Take a shot in the rain

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Tirei uma pequena barra de chocolate do bolso de meu moletom amarelo e preto. Abri facilmente a embalagem e comecei a mastigar aquele pedaço borrachudo.
Cobri a cabeça com a touca do agasalho quando senti os primeiros respingos da garoa. Acomodei os fones de ouvido e guardei o celular no bolso da calça. A musica alta ajudava com o foco da minha atenção.

“Take a shot in the rain”

Ao longe uma menina caminhava em paralelo sem me perceber. Ela me dá apetite de luta.
Vestindo uma saia preta curta com meias longas escuras por baixo, uma camiseta vermelha e uma jaqueta jeans por cima. Cabelos negros, um corte até a altura dos ombros com uma franja na frente.
Ela não passava dos 1,75 de altura. Um corpo de curvas leves, magro e delicado. Talvez fosse um desenho.

“Wait for me”

Eu vi uma foto sua na frente do espelho. Estava escondendo o rosto mas deixava escapar o sorriso no reflexo. Olhos ao chão, levantava com leveza a perna, um passo de bailarina. Estendia o braço direito para baixo e o esquerdo ao alto, mas suas mãos estavam soltas, talvez imaginando um par para guia-las.
Aquela foto em preto e branco, colorida pelo seu sorriso.

“it’s all better now”

As vezes tu virava o rosto enquanto caminhava, no momento em que me percebeu lhe ofereci um riso sem jeito, em troca levantou as sobrancelhas e apertou os lábios como quem dá um “Olá” educado a um estranho de forma simpática.
Você me parecia tão sozinha. Eu queria poder ajudar. Talvez tenha te assustado.

“Gonna be who I am”

O melhor que posso fazer é te olhar por ai.

George W. Trump

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1 míssil Tomahawk deve custar em média 1,6 Milhão de Dólares. Se pensarmos que foram lançados uns 60 da um total de 96 Milhões de Dólares gastos.
Esse valor salvou um total de 0 pessoas e ainda matou cerca de 10 civis no ataque a Síria segundo a Folha.

Esses quase 100 milhoes de dolares investidos no combate a fome salvaria muito mais vidas do que aquelas que foram mortas no ataque quimico que ocorreu a alguns dias atras.
Não que eu defenda as atitudes de Assad.
Mas é que esse papinho de que os EUA é o pai do mundo e da palmada em quem sai da linha para dar educação não me desce goela abaixo.

É obviamente claro que atitudes monstruosas e desumanas de Assad devem ser colocadas em pauta e em debates mundiais. Mesmo o governo Russo defendendo que Assad não tenha relação ao ataque que matou cerca de 80 Pessoas e que a Síria não possui armas químicas, ainda sim o mundo precisa estar atento ao que pode acontecer.

Mas isso não justifica o Estados Unidos da América decidir que tem soberania mundial para tomar, qualquer que seja, uma medida de punição a um estado soberano. Hoje a justificativa é um ataque químico amanhã será um golpe de estado “necessário”.
E não pensem que eles precisam de uma justificativa plausível como um ataque Químico, a história não nos deixa esquecer o que foi a cruel operação Condor que derrubou governos latino americanos e instaurou cruéis Ditaduras em toda a América durante o governo Kennedy.

A atitude apenas criou mais tensões no Oriente Médio, na situação especifica da Síria e nas relações internacionais com a Russia. Putin na manhã seguinte alertou para uma justificativa falsa que foram os motivos que levaram a ação militar, algo que também a história nos faz lembrar quando o então presidente George W. Bush junto ao exercito britânico iniciou uma caçada a Saddam Hussein e que foi confirmado pelo Governo Inglês a farsa na justificativa das ações militares anos depois.

A questão aqui é: Quem disse que os EUA tem autonomia global para decidir quem deve ou não ser punido?
Quantas foram as vezes que eles puniram o Estado de Israel pela sua força militar opressora no oriente médio? E quem vai punir os EUA caso Trump faça alguma merda?

A Operação Condor na América nos anos 70… Operação Gladio na Itália dos Anos 90… A caçada a Saddam Hussein nos anos 2000…
Se tu pensa que Trump se importa com as crianças mortas no ataque químico é bom abrir os olhos.

E sobre a ONU? Ahhh a Gloriosa ONU. EUA toma uma atitude militar Global sem ao menos debater o assunto nas Nações Unidas e os lideres Europeus o aplaudem! A ONU se tornou uma piada Luxuosa.

Homem invisível

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Por Anderson Estevan – Texto publicado também em Outras Estórias

O homem invisível caminhava, lento, vagaroso, esquivo. Quase arrastava-se, com medo de que quando alguém lhe tocasse, num grito, toda a sua invisibilidade pudesse desaparecer, transformada num rompante em violência gratuita.

