Caderno de Capa Vermelha

book

Caderno Vermelho,
De capa dura,
Textura Macia
Como teu Cabelo Trançado

Em noite de Magia
Uma fogueira acessa
Vi Olhos finos
Fixos na chama
Com um Sorriso
Te convidei
Coloquei na minha estante

Cheio de conteúdo
Tantas teorias
Palavras sem fim

Muitas histórias
Quero Escrever em ti
Tantas outras
Desejo apenas ouvir

No inicio da manhã
Preguiça
Começo da tarde almoço
Alimento de energias
Com vinho claro
Uma Troca de experiencias
Sabores feitos de letras

Vermelho
Como o topo de sua cabeça
E o calor na suas bochechas
O mais bonito caderno
Eu encontrei no Outono.

Tatiane

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Hoje
Ao descansar das ruas
Quando apenas as criaturas noturnas estavam despertas
Recorro ao colar em meu pescoço.

Das diversas cores
Foi o branco que levei aos lábios
Rogando perdão pelo azedume amargo no peito.

Da espada julgadora em mãos
Me vi transtornado, confuso em lamentação.

Pois triste é aquele que se permite fazer do Amor a raiva.
Esquece tudo em que acredita
E se perde por mal dizeres.

Faz de si acusador
Perdendo o calor do colo
Carinho que outrora sempre soube oferecer.

Injusto é o sentimento
Que te faz errado por te-lo direito de sentir.

Tempos modernos

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Curva sinuosa à direita. Era o que indicava a placa há quase trezentos metros à frente do Lamborghini Gallardo que cruzava a rodovia bem acima do limite permitido. Os letreiros multicoloridos e os velhos outdoors refletiam sob o vulto negro que cruzava a estrada a quase 200 km por hora. Engana-se quem acha que ali havia alguma instabilidade, como costumavam dizer. Nenhuma vibração ou mesmo algum desconforto. Alguém poderia tomar um milk-shake de ponta cabeça sem derramar uma gota de leite com sorvete nos bancos de couro e poliéster. Acredite. Eu já testei.  

Aquele automóvel era uma verdadeira joia vintage, ano 2008, se não estou enganado, mas parecia ter vindo de um futuro utópico e longínquo. Não havia força em seus movimentos, nem mesmo no acelerador, que muito bem poderia se mover com a força do pensamento. O Lamborghini acelerava, quase gentilmente, em resposta ao meu desejo de seguir direto pela curva. Possuíamos uma conexão espiritual.     

O breque é acionado. Depois de passar 75 metros exatos da placa. Válvulas bloqueiam as quatro rodas do Lamborghini, que vai deslizando por mais 100 metros, o que ocorre em exatos seis segundos e nove centésimos. Nos próximos quatro subsequentes, o câmbio recebe a informação de que está em primeira marcha e depois de mais ou menos sete segundos, o veículo segue novamente pela estrada, desta vez com a velocidade subindo vertiginosamente.

Uma fina lâmina de água cobria a pista, fruto da leve chuva que mal conseguia acompanhar tal velocidade. Em exatos 37 segundos, o automóvel conseguiu ultrapassar as primeiras gotas que molhavam o solo. E o Lamborghini continuava colado ao chão quente, matando a sua e a nossa fome de transcender aquela simples pista. Uma máquina capaz de me tornar um deus. Um super-herói disforme. Um punhado de átomos felizes.

A viagem não estava tão agradável para o meu companheiro no porta-malas. Nunca é. Não que eu tenha andado em um desses, mas, você sabe, ninguém gosta de perder o visual da estrada. Os seus grunhidos e outros sons indescritíveis, que insistiam a cada declive, denunciavam o seu contragosto com todas aquelas amarras e ataduras que envolviam seu corpo. A percepção do real nem sempre é como imaginamos.

Nova freada brusca e uma inclinação à esquerda. Assim como todos os pensamentos, a pista se subdividiu em uma nova ramificação, dificultando o meu desejo em ultrapassar os limites da máquina que me envolvia. A cada nova diminuição, por conta de obstáculos naturais ou mesmo por algum curva sinuosa, nova frustração. Estava a ponto de chorar, quando tive que estacionar o veículo. Uma pequena morte nasceu em mim.

O que aconteceu em seguida não é tão importante assim, mas, sob as atuais circunstâncias, devo dizer, ao menos superficialmente os fatos citados. Depois de desligar o Lamborghini, destravei as portas e caminhei até o porta-malas. Um simples movimento o abriu e de lá, os olhos medonhos do Sr. Meu Marido, que não merece ser citado, surgiram como estrelas em meio ao espaço sideral.

Foi complicado reconduzi-lo ao volante. Porém, para o seu azar, e o dele, sempre fui bastante obstinada. E, assim como você, fiz todos os processos que me garantem desfrutar novamente da liberdade. Você deve estar pensando nisso e vou poupá-lo desse exercício. O que acontecerá a seguir é exatamente igual. Vou ajustar o espelho, os retrovisores e ligar o carro para que você despenque precipício abaixo. Não, não há como os peritos suspeitarem. Me certifiquei de que tudo pareça e, de fato, seja um acidente. Se eu tenho como voltar? Claro. Está vendo ali, naquela pedra ao lado daquela trilha? Uns quatro quilômetros para dentro da mata há uma moto leve cuidadosamente escondida para garantir a minha fuga.

Quero deixar claro que não faço isso por ódio. Você sempre foi ótimo. Romântico e tal. Mas, infelizmente trata-se de dinheiro e… Você sabe. Acho melhor pararmos por aqui. Penso em te cremar, ok? Seria uma hipocrisia se te enterrasse depois de tudo o que estamos passando. Com os outros dois maridos fiz o mesmo. Acho que agora não precisarei mais me casar. Ótimo, não é?

Tem algo que você queira dizer? E, por favor, sem essa babaquice de pedir para que te solte. Não há mais volta. Na verdade, quem deve te pedir desculpas por isso sou eu. Das outras vezes tudo aconteceu em lugares deslumbrantes, como as montanhas norueguesas e os andes chilenos. Sei que é horrível morrer em um carro popular e no meio da serra do mar. Quer dizer, não sei como é , mas tenho mais experiência no assunto que você, meu bem. Enfim, acho melhor não prolongarmos isso.

Últimas palavras?