A Leprechaun

maxresdefault

Já acessaram nosso insta? @CrimeSemCastigo

O ferro acima da cabeça estava puro gelo. O corpo abaixo do crânio queimava por dentro. Havia alívio no toque gélido do metal que fazia com que o suor interno não fosse algo duramente tortuoso.

As pálpebras pesavam e estranhamente ficavam cada vez mais rígidas. Cada singelo som do lugar representava uma nova martelada em sua massa cinzenta, fosse o ruído dos fones de ouvido altos o suficiente para escorrer por fora da orelha do rapaz que estava a sua esquerda ou fosse pelas risadas estridentes das duas mulheres de meia idade a sua direita.

Uma pontada de dor abaixo das costelas, pela lateral das costas representava uma cotovelada advinda dos empurrões da última parada. Era assim todo santo dia. A mesma rotina com as mesmas ocorrências, em ordem aleatória, mas nenhuma delas faltava uma vez sequer.

O problema não era o ambiente, a isso já havia se tornado seu habitat natural, mas sim que hoje o inferno queimava dentro do seu corpo e a fraqueza de espírito naquele momento fazia-o perceber quanto era deprimente ter se acostumado aquela opressão diária.

A temperatura do aço, acima de suas ideias, já havia se tornado ambiente e não tendo onde ou como estender a outra mão para buscar um novo pedaço de salvação acabou por aceitar que sua condenação estava sentenciada.

De repente sentiu um ligeiro choque passando por suas têmporas, fazendo sua testa enrugar ao tempo em que sua arcada dentária travava, enquanto sugava a sobra de saliva na boca percebeu que algum tipo de poeira cármica preenchia a parede de suas narinas. A sensação da morte certa se aproximava, vinda do fundo de seus pulmões, subindo pelos canos internos do corpo ao qual ele não sabia seus nomes. Uma força descontrolada como o estouro de uma debandada explodiu pelo seu nariz fez com que sentisse uma badalada dos sinos de Notre Dame batendo dentro de sua caixa craniana. Mas ele nunca havia ouvido Notre Dame. Um muco viscoso se acumulava dentro de seu sistema respiratório e o fato de não ter sido expelido brutalmente em todas as pessoas ao seu redor fez com que sua fé em Deus fosse restaurada.

Depois da explosiva reação de limpeza natural das suas narinas os olhos fecharam inconscientemente. Lentamente, enquanto os abria, percebeu uma nova figura no local. Em cima do ombro esquerdo do jovem negro sentado a sua frente havia um pequenino senhor barbudinho, vestido de um mini terno verde folha, com calças verde musgo, sapatos verde água e um chapéu verde escuro. Na parte detrás de suas calças ficava preso o caule de uma folha que o protegia a cima da cabeça. O seu rostinho enrugado somado ao monóculo preso em seu olho direito dava a entender que aquele sujeitinho já estava com uma idade bem avançada.

Era curioso. Aquela criatura havia surgido de algum ou qualquer lugar e estava examinando atentamente o rapaz, dono daquele ombro, mas ele parecia não poder perceber a presença do intrigante ser esverdeado. Foi então que, após concluir sua análise, o pequenino duende tirou um saquinho que estava junto a seu cinto e jogou um punhado de poeira no rosto daquela pessoa que em alguns instantes se pôs a dormir.

O velho elfo então caminhou pelo trapézio do dorminhoco e desapareceu ao entrar pelo seu ouvido. Aquela situação era bizarra e assustadora! E a surpresa fez com que pudesse até mesmo esquecer, por algum momento, a temperatura de suas entranhas aumentando. Quando pensou em acordar o rapaz sentado a sua frente para avisá-lo do parasita em sua cabeça percebeu que o pequeno gnomo agora se revelava em outro lugar.

