a seguir é uma profusão de água, que se mistura, quase instantânea, quando o céu desaba sobre o homem inerte à beira da calçada. Não se sabe se a tempestade vem de dentro ou fora. O que se pode ter certeza, além das inúmeras certezas absolutas que qualquer um pode ter, é que ele fora tocado pela liberdade. E, para isso, não há remédio.