O homem invisível tinha muita fome, mas não podia comprar nada, pois não podia conseguir um trabalho, afinal, ninguém poderia contratar alguém que não poderia ser visto.

Pensou em pedir algum dinheiro, pois a sua voz poderia ser ouvida, mas também não obteve o resultado que gostaria. A maioria não o escutou, estavam inebriados em seus fones de ouvido e conversas cotidianas. Outros assustavam-se com o som da voz do homem invisível e corriam, desconcertados, com lagrimas nos olhos.  Um terceiro tipo, raro, podia escutá-lo perfeitamente, mesmo sem vê-lo, deixavam algumas moedas no chão e seguiam seu caminho.

Porém, invisível, como era o homem não conseguia comprar nada. Quem venderia para alguém invisível? No seu tempo livre, que era todo o tempo possível, homem invisível gostava de caminhar pelos viadutos da cidade. Não havia nada mais bonito, ao menos ao homem invisível, do que o colorido dos grafites que rompiam o cinza da cidade. Assim como ele, os grafites também eram invisíveis.

Assim passaram-se estações. E, com um estalo mental, o homem invisível descobriu como poderia ser visto. Bastou um salto, um movimento, calculado a exaustão, para que todos o enxergassem.

Um dia, estatelado, o homem invisível jazia, morto, em uma poça de sangue rubra em uma dessas avenidas em que adorava caminhar. Sob os olhares das pinturas urbanas, o homem invisível, magicamente pôde ser visto, não em sua completude, mas parcialmente, miserável e com os pés descalços.

Atrapalhando o tráfego, como o operário de Chico Buarque, o homem, apenas homem, quebrou a sua mais intensa maldição, morrendo diante de toda glória que poderia ter, notado em uma segunda-feira de janeiro.

Poema vermelho

vermelho

 

Por Anderson Estevan

Publicado também em Outras Estórias

Sabes que por cada fio, cada célula
pétala de bem ou mal me quis
Segundo errante em que o desejo impera
eternamente intenso, céu cor de anis

Sou teu de carne e alma
espero que sejas também minha
entre os poucos segundos de calma
e nem quando se for estará sozinha

Fala de amor que respondo com palavras
com sonetos, trombetas, milagres
ou em provas, juras
poemas vermelhos

Guia-me no escuro, entre as rochas
e me conduza até o teu peito
Em perfeita sintonia,
para que possa alcançar o céu

O cheiro do espelho

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Publicado também em Outras Estórias

Poucas coisas podem perturbar mais a mente humana que o zumbido da Dermatobia hominise, conhecida também como mosca varejeira. Não adianta. Por mais concentrado que o indivíduo esteja, até mesmo os mais concretos pensamentos podem ser estraçalhados pelo seu farfalhar ligeiro de asas, patas e torso. O mesmo vale para os sonhos. A estranha frequência do ruído tem o poder, quase sobrenatural, de arrancar-nos dos mais profundos períodos de inércia.

Aurélio se encaixava na segunda categoria de perturbados por moscas. Dormia profundamente, porém completamente imóvel. Em um piscar de olhos, um estalo mental. Um momento. E o insistente som cumpriu o seu objetivo, trazendo-lhe de volta ao mundo concreto, despertando-o em um susto que o fez arregalar os olhos negros e fundos, até então grudados de água e fluidos corporais.

Sacudiu-se, esticando o corpo ao máximo. Ouviu alguns estalos e sentiu que o dedo mínimo do pé esquerdo se descolava dos demais. Não doeu absolutamente nada. Virou-se para o outro lado da cama, espantando os insetos que lhe interrompiam o sono. Levantar parecia uma tarefa hercúlea. A preguiça lhe envolvia dos pés à cabeça. Um cheiro incômodo, porém, daqueles de revirar o estômago, tratou de levá-la para além-mar.

Levantou-se em um salto, ignorando toda a sua indisposição. Chocou-se contra a cômoda, posicionada estrategicamente ao lado da cama. Esfregou o machucado, meramente por costume, e cambaleou até a porta do quarto. Abriu a porta e um jato luminoso invadiu o cômodo. O lusco-fusco o impediu de olhar claramente, mas a sua visão, pouco a pouco, se acostumou às sombras que começavam a se formar.

Quando já tomava ciência da enorme bagunça que o apartamento abrigava, o infernal réquiem das moscas voltou, desta vez carregado pela iluminação de seus sentidos. O odor esquisito, forte em demasia, mas que não conseguia identificar. Suas narinas identificavam a cozinha como origem para o que parecia uma mistura esquisita de carne e comida embolorada. Aurélio apostou em algum defeito na geladeira.