A menina recostada na porta do vagão estava lendo algum livro qualquer sobre como tocar o foda-se para as coisas da vida de maneira correta. Uma garota esbelta e alta, de pele clara, com poucas sardas no rosto facilmente confundidas com canduras. Tinha longos cabelos louros que estavam enrolados em si mesmos no topo de sua cabeça formando um coque. E foi ali, sentado como um passarinho verde num ninho de palha dourada que o homenzinho estava. Observando do alto parecia muito interessado nas reações que a senhorita expressava a cada página lida. E no momento em que ela hesitou em virar uma página e, ao invés disso voltou a página anterior, o ser humaninho fez sua mágica! Uma leve chuva de pó verde recaiu sobre o rosto e os olhos da menina que lentamente deixou o corpo se apoiar mais entre a porta e o recosto do banco ao seu lado, o livro provou seu peso sobre a mão amolecida e foi se fechando enquanto o braço sedia ao apoio da mochila que carregava a frente do corpo. Dormiu. Essa com a boca aberta ainda, coitada. Aquela versão de papai Noel fundida a Luigi do Mario Bros, se aproveitou da situação e descendo pelo rosto, da indefesa e adormecida mulher, entrou em sua boca. Sumiu.

Após ter sido testemunha de mais uma cena sem nenhum tipo de explicação plausível começou a questionar então sua sanidade. Ao mesmo tempo, sentia pequenos tremores deslizarem por todo o seu corpo enquanto o suor gelado praticamente lavava seu rosto. Foi neste momento que sem aviso percebeu pequenos e leves toques subindo das costas, pelo pescoço até seu ombro esquerdo. Lá estava ele, a diminuta criatura. No fundo, já sabia que cedo ou tarde também seria a sua vez, mas não havia o que pudesse fazer para sua proteção e segurança. Seu corpo agora pesava toneladas e seus glóbulos oculares estavam duros como bolas de gude. Quando percebeu que a batalha estava perdida e demonstrou sua rendição ao deitar suas pálpebras sobre os olhos antes mesmo que o pó verde fosse necessário, escutou no pé do ouvido uma voz rouca e animadora:

– Hoje o Velho Leprechaun vai te levar para uma viagem muito doida cara!

Depois da última palavra o breu total tomou conta do mundo. E, como se um buraco tivesse aberto aos seus pés, ele caiu. Caiu mais. Caiu fundo e pesado. Sentia a turbulência do caminho enquanto seu corpo era jogado de um lado para o outro, tremendo sem nenhum controle. Os olhos, mesmo fechados, eram atingidos por diversos lampejos de luzes coloridas. “O caminho do arco-íris!” Pensou e sentiu que havia sorte em tudo aquilo, pois tinha certeza que ganharia um pote de ouro ao final da viagem.

Se lhe perguntarem, com certeza, não saberia responder por quanto tempo essa loucura durou. Mas em algum momento uma luz forte atingiu a pele de seus olhos pelo lado de fora e um toque suave e macio de uma mão rechonchuda apertava seu braço enquanto uma voz firme dizia: Acorda Rapaz! Demorou alguns momentos até ter forças para levantar as pálpebra se se acostumar com a luz do local que era refletida brilhantemente pelas paredes claras. Em sua frente havia o que parecia duas moedas douradas, bem pequenas “O Tesouro!” pensou. Mas infelizmente, quando o nublado turvo dos olhos passou percebeu que aquele ouro eram apenas dois comprimidos amarelos na palma da mão de uma enfermeira da estação de metrô. O frio que sentia era ao ponto de bater o queixo e prometeu a si mesmo nunca mais seria enganado pela febre ou por um Leprechaun.

Anúncios

Cerveja, Frio e Red Hot

v0128275_posterframe

You don’t know my mind
You don’t know my kind
Dark necessities are part of my design, and
Tell the world that I’m
Falling from the sky
Dark necessities are part of my design

A meia luz, da sala iluminada pelas dezesseis horas que deveriam ser lá fora, fazia contraste com as imagens e sombras pulando na tela da televisão. Uma lata de cerveja gelada na mão direita introduzindo um liquido raso e amargo que escorregava pela língua passando garganta a dentro.

Havia uma coluna também. Feita de ossos, localizada no centro das costas, levemente dobrada, próxima a região do pescoço. A pior e mais confortável posição para simplesmente se deixar livre em cima de um sofá meio cama.

