Pausa para um café com Kafka – Part I

franz_kafka_cafe22

Primeiro pedacinho de um conto que escrevi um tempo atrás, espero que apreciem ~~

Eu poderia conquistar a porra do mundo todo. Tenho certeza que conseguiria. Sou capaz e competente para isso e vejo tanta gente mediana ou sem… Como posso dizer… Sem brilho que está por aí cheia de dinheiro no bolso.

É! Eu poderia ser um cara cheio de dinheiro no bolso, mas eu não ligo para isso. De verdade. Não quero ser o cara cheio do dinheiro. Eu quero ter o mínimo para viver bem. Sei lá, uns quinze mil mangos por mês tava ótimo. E eu sei que eu posso conseguir isso.

Basta eu ter uma grande idéia e já era. Vai ser de boa. Se esses caras chegaram até lá por que é que eu não posso? Eles não tem nada na cabeça. Só falam futilidades, nunca, sequer, tocaram num livro e os poucos que tocaram foram aqueles “Best sellers” de autoajuda. Fico puto com esses filhos da puta de alma vazia compartilhando suas frases de efeito no Story do WhatsApp.

“Vá aonde ninguém foi e mostre a eles que, enquanto os outros se divertem, você estava vencendo mais uma batalha” – Alcatéia

Alcatéia de cu é rola. To cercado de gente assim. Uns caras que tiveram oportunidades e outros que estão na fila esperando essa chance. Todos lendo autoajuda. Autoajuda é um câncer que se espalhou mais rápido que a dengue. Eles dizem: Seja Foda, Ganhe Dinheiro, Pense como um Milionário, Ligue o Foda-se, Acorde seu Gigante, Seja mais do que os outros acreditam… E assim vai. Um montante de tutoriais dizendo que você deve ser feliz, proativo, firme, dedicado, dinâmico, ousado, disciplinado, sonhador e etc, etc, etc.

Nem vou entrar no mérito de falar sobre igreja. Se for entrar nesse tema… Ahhh… Não. Eu prometi que não ia falar da Igreja.

Kafka escrevia sobre a solidão, depressão, frustrações e tudo o que for contrário aos temas que citei anteriormente e sabe por que? Ele falava sobre a realidade. Isso, vou soletrar:  RE-A-LI-DA-DE.

Mas de onde eu tirei Kafka? Como assim Roberto? Eu estou sendo muito rápido para você. Foda-se. Pega o pó de café ali no armário, por favor. A questão é que Kafka falava sobre a verdade que era a vida. O que ela ainda é. O cara tinha sentimentos sabe? Verdadeiros, não esses que a gente se força a demonstrar dia após dia. E ele sentia isso. E eu sei que você sente também.

Existe alguém ou alguma coisa lá fora que está fodendo sua vida. É algo que está além da sua compreensão. Algo que você não sabe quem ou o que é, mas sabe que existe um sistema, um mecanismo, um demônio, uma força universal da natureza que tá te fodendo.

É o acordar cedo todos os dias, se melecar no suor do abafado trem misturando oxigênio e bactérias divididas entre pessoas que você nunca vai saber o nome. Aguentar o ar condicionado, as dores da bursite e da tendinite que você desenvolveu em cinco anos trabalhando nove horas por dia na frente de um computador, tendo de suportar o gosto escroto do café da máquina de expresso. Eu mataria, sem pensar duas vezes, o cara que criou a máquina de café expresso e dou graças a Deus que o pessoal aqui do andar decidiu comprar uma cafeteira elétrica.

Leva isso para sua vida Roberto, as coisas mais saborosas da vida devem ser feitas lentamente, para aproveitar o cheiro, o movimento e a textura de tudo. Tudo que tiver expresso no nome não presta, é o pular de etapas, o avançar sem preparo, queimar a largada. É algo com sabor falso. Assim como livros de autoajuda. Agora enche isso aqui com água.

Aonde eu estava na nossa conversa?

Sim, verdade. Kafka.

A literatura de Kafka é como café coado sem açúcar. Como assim não faz sentido? Presta atenção. A verdade é ruim de engolir. É amarga e fode seu estômago. Mas é a verdade e você tem que aceitá-la.

Você precisa enxergar que a probabilidade de tudo acabar em merda é grande. E não adianta o seus longos anos cumprindo horários todos os dias e fazendo o melhor para o crescimento da empresa. No fim você vai levar três tapinhas nas costas, e aí, meu amigo, o Kafka vai estar lá rindo da sua cara. Sabe por que? Porque os livros de autoajuda não te prepararam para isso. Eles dizem que você é individualmente especial mas o mundo te mostra que, na real, tu é só um código de barras. Tu é estática, camarada. Nada mais, nada menos.

Anúncios

Tesão pelo Ed. Poe

edgar-allan-poe-medo-classico-capa-dura-darkside-D_NQ_NP_796057-MLB25892077844_082017-F

OOOOIIII!!

Ela sempre de braços abertos e sorriso espalhado na boca. Dentes brancos brilhando ao me ver. E ai jow, era 80% das vezes a minha resposta. 20% eu reservava para um Oi Mih. Mas sempre, sem falta, havia um abraço. Na maioria das vezes ela estava com os ombros desnudos e eu aproveitava para sentir sua pele macia no meu rosto. O cheiro perfumado e natural que exalava era tanto agradável quanto natural.

Meo, você precisa ler Edgar Allan Poe! Tem uma história que… Cerca de 5 a 8 vezes por Mês me comentava sobre alguma literatura do Edgar Allan Poe. Ela ama essa porra de escritor. Nossa sério? Que foda. Assim que der eu vou comprar um livro dele. Invariavelmente, por volta de 90% das vezes, eu respondia dessa forma, logicamente de varias formas genéricas. Os outros 10% eu apenas acenava com a cabeça ou fazia/demonstrava alguma expressão, tal como levantar as sobrancelhas ou apenas sorrir feito idiota. A questão é que eu não me importava, tanto que não me lembro de nada sobre nada do que ela já há de ter me contato do autor e sua obra.

No fim sentia-se satisfeita. Não pelas respostas, essas a deixavam sem graça e desconcertada, sem entender como o meu interesse parecia desaparecer num instante. Então por qual motivo afirmo sua satisfação? Está nos olhos. Todas as vezes que falava sobre Edgar Allan Poe dava para perceber o quanto meus olhos e meu foco estavam voltados 100% para ela. O problema é que a menina acreditava que me importava com o que dizia quando na verdade minha mente estava bem distante.Vendo aqueles lábios delicados se mexendo, imaginando aqueles cabelos longos e lisos, que passavam da altura dos ombros, enrolados na minha mão enquanto eu a puxava. Seu corpo moreno e nu sob o colchão da cama de qualquer Motel barato que encontrássemos, enquanto fugíamos da aula de sociologia.

O tesão que ela enxergava ao ver meus olhos, vidrados durante sua fala, não era por causa do Ed. Poe. Tudo isso começou por causa da Rosa e seus vestidos curtos. Um botão aberto e vermelho tatuado no lado da coxa com seus gravetos subindo por sua perna e entrando em seus