Ele continuou se arrastando, com sono, enquanto suas córneas se ajustavam às mudanças que a luminosidade lhe causara. Papéis, embalagens e garrafas cobriam a paisagem desordenada. Alcançou a cozinha e encontrou a geladeira como imaginava: totalmente aberta. Porém não havia nada lá.

O cheiro aumentava à medida que caminhava, falho, e sem direção pela casa. Suas memórias teimavam em falhar, formando uma densa bruma branca, inundando o seu passado recente em imenso véu de esquecimento. Imagens distorcidas e sons desconexos tornavam a tarefa ainda mais desafiadora. O banheiro, talvez? Foi a sua nova aposta.

Desviando dos cacos de vidro, com grande atenção, o rapaz notou que as suas unhas dos pés estavam além do tamanho aceitável, assim como as das mãos, conferidas em seguida. Ao que lhe pareceu, havia muito que estava naquela casa.

Chegou ao banheiro e os seus sentidos denunciavam a aproximação da podridão. Era esse o local em que aquela carniça estava escondida. As moscas apareceram, aos montes, acompanhando o caminho que havia feito há pouco. Aurélio examinou minuciosamente os armários e também o boxe. Nada. Abriu a tampa da privada na esperança de encontrar algo que resolvesse o mistério. Nada.

Ficou à deriva por alguns segundos. Que poderia ser aquilo? Um novo estalo mental. Cheirou-se as axilas. Uma, duas, três vezes. Era dele que o odor exalava. Quantos dias havia ficado sem tomar banho? Deu um sorriso e passou as mãos pelo próprio rosto. A barba estava bem desenvolvida, proeminente, não era algo que se lembrasse. Decidiu olhar-se no espelho.

Silêncio. Ao olhar sua aparência, entendeu exatamente os pormenores da situação. Era óbvio que o cheiro exalasse dele. Como fora tão ingênuo. Em um novo piscar de olhos tudo ficou cristalino. Do outro lado do espelho, estático, jazia a sua figura morta, ou melhor, a definição mais próxima de um morto que alguém poderia poderia estar. Um belo furo à bala no meio da testa não deixava dúvidas: alguém o havia matado.

Embasbacado, encarou  a sua face branca e sem mobilidade por alguns segundos, quando decidiu mover o corpo e voltar a dormir. No meio do caminho mudou de ideia. Voltou ao armário e pegou uma das cervejas que o enfeitava. Abriu-a com um dos dentes, que, por sinal, saiu rolando pelo chão da casa e manteve-se inundado em pensamentos. Mesmo com as moscas, agora ainda mais insistentes, conseguia pensar com uma clareza cristalina.

Que loucura, pensou. Afinal, como é que tudo isso foi acontecer?

Mastigando fatos

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Publicado também em Outras Estórias

Esse conto é uma continuação informal do post 14º andar

Mascar um chiclete era a sua terapia predileta. O delicado gesto lhe conferia uma série de sensações que tiravam toda a tensão e os pequenos espasmos musculares produzidos pela concentração que o seu trabalho lhe exigia. Além da respiração, é claro. Seis aulas de yoga e já conseguia ver os benefícios na concentração e na clareza de pensamento.

O café também permanecia inseparável. Morno, descafeinado e com adoçante, afinal, tinha de cuidar da saúde, o pequeno copo para viagem se mantinha na pequena mureta, esfriando. Há poucas coisas na vida que sejam tão desanimadoras quanto a frustração de descobrir que o seu café perdeu a magia das bebidas quentes. Por isso, entre um ajuste e outro, interrompia o mastigar da goma e bebericava o extrato do nobre grão.

Sussurrou reclamando o frio que fazia e puxou as mangas do casaco. A mescla de vento e água beliscava os seus punhos, que permaneciam arrepiados. A espera a estava deixando aborrecida. Teve tempo suficiente para terminar a maquiagem, prender os cabelos, que teimavam em cair nos olhos, e atualizar-se de todas as novidades das redes sociais. E nada dele.

Olhou novamente no relógio e lá estava. Atrasado como sempre. Porém, sem o menor traço de preocupação. Sempre fora assim. Livre, desimpedido, uma espécie de espirito livre e sem amarras. Certa preguiça guiava o seu caminhar, assim como os velhos chinelos e as meias esgarçadas. A calça de moletom e a camisa amarrotada, assim como os cabelos despenteados e a barba por fazer, poderiam colocar em dúvida a qualquer um que lhe conhecia. Mas, para ela, não havia uma dúvida sequer: era o seu escritor.

Ele não era popular. Quase anônimo. Não para ela. Quase um ano de observações ininterruptas e tudo o que ele pôde produzir foi aquele livro patético? Quem ele acha que é? Hemingway? Kafka? Tolstói? Ao invés de tomar café, ele deveria estar produzindo o maior romance já feito. Aquilo não poderia mais continuar.