Um barulho sonoramente agradável preenchia a sala de estar no volume setenta e quatro, por que números quebrados tem um certo “qué” atrativo, faz com que você se sinta fora da curva, talvez um ser diferenciado que não pensa como todo mundo.

Aquelas pessoas do outro lado da rua nunca vão entender seus prazeres ou os nossos. Elas simplesmente parecem ter os mesmos gostos e sabores, o que não muda o fato de você vivenciar suas experiencias de igual forma quando se está encurralado de toda essa gente. Bem no momento em que se atravessa a calçada. Talvez elas tenham as mesmas necessidades estranhas que você, para se aliviar do dia a dia falso, recheado de sorrisos, beijos, abraços, fofocas, reclamações do chefe e abusos sexuais nos vagões do metrô super lotado.

Será que o vizinho ao lado fica nu enquanto canta e dança como o Renato russo na frente de um espelho grande? Ou talvez aquela secretária dos cabelos cheios fica vendo pornografia de transgêneros a noite toda e por tal motivo sempre tem olheiras profundas durante a manhã de serviço. Talvez a sua tia amélia esteja no Tinder procurando jovens a qual possa gastar suas sobras de dinheiro enquanto o tio Valter cheira cocaína todo santo dia pela manhã e após o almoço.

Será que a gerente geral do escritório de advocacia se diverte sozinha vendo desenhos e comendo docinhos entre a atualização de seu Storys com uma foto a frente do “PC” e outra naquela balada sertaneja de alto padrão?

Afinal de contas será que entendemos ou estamos prontos a conhecer as necessidades mais puras e simples que cada um, deste e do outro lado da cidade, sentem e não podem compartilhar? Estranho pensar que o mais normativo está profundamente enterrado em nossas obscuras e diferentes necessidades.

Hobbie


Eu sempre chego por volta das 9:30 da noite. As crianças em geral estão sempre brincando no chão da sala ou assistindo televisão, essas porcarias do YouTube podem hipnotizar seus filhos por horas a fio. Não que isso seja um problema, na maioria das vezes é a solução.

A Tamara consegue garantir todos os dias que a comida esteja bem fresca para o momento que eu chego. Uma mulher incrível! Lava, passa, cozinha, cuida dos pirralhos. Não é nada além de sua obrigação, mas isso não muda o fato de ela ser incrível, eu mesmo não trocaria um dia de escritório por essa rotina. Ser condicionado a se relacionar com os programas de bem estar pela manhã, os utensílios domésticos e seus produtos de limpeza a tarde, a novela e o fogão no começo da noite e por fim ter apenas duas crianças com menos de 13 anos para poder conversar. Eu ficaria louco no primeiro dia. Ainda com tudo isso ela nunca deixou, nos 7 anos que temos de casamento, uma noite se quer sem ter fogo por mim.

Boa noite princesa. Eu entrego uma rosa com um botão enorme aberto.Como foi seu dia?

Ela suspira e me beija como se não houvesse amanha. Porém os lábios molhados, doces e delicados encontram um pedaço de carne fino e seco que é a minha boca. Eu não sinto o mesmo entusiasmo que ela. Pra falar a verdade, eu não sinto nada por nada aqui.

Após o jantar, me isolo na sala de leitura. Ligo meu Notebook e finjo que estou trabalhando. Enquanto isso ela fica brincando com as crianças, tentando gastar tempo esperando que eu me decida subir para dormir. É algo lastimável. Eu querendo que ela suba sem mim e ela esperando para subir comigo. Minha cabeça começa a doer, lembro de todas as problemáticas que precisarei resolver no escritório. Lembro que preciso ficar esperto para receber a conta do cartão de crédito antes que ela consiga pegar primeiro. São tantas coisas.

Amor. Vou sair para dar uma volta e esfriar a cabeça. Digo isso enquanto vou em direção a porta. Mas a essa hora? Toda sexta feira vai fazer isso agora? É bem claro a expressão de preocupação no rosto branco e delicado dela. Talvez tenha medo que eu esteja tendo um caso e acabe perdendo tudo que ela tem de bom na vida para outra mulher. Ou talvez esteja preocupada com a minha segurança. Pode ser um pouco dos dois, ou muito de ambos. Não devo demorar. Fecho a porta logo ao terminar a frase, sem chances para uma tréplica.

