Cerveja, Frio e Red Hot

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You don’t know my mind
You don’t know my kind
Dark necessities are part of my design, and
Tell the world that I’m
Falling from the sky
Dark necessities are part of my design

A meia luz, da sala iluminada pelas dezesseis horas que deveriam ser lá fora, fazia contraste com as imagens e sombras pulando na tela da televisão. Uma lata de cerveja gelada na mão direita introduzindo um liquido raso e amargo que escorregava pela língua passando garganta a dentro.

Havia uma coluna também. Feita de ossos, localizada no centro das costas, levemente dobrada, próxima a região do pescoço. A pior e mais confortável posição para simplesmente se deixar livre em cima de um sofá meio cama.

Um barulho sonoramente agradável preenchia a sala de estar no volume setenta e quatro, por que números quebrados tem um certo “qué” atrativo, faz com que você se sinta fora da curva, talvez um ser diferenciado que não pensa como todo mundo.

Aquelas pessoas do outro lado da rua nunca vão entender seus prazeres ou os nossos. Elas simplesmente parecem ter os mesmos gostos e sabores, o que não muda o fato de você vivenciar suas experiencias de igual forma quando se está encurralado de toda essa gente. Bem no momento em que se atravessa a calçada. Talvez elas tenham as mesmas necessidades estranhas que você, para se aliviar do dia a dia falso, recheado de sorrisos, beijos, abraços, fofocas, reclamações do chefe e abusos sexuais nos vagões do metrô super lotado.

Será que o vizinho ao lado fica nu enquanto canta e dança como o Renato russo na frente de um espelho grande? Ou talvez aquela secretária dos cabelos cheios fica vendo pornografia de transgêneros a noite toda e por tal motivo sempre tem olheiras profundas durante a manhã de serviço. Talvez a sua tia amélia esteja no Tinder procurando jovens a qual possa gastar suas sobras de dinheiro enquanto o tio Valter cheira cocaína todo santo dia pela manhã e após o almoço.

Será que a gerente geral do escritório de advocacia se diverte sozinha vendo desenhos e comendo docinhos entre a atualização de seu Storys com uma foto a frente do “PC” e outra naquela balada sertaneja de alto padrão?

Afinal de contas será que entendemos ou estamos prontos a conhecer as necessidades mais puras e simples que cada um, deste e do outro lado da cidade, sentem e não podem compartilhar? Estranho pensar que o mais normativo está profundamente enterrado em nossas obscuras e diferentes necessidades.

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Eu te encaro nos olhos, e você sorri

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Por: Mauricio Lahan Junior

PS: Da um Play la embaixo antes 😉

“Vai lá e diz tudo pra ela”

Foi numa mesa bonita, em um local bem confortável, que um amigo me deu um conselho. Me pergunto se conselhos óbvios são realmente conselhos ou se são apenas parte do processo. De qualquer forma pouco importa, eu me decidi e fui, fiz.
Começa com o café amargo que tomei pela manhã. Mentira. Se passava das 13 horas quando acordei. O café era amargo tanto quanto as palavras que estavam passando pela minha cabeça desde o dia anterior, quando recebi o conselho que contei a cima. Mentira. As palavras eram doces, mas as respostas que imaginei para elas eram tristes… Amargas. É mentira dizer que isso começou no dia anterior. Começou muito antes. Num momento que não sei dizer qual, nem precisar o dia, ou as horas. Mas já faz um bom tempo. Tempo o bastante para eu nem lembrar quanto!
Mas aonde eu estava? Sim no café! O dia todo seguiu desta forma, dando voltas nas mesmas palavras. Uma mudança no roteiro aqui, outra ali, buscando qual a melhor forma de dizer, adivinhando qual seria a resposta.
Ela chegou, despreocupada, sem se aproximar muito, afinal eu estava dando um gelo nela nas ultimas semanas. No fim da aula lhe convidei para uma Cerveja. Duas garrafas de coragem era o que eu precisava, ou pelo menos no que eu acreditava. Ela deu risada. A noite toda. Como a muito não fazíamos. Uma risada só dela, livre, solta, natural, daquele tipo de riso gostoso que você pode escutar a vida toda sem enjoar  te convidando para sorrir em uníssono. A conversa fluiu, como se não houvesse tempo, e não importa quantas vezes os celulares em cima da mesa vibraram, a eles não demos nenhuma atenção. Um momento em que existia apenas nós dois. E já se faz um bom tempo, o bastante para eu nem lembrar quanto, que para mim só existe ela.
As duas garrafas não foram suficientes naquele momento.
Fomos embora do lugar. Mas as risadas e as conversas continuaram. Parecia que tínhamos assuntos de anos atrasados.
Eu estava com tudo pronto na cabeça, e fui me decidindo desta forma:
“Eu falo durante a aula” e depois “Eu falo na mesa do bar” e mais para frente “Eu falo enquanto estivermos indo embora”.
Mas nada. Como um iniciante de palco com medo de esquecer o roteiro na cena principal, ou talvez, medo da reação de seu publico. Talvez a mescla dos dois.
No final, tomei a decisão, e fui, fiz… Antes da despedida. Pedi cinco minutos. Mas era outra mentira, pois durou cerca de quinze. Eu acho. Quando estou com ela o tempo fica em segundo plano.
Lhe disse o tudo. Sobre as dores, as palavras, a esperança, o sentimento e sobre o coração. Sobre como ele se agitava quando ela estava perto. Contei sobre como meus olhos se fixavam em cada detalhe, de cada gesto. Falei sobre como ela é linda e o quanto eu me importava com ela.
Vi que seus olhos se encheram, e de forma tao doce ela disse “eu gosto tanto de você”.
Mas não houve um final feliz. Não foi amargo. Trouxe um alívio, sem surpresas.
E por enquanto… Por um bom tempo, o bastante para eu nem saber dizer quanto, vamos manter assim. Distantes.