Voltou a mascar o chiclete e o assistiu, com seus passos vagarosos, cruzar a cafeteria e chegar ao caixa. Pediu o mesmo café com leite e os pães de queijo de sempre. Pagou em cédulas, pois, como já havia deixado claro em uma entrevista a um blog underground, odiava cartões de crédito, e voltou caminhando para a mesma mesa do lado de fora. Ao contrário dela, o escritor adorava o frio.

Sentou-se e estendeu o jornal, escondendo-se completamente sob o manto de notícias. Melhor assim.

Que previsível, ela sussurrou enquanto fazia os últimos ajustes no rifle. Quantas e quantas vezes havia feito as contas para que o disparo seja o mais limpo e sonoro possível. Muitos vão achar que ele padeceu de um mal súbito. Era só uma questão de relaxar e deixar o M14 fazer a sua parte. O tripé, assim como a correia estavam prontos, a mira eletrônica também.  Graças à internet poderia cumprir à risca o seu plano traçado minuciosamente por mais de um ano.

PAM! O baque surdo do rifle quase deslocou o seu ombro direito. Assim como tinha imaginado, o estrondo saiu limpo e alcançou o seu alvo com precisão suíça. Embrulhado no jornal ele jazia estatelado sobre a mesa do pequeno café. O que restava dos músculos do seu coração agora eram metal e pólvora. Morreu em menos de um segundo.

Esboçou um sorriso. Quase chorou de emoção. Todos agora sairiam ganhando. O dono do café faria do lugar um ponto turístico. Ele, o escritor, finalmente alcançaria o sucesso, após a morte trágica. E ela, por sua vez, seria a única a ter todos os livros autografados pelo seu escritor favorito.

Ela mal podia se conter. Mordeu os lábios para conter o sorriso e saiu caminhando calmamente enquanto o som das sirenes aumentava exponencialmente. Olhou para o céu e piscou somente o olho direito. Em seguida indagou a si mesma:

– “Que tal, escritor? Arrume um final melhor que esse.

Cinco segundos e o que vem depois…

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Publicado também em Outras Estorias

O farfalhar das teclas incomodava. Aliás, quando não incomodou. O lapso temporal entre a intenção, as relações neurais, os eletrochoques e a ação motora é quase instantâneo. Como é que tudo pode ser tão acelerado? Antes mesmo de concluir o pensamento, a palavra já migrou do mundo analógico, que chamamos de real, para um ambiente gasoso, invisível, que apelidamos de internet. Isso sim é magia.

Em menos de um segundo, um simples desejo se materializou em ação, escorreu entre os dedos e se transformou em um oceano binário, que explodia em luz na tela do computador. Era mais um dia de digitação pesada para Melquíades.

Mal lembrava-se como era escrever à mão. Sustentava cada clique e campainha – eram muitas, uma de cada rede social – com uma reação distinta. Do assovio, levantava apenas a sobrancelha; da campainha, apenas sorria; quando soava o clique, apressava-se para visualizá-la. Com a maestria de um Mozart, comandava essa verdadeira sinfonia de ruídos com as pontas dos dedos. Cansou-se. Era um sinal do corpo de que aquilo se esgotara.

Prestes a entregar os pontos, sentiu os ouvidos arranharem mais uma vez. Assim que o relógio alcançou a décima segunda unidade de tempo, dissipou-se a sua angústia, ao menos por alguns instantes. Após longas e intermináveis horas, a vida desenrolava-se, mesmo aos poucos, para que pudesse tornar-se algo. Até então, ao menos nesse dia, fora somente objeto.

Respirou fundo a poluição da cidade e sentiu-a rasgar suas narinas assim que colocou os pés na rua. E arrastando-se, continuou até que um pingo d’água lhe atingisse o nariz. Espanto. E novamente o cérebro trabalhando. O simples contato inesperado entre elemento e elementar produziu uma onda generalizada de tremores e formigamentos em todo o seu corpo. O cheiro da chuva se destacou dos demais.

Sem que pudesse se dar conta disso, o seu sistema nervoso acelerou seus batimentos cardíacos. Outro choque e o sistema límbico gerou uma resposta imediata ao organismo. Com isso, noradrenalina e serotonina são liberadas e jorram com destino certo. Ao receber o estímulo, o sistema nervoso independente contrai e estressa as glândulas em questão. Uma lagrima escorre pela bochecha, atravessando ligeira a barba mal feita.

O que se nota a seguir é uma profusão de água, que se mistura, quase instantânea, quando o céu desaba sobre o homem inerte à beira da calçada. Não se sabe se a tempestade vem de dentro ou fora. O que se pode ter certeza, além das inúmeras certezas absolutas que qualquer um pode ter, é que ele fora tocado pela liberdade. E, para isso, não há remédio.