Torta

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A testa suava, escorrendo entre dobras de pele, criando um longo riacho que descia ao lado dos olhos pela bochecha, até ser sugado pelas raízes da barba espessa abaixo do queixo.

Do lado de fora do plantão de vendas a temperatura chegava a 32º Graus, isso transformava o lado de dentro num grande forno recheado de gente.

CARALHO! Eu to assando igual um Leitão nesse inferno.

O gosto de Hambúrguer com molho Billy & Jack e Cheddar do almoço ainda era quente na boca, mas logo trocou pelo sabor de uma torta branca gelada com chantili e amendoim no recheio e na borda, coberta de Chocolate em calda. A Cada pedaço colocado pra dentro deixava mais liso e engordurado o céu da boca.

A respiração estava apertada emitindo um som distinto que somente o colesterol em alta consegue fazer e com isso tinha a sensação de um Gato arranhando o caminho do nariz a garganta. Cada mastigada se tornava mais difícil.

Eu não vou desistir de você sua torta maldita!

Começou então a enfiar pedaços maiores dentro da boca para terminar com aquela peleja o mais rápido possível. Ainda tinha muita coisa pra fazer, precisava procurar e buscar novos clientes. Não que faturava mal, chegava a fazer 15 mil tranquilo ao mês, mas pra quem sonha com uma Mercedes isso não é o suficiente. Além disto, tinha os dois moleques, a esposa uma gata e dois cachorros. Ah! Havia a Sogra. Seria um clichê dizer que ele a odiava, mas a verdade é que começava a preferir a velha do que a Filha. A primeira pelo menos mantinha a comida da casa sempre fresca.

Quando terminou com a torta já estava totalmente encharcado de suor. A camisa polo colava ao corpo e abrir os botoes não aliviava a sensação de sufoco. Era desagradável e feio. Uma parte da barriga escapava por debaixo da roupa e não se deu ao trabalho de tentar levantar mais a calça para segurar um pouco da banha. Estava inchado. Talvez se não tivesse usado o ticket de desconto que dava direito a dois combos de lanches com 3 Hambúrgueres cada mais Bacon, Cheddar, batata frita e refrigerante pelo preço de um não estaria se sentindo tão inchado. Talvez não teria feito diferença alguma.

Oi! Prazer, eu sou o Gerente Fabiano. Eu preciso apenas ir ao Banheiro e já te atendo pra mostrar os apartamentos.

Sentia as axilas assadas, assim como as virilhas. A unica sensação boa em toda aquela situação molhada era de quando algumas gotas geladas de suor escorriam pelo meio da coluna até a calça. Sentia-se um pouco Gay por gostar daquilo, mas não se importava muito, ninguém poderia saber afinal.

CARALHO! Eu vou acabar morrendo por causa dessas tortas doces.

Com cinco passos cambaleados tentou se aproximar da lixeira ao lado do Banheiro.
No Primeiro Tossiu Seco
No Segundo Um Soluço
No Terceiro Sentiu uma Mão Apertar o Peito por Dentro da Carne
No Quarto Tossiu Arranhando a Garganta
No Quinto Tossiu alto Fez um som gutural que saiu de algum recando do interior de seu corpo, escorregou o pé esquerdo golpeando de lado o direito.

Caiu.

 

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Tesão pelo Ed. Poe

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OOOOIIII!!

Ela sempre de braços abertos e sorriso espalhado na boca. Dentes brancos brilhando ao me ver. E ai jow, era 80% das vezes a minha resposta. 20% eu reservava para um Oi Mih. Mas sempre, sem falta, havia um abraço. Na maioria das vezes ela estava com os ombros desnudos e eu aproveitava para sentir sua pele macia no meu rosto. O cheiro perfumado e natural que exalava era tanto agradável quanto natural.

Meo, você precisa ler Edgar Allan Poe! Tem uma história que… Cerca de 5 a 8 vezes por Mês me comentava sobre alguma literatura do Edgar Allan Poe. Ela ama essa porra de escritor. Nossa sério? Que foda. Assim que der eu vou comprar um livro dele. Invariavelmente, por volta de 90% das vezes, eu respondia dessa forma, logicamente de varias formas genéricas. Os outros 10% eu apenas acenava com a cabeça ou fazia/demonstrava alguma expressão, tal como levantar as sobrancelhas ou apenas sorrir feito idiota. A questão é que eu não me importava, tanto que não me lembro de nada sobre nada do que ela já há de ter me contato do autor e sua obra.

No fim sentia-se satisfeita. Não pelas respostas, essas a deixavam sem graça e desconcertada, sem entender como o meu interesse parecia desaparecer num instante. Então por qual motivo afirmo sua satisfação? Está nos olhos. Todas as vezes que falava sobre Edgar Allan Poe dava para perceber o quanto meus olhos e meu foco estavam voltados 100% para ela. O problema é que a menina acreditava que me importava com o que dizia quando na verdade minha mente estava bem distante.Vendo aqueles lábios delicados se mexendo, imaginando aqueles cabelos longos e lisos, que passavam da altura dos ombros, enrolados na minha mão enquanto eu a puxava. Seu corpo moreno e nu sob o colchão da cama de qualquer Motel barato que encontrássemos, enquanto fugíamos da aula de sociologia.

