Pausa para um café com Kafka – Part I

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Primeiro pedacinho de um conto que escrevi um tempo atrás, espero que apreciem ~~

Eu poderia conquistar a porra do mundo todo. Tenho certeza que conseguiria. Sou capaz e competente para isso e vejo tanta gente mediana ou sem… Como posso dizer… Sem brilho que está por aí cheia de dinheiro no bolso.

É! Eu poderia ser um cara cheio de dinheiro no bolso, mas eu não ligo para isso. De verdade. Não quero ser o cara cheio do dinheiro. Eu quero ter o mínimo para viver bem. Sei lá, uns quinze mil mangos por mês tava ótimo. E eu sei que eu posso conseguir isso.

Basta eu ter uma grande idéia e já era. Vai ser de boa. Se esses caras chegaram até lá por que é que eu não posso? Eles não tem nada na cabeça. Só falam futilidades, nunca, sequer, tocaram num livro e os poucos que tocaram foram aqueles “Best sellers” de autoajuda. Fico puto com esses filhos da puta de alma vazia compartilhando suas frases de efeito no Story do WhatsApp.

“Vá aonde ninguém foi e mostre a eles que, enquanto os outros se divertem, você estava vencendo mais uma batalha” – Alcatéia

Alcatéia de cu é rola. To cercado de gente assim. Uns caras que tiveram oportunidades e outros que estão na fila esperando essa chance. Todos lendo autoajuda. Autoajuda é um câncer que se espalhou mais rápido que a dengue. Eles dizem: Seja Foda, Ganhe Dinheiro, Pense como um Milionário, Ligue o Foda-se, Acorde seu Gigante, Seja mais do que os outros acreditam… E assim vai. Um montante de tutoriais dizendo que você deve ser feliz, proativo, firme, dedicado, dinâmico, ousado, disciplinado, sonhador e etc, etc, etc.

Nem vou entrar no mérito de falar sobre igreja. Se for entrar nesse tema… Ahhh… Não. Eu prometi que não ia falar da Igreja.

Kafka escrevia sobre a solidão, depressão, frustrações e tudo o que for contrário aos temas que citei anteriormente e sabe por que? Ele falava sobre a realidade. Isso, vou soletrar:  RE-A-LI-DA-DE.

Mas de onde eu tirei Kafka? Como assim Roberto? Eu estou sendo muito rápido para você. Foda-se. Pega o pó de café ali no armário, por favor. A questão é que Kafka falava sobre a verdade que era a vida. O que ela ainda é. O cara tinha sentimentos sabe? Verdadeiros, não esses que a gente se força a demonstrar dia após dia. E ele sentia isso. E eu sei que você sente também.

Existe alguém ou alguma coisa lá fora que está fodendo sua vida. É algo que está além da sua compreensão. Algo que você não sabe quem ou o que é, mas sabe que existe um sistema, um mecanismo, um demônio, uma força universal da natureza que tá te fodendo.

É o acordar cedo todos os dias, se melecar no suor do abafado trem misturando oxigênio e bactérias divididas entre pessoas que você nunca vai saber o nome. Aguentar o ar condicionado, as dores da bursite e da tendinite que você desenvolveu em cinco anos trabalhando nove horas por dia na frente de um computador, tendo de suportar o gosto escroto do café da máquina de expresso. Eu mataria, sem pensar duas vezes, o cara que criou a máquina de café expresso e dou graças a Deus que o pessoal aqui do andar decidiu comprar uma cafeteira elétrica.

Leva isso para sua vida Roberto, as coisas mais saborosas da vida devem ser feitas lentamente, para aproveitar o cheiro, o movimento e a textura de tudo. Tudo que tiver expresso no nome não presta, é o pular de etapas, o avançar sem preparo, queimar a largada. É algo com sabor falso. Assim como livros de autoajuda. Agora enche isso aqui com água.

Aonde eu estava na nossa conversa?

Sim, verdade. Kafka.

A literatura de Kafka é como café coado sem açúcar. Como assim não faz sentido? Presta atenção. A verdade é ruim de engolir. É amarga e fode seu estômago. Mas é a verdade e você tem que aceitá-la.

Você precisa enxergar que a probabilidade de tudo acabar em merda é grande. E não adianta o seus longos anos cumprindo horários todos os dias e fazendo o melhor para o crescimento da empresa. No fim você vai levar três tapinhas nas costas, e aí, meu amigo, o Kafka vai estar lá rindo da sua cara. Sabe por que? Porque os livros de autoajuda não te prepararam para isso. Eles dizem que você é individualmente especial mas o mundo te mostra que, na real, tu é só um código de barras. Tu é estática, camarada. Nada mais, nada menos.