Na garagem encontro o meu fiel companheiro. Um Honda CR-V totalmente negro. Ele tem o tamanho e a força de um rinoceronte e sentir o couro gelado do banco e o perfume fresco de um carro recém lavado não tem preço. Quando giro a chave no comando escuto seu roncar sério e preparado, isso faz os pelos dos meus braços se atiçarem.

São cerca de 23:14 da noite, eu ando pelas ruas com o farol baixo para não chamar muita atenção. Passo 20 minutos procurando de esquina em esquina. Esse carro tem potência, alcança velocidades incríveis em pouco tempo, mas agora eu dirijo a 10 ou 15 km por hora. Devagar e quieto, como um predador no meio da selva escura de concreto. Mais 15 minutos rondando entre ruas e vielas eu encontro minha presa. Usando uma saia preta bem curta com uma blusinha a mostrar o umbigo. Ela deve estar congelando lá fora, mas precisa fazer aquilo, precisa atrair alguns machos para garantir sua sobrevivência. O problema é que todo aquele brilho e maquiagem também chamou minha atenção.

Ao vê-la virando uma esquina eu desligo meus faróis. Lentamente, em ponto morto vou avançando. Quando chego na esquina engato o carro e viro, vejo-a andar rebolando se equilibrando na guia da calçada.

EU SOU UM TIGRE!

O ponteiro vai de 10km/h a 90 em instantes e no último momento eu acendo os faróis, exibindo minhas presas a infeliz criatura. Eu a acerto de lado, como um chute de trivela e assisto seu corpo girar no ar pelo retrovisor.

São meia noite e meia quando chego em casa. Verifico que não há nenhum arranhão no meu Honda. Estou ficando profissional nisso. Deixo meus sapatos na entrada ao lado da porta para não fazer barulho e acordar às crianças. Subo as escadas. A adrenalina ainda pulsa no meu corpo. Eu estou ligado a 220 e agora entendo o motivo pelo qual a cocaína gera tanto dinheiro. Ao entrar no quarto vejo Tamara adormecida na cama e por Deus, nunca senti tanto tesão por ela.

Torta

imagem-2015-12-16-14502905735049

A testa suava, escorrendo entre dobras de pele, criando um longo riacho que descia ao lado dos olhos pela bochecha, até ser sugado pelas raízes da barba espessa abaixo do queixo.

Do lado de fora do plantão de vendas a temperatura chegava a 32º Graus, isso transformava o lado de dentro num grande forno recheado de gente.

CARALHO! Eu to assando igual um Leitão nesse inferno.

O gosto de Hambúrguer com molho Billy & Jack e Cheddar do almoço ainda era quente na boca, mas logo trocou pelo sabor de uma torta branca gelada com chantili e amendoim no recheio e na borda, coberta de Chocolate em calda. A Cada pedaço colocado pra dentro deixava mais liso e engordurado o céu da boca.

A respiração estava apertada emitindo um som distinto que somente o colesterol em alta consegue fazer e com isso tinha a sensação de um Gato arranhando o caminho do nariz a garganta. Cada mastigada se tornava mais difícil.

Eu não vou desistir de você sua torta maldita!

Começou então a enfiar pedaços maiores dentro da boca para terminar com aquela peleja o mais rápido possível. Ainda tinha muita coisa pra fazer, precisava procurar e buscar novos clientes. Não que faturava mal, chegava a fazer 15 mil tranquilo ao mês, mas pra quem sonha com uma Mercedes isso não é o suficiente. Além disto, tinha os dois moleques, a esposa uma gata e dois cachorros. Ah! Havia a Sogra. Seria um clichê dizer que ele a odiava, mas a verdade é que começava a preferir a velha do que a Filha. A primeira pelo menos mantinha a comida da casa sempre fresca.