O tesão que ela enxergava ao ver meus olhos, vidrados durante sua fala, não era por causa do Ed. Poe. Tudo isso começou por causa da Rosa e seus vestidos curtos. Um botão aberto e vermelho tatuado no lado da coxa com seus gravetos subindo por sua perna e entrando em seus vestidinhos coloridos que sempre estavam a cima do joelho e cortando a Flor ao meio. A Curiosidade é a verdadeira razão do Tesão. Não é saber ou ver aquilo que está por baixo de todas as roupas vestidas em pessoas nas ruas e sim imaginar, se perguntar e tentar adivinhar o que está por baixo. Esse período de desejar saber é o segredo do Tesão.

Eu não tinha tesão pela obra do Poe, pior ainda é que me apaixonei. No fim acredito que ela percebeu minha falta de interesse em quase tudo que me dizia. E isso é por causa do Ed. Se fosse Shakespeare, Bukowski ou Kafka, com toda certeza eu teria conseguido algo com a garota. Eu juro que nunca vou ler um livro se quer desse puto.

 

 

Contos – Rubem Fonseca

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Poha.

Recentemente tive contato com os contos de Rubem Fonseca e digo: Poha!

Que forma de escrever maravilhosa. É seco, violento, realista e palpável. Ele escreve algo totalmente concreto na qual você consegue sentir fisicamente a história. E por sentir fisicamente deve-se entender socos na cara que recebemos a cada paragrafo.

Um amigo definiu Rubem como um escritor que faz uma casa crua sem nenhum tipo de reboco ou enfeite. Ela é pura, cimento sobre tijolo. É apenas essência e estrutura.

Eu vi a busca por uma realidade tao bruta como a de Bukowski, porém sendo este um autor que utiliza muitos atos fantásticos nas suas histórias enquanto Fonseca chega a beirar o absurdo do limite humano.

É provável que ao ler você se sinta assistindo aqueles telejornais que a cada dia contam uma história mais e mais mirabolante mas que não são fantasia. Aquilo que as pessoas fazem quando ninguém esta vendo. Tirar a mascara e a roupa do convívio social para buscar episódios do interior humano, como se você fosse uma câmera de vídeo filmando os momentos mais íntimos e isolados das pessoas, aquilo que não é aceito socialmente.

Rubem Fonseca é a verdade que ninguém quer acreditar que exista. O desejo reprimido de se identificar com algo socialmente não permitido. Chega ao animalesco.

Enfim, acredito que o autor traduza bem o titulo do Blog e não é a primeira vez que escrevemos sobre ele (clique aqui para ver o ultimo post sobre o autor), mas acredito que o mesmo merece em muito ser lembrado e re-lembrado, lido e re-lido. Mas esteja pronto para aceitar que a parte mais sedenta por sangue dentro de você vai adorar as obras do autor.

Professores e Bolsonaro

Já faz algum bom tempo que um vídeo, mostrando um professor ameaçando tirar 2 pontos da nota de alunos que falassem sobre Bolsonaro, viralizou na internet.

Por incrível que pareça eu só o vi a alguns dias. Pensei sobre o assunto e visualizei a gravação várias vezes, decidindo assim que seria importante escrever, sobre, aqui no blog.

Não vou entrar no mérito de falar em relação a atitude do professor. O mundo não é um binarismo de certo ou errado, onde existe uma cartilha sobre como viver a vida. Aquele foi um momento no qual, emocionalmente fragilizado, o senhor professor perdeu completamente o controle da situação e precisou se expressar da forma que conseguiu. A questão aqui é refletir sobre como seria estar na pele daquele homem.

Para um educador chegar ao nível de estresse, demostrando no vídeo, é por ter muito a dizer e sentir. E me deixa triste a forma na qual como isso é ironizado.

As questões políticas por muitos são irrelevantes e por outros tantos o que importa é apenas sua própria opinião. Isso é raso. Opinião não se constrói a partir de “achismos“. É preciso ter base e argumentação, não apenas convicção e fé.

O pior é o julgamento online que colocou o professor como petista comunista e afim apenas para desqualifica-lo, como se fosse preciso ser militante de esquerda para ser contra um boçal como o “Mito”.

Vou deixar o link do vídeo aqui para cada um poder refletir sobre o caso e depois vou escrever sobre essa monstruosidade que se chama “Respeitar minha opinião” que está servindo de muleta para justificar alienação com Democracia.

Salve as Almas!

Numa noite de Sexta, a muitos anos atrás, me aconteceu um episódio muito interessante.
O terreiro, como sempre, estava com aquele calor e aroma aconchegante advindo da defumação, os médiuns trabalhavam incorporados quase em silêncio. Era noite de preto(a) velho(a). Noite de calmaria. De olhos tranquilos que levam o peso da historia.
De olhos severos que direcionam as almas.
A “Vozinha”, que estava a minha frente, sempre mantinha um sorriso singelo no rosto. Por todas as vezes que me sentei para uma consulta trazia comigo uma coleção de erros e arrependimentos e ela, com todo o carinho do abraço, sempre me ensinou a levantar a cabeça e olhar para frente, a me focar em ser melhor e aprender com o erros.
Mas não me vem em mente o assunto que tratava na noite em questão e o que de mais incrível aconteceu de forma inesperada.
Ela com toda gentileza e com as mãos pouco trêmulas me ofereceu o café que estava em sua pequena xícara. Aceitei de bom grado e bebi. Logo o gosto amargo e forte tomou conta de toda a minha boca. Naturalmente meu rosto se retorceu por inteiro. Era simplesmente HORRIVEL kkkkk.
Qnd terminei fiquei em silêncio em respeito a entidade que estava em minha frente. Ela sorriu e perguntou: Está amargo ZinFio?
Acenei em sinal de positivo com a cabeça.
Ela então fez do seu semblante um rosto sério e respondeu: pois a tanta coisa amarga nesse mundo, que fazem esse café parecer doce como mel.
Por um instante eu refleti. Logo levei a xícara novamente a boca. Dessa vez não houve careta nenhuma.

Muitas vezes criamos grandes monstros e demônios que nos auto sabotam. E muitas vezes isso acontece por falta de consciência ou compreensão do que está em nossa volta, do que está dentro de nós. Às vezes falta paciência… Reflexão.
Hj todas as manhãs eu me sirvo de café amargo para nunca esquecer da lição aprendida naquela noite de sexta. E por incrível que pareça eu aprendi a encontrar o sabor até mesmo no amargo da bebida.

#SalveAsAlmas #Atôtô

Maturidade

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Maturidade tem haver com o poder de enxergar a realidade e deixar de lado a fantasia.

É triste enxergar mais os tons de cinza ao invés de poder brincar entre as cores, não exatamente o preto no branco isso seria depressão. Mas assim como chocolate meio amargo é possível apreciar aquilo que não é doce.

Ser Maduro é ter passado, como nas frutas, pelo seu desenvolvimento para logo começar sua putrefação. É já ter caído da arvore e carregar consigo as marcas da queda. Não ter mais a sombra e a proteção das folhas, a segurança dos galhos e a alimentação vinda da Mãe arvore. Ser obrigado a arrancar suas sementes de dentro e faze-las cavar raízes profundas.

Quando deixamos de nos importar com palácios e os mais belos e grandiosos cenários iluminados, cheios de ouro e preços, podemos aprender a apreciar o quanto é bonito o canto de um único pássaro e o quanto este canto vale mais a pena do que qualquer arranha-céu erguido. Aprendemos que o prazer da brisa numa manhã de sol é mais agradável do que qualquer toxina intravenosa que seu dinheiro pode pagar.

Maturidade é quando percebemos que o riso dado com alguém é muito mais gostoso do que quando rimos de alguém. Deixar de lado mesquinharias, sabendo se colocar no lugar do outro é nobreza. Preferir aprender com alguém ao invés de querer se impor a ela é sabedoria.

Eu ainda tenho muito a amadurecer e não posso me esquecer.

A dificuldade de escrever um Conto.

Aaaaaarrrrrgghh!!

Como escrever um conto é difícil! Você passa horas na frente do teclado e nada sai. Você escreve e escreve e tudo parece um lixo. Tem preguiça de ler o que escreveu e suas melhores ideias surgem quando se está amassado no metrô indo pro trabalho.

Parafraseando Haruki Murakami, digo que existe um certo limite para que se pode escrever para alguém como eu que está mais vendido a um escritório do que disponível para aquilo que gosto.

Mas nada disso em si serve de desculpas. A melhor forma de se escrever um conto é justamente escrevendo. Mesmo que seja uma frase por dia. Escreva, escreva e escreva mais e mais. Se ficar um lixo escreva de novo. Faça 100 contos horríveis se for preciso para que 1 deles saia bom.

Essa é a ideia! O trabalho duro pode superar até mesmo uma mente genial. E esse vai ser meu mantra. Eu revivi o Crime Sem Castigo para justamente escrever, seja para o que for e pelo que for. Não tenho nenhum tema central mas espaço vai servir para que eu possa todo dia trabalhar com as palavras.

Espero que gostem dos meus conteúdos e que concordem comigo sobre o essencial para se produzir um conto. Vou continuar escrevendo todos os dias e espero que um dos melhores dias ainda chegue até mim.