Quando terminou com a torta já estava totalmente encharcado de suor. A camisa polo colava ao corpo e abrir os botoes não aliviava a sensação de sufoco. Era desagradável e feio. Uma parte da barriga escapava por debaixo da roupa e não se deu ao trabalho de tentar levantar mais a calça para segurar um pouco da banha. Estava inchado. Talvez se não tivesse usado o ticket de desconto que dava direito a dois combos de lanches com 3 Hambúrgueres cada mais Bacon, Cheddar, batata frita e refrigerante pelo preço de um não estaria se sentindo tão inchado. Talvez não teria feito diferença alguma.

Oi! Prazer, eu sou o Gerente Fabiano. Eu preciso apenas ir ao Banheiro e já te atendo pra mostrar os apartamentos.

Sentia as axilas assadas, assim como as virilhas. A unica sensação boa em toda aquela situação molhada era de quando algumas gotas geladas de suor escorriam pelo meio da coluna até a calça. Sentia-se um pouco Gay por gostar daquilo, mas não se importava muito, ninguém poderia saber afinal.

CARALHO! Eu vou acabar morrendo por causa dessas tortas doces.

Com cinco passos cambaleados tentou se aproximar da lixeira ao lado do Banheiro.
No Primeiro Tossiu Seco
No Segundo Um Soluço
No Terceiro Sentiu uma Mão Apertar o Peito por Dentro da Carne
No Quarto Tossiu Arranhando a Garganta
No Quinto Tossiu alto Fez um som gutural que saiu de algum recando do interior de seu corpo, escorregou o pé esquerdo golpeando de lado o direito.

Caiu.

 

Tesão pelo Ed. Poe

edgar-allan-poe-medo-classico-capa-dura-darkside-D_NQ_NP_796057-MLB25892077844_082017-F

OOOOIIII!!

Ela sempre de braços abertos e sorriso espalhado na boca. Dentes brancos brilhando ao me ver. E ai jow, era 80% das vezes a minha resposta. 20% eu reservava para um Oi Mih. Mas sempre, sem falta, havia um abraço. Na maioria das vezes ela estava com os ombros desnudos e eu aproveitava para sentir sua pele macia no meu rosto. O cheiro perfumado e natural que exalava era tanto agradável quanto natural.

Meo, você precisa ler Edgar Allan Poe! Tem uma história que… Cerca de 5 a 8 vezes por Mês me comentava sobre alguma literatura do Edgar Allan Poe. Ela ama essa porra de escritor. Nossa sério? Que foda. Assim que der eu vou comprar um livro dele. Invariavelmente, por volta de 90% das vezes, eu respondia dessa forma, logicamente de varias formas genéricas. Os outros 10% eu apenas acenava com a cabeça ou fazia/demonstrava alguma expressão, tal como levantar as sobrancelhas ou apenas sorrir feito idiota. A questão é que eu não me importava, tanto que não me lembro de nada sobre nada do que ela já há de ter me contato do autor e sua obra.

No fim sentia-se satisfeita. Não pelas respostas, essas a deixavam sem graça e desconcertada, sem entender como o meu interesse parecia desaparecer num instante. Então por qual motivo afirmo sua satisfação? Está nos olhos. Todas as vezes que falava sobre Edgar Allan Poe dava para perceber o quanto meus olhos e meu foco estavam voltados 100% para ela. O problema é que a menina acreditava que me importava com o que dizia quando na verdade minha mente estava bem distante.Vendo aqueles lábios delicados se mexendo, imaginando aqueles cabelos longos e lisos, que passavam da altura dos ombros, enrolados na minha mão enquanto eu a puxava. Seu corpo moreno e nu sob o colchão da cama de qualquer Motel barato que encontrássemos, enquanto fugíamos da aula de sociologia.

O tesão que ela enxergava ao ver meus olhos, vidrados durante sua fala, não era por causa do Ed. Poe. Tudo isso começou por causa da Rosa e seus vestidos curtos. Um botão aberto e vermelho tatuado no lado da coxa com seus gravetos subindo por sua perna e entrando em seus vestidinhos coloridos que sempre estavam a cima do joelho e cortando a Flor ao meio. A Curiosidade é a verdadeira razão do Tesão. Não é saber ou ver aquilo que está por baixo de todas as roupas vestidas em pessoas nas ruas e sim imaginar, se perguntar e tentar adivinhar o que está por baixo. Esse período de desejar saber é o segredo do Tesão.

Eu não tinha tesão pela obra do Poe, pior ainda é que me apaixonei. No fim acredito que ela percebeu minha falta de interesse em quase tudo que me dizia. E isso é por causa do Ed. Se fosse Shakespeare, Bukowski ou Kafka, com toda certeza eu teria conseguido algo com a garota. Eu juro que nunca vou ler um livro se quer desse puto.

 

 

Contos – Rubem Fonseca

fonseca

Poha.

Recentemente tive contato com os contos de Rubem Fonseca e digo: Poha!

Que forma de escrever maravilhosa. É seco, violento, realista e palpável. Ele escreve algo totalmente concreto na qual você consegue sentir fisicamente a história. E por sentir fisicamente deve-se entender socos na cara que recebemos a cada paragrafo.

Um amigo definiu Rubem como um escritor que faz uma casa crua sem nenhum tipo de reboco ou enfeite. Ela é pura, cimento sobre tijolo. É apenas essência e estrutura.

Eu vi a busca por uma realidade tao bruta como a de Bukowski, porém sendo este um autor que utiliza muitos atos fantásticos nas suas histórias enquanto Fonseca chega a beirar o absurdo do limite humano.

É provável que ao ler você se sinta assistindo aqueles telejornais que a cada dia contam uma história mais e mais mirabolante mas que não são fantasia. Aquilo que as pessoas fazem quando ninguém esta vendo. Tirar a mascara e a roupa do convívio social para buscar episódios do interior humano, como se você fosse uma câmera de vídeo filmando os momentos mais íntimos e isolados das pessoas, aquilo que não é aceito socialmente.

Rubem Fonseca é a verdade que ninguém quer acreditar que exista. O desejo reprimido de se identificar com algo socialmente não permitido. Chega ao animalesco.

Enfim, acredito que o autor traduza bem o titulo do Blog e não é a primeira vez que escrevemos sobre ele (clique aqui para ver o ultimo post sobre o autor), mas acredito que o mesmo merece em muito ser lembrado e re-lembrado, lido e re-lido. Mas esteja pronto para aceitar que a parte mais sedenta por sangue dentro de você vai adorar as obras do autor.

Professores e Bolsonaro

Já faz algum bom tempo que um vídeo, mostrando um professor ameaçando tirar 2 pontos da nota de alunos que falassem sobre Bolsonaro, viralizou na internet.

Por incrível que pareça eu só o vi a alguns dias. Pensei sobre o assunto e visualizei a gravação várias vezes, decidindo assim que seria importante escrever, sobre, aqui no blog.

Não vou entrar no mérito de falar em relação a atitude do professor. O mundo não é um binarismo de certo ou errado, onde existe uma cartilha sobre como viver a vida. Aquele foi um momento no qual, emocionalmente fragilizado, o senhor professor perdeu completamente o controle da situação e precisou se expressar da forma que conseguiu. A questão aqui é refletir sobre como seria estar na pele daquele homem.

Para um educador chegar ao nível de estresse, demostrando no vídeo, é por ter muito a dizer e sentir. E me deixa triste a forma na qual como isso é ironizado.

As questões políticas por muitos são irrelevantes e por outros tantos o que importa é apenas sua própria opinião. Isso é raso. Opinião não se constrói a partir de “achismos“. É preciso ter base e argumentação, não apenas convicção e fé.

O pior é o julgamento online que colocou o professor como petista comunista e afim apenas para desqualifica-lo, como se fosse preciso ser militante de esquerda para ser contra um boçal como o “Mito”.

Vou deixar o link do vídeo aqui para cada um poder refletir sobre o caso e depois vou escrever sobre essa monstruosidade que se chama “Respeitar minha opinião” que está servindo de muleta para justificar alienação com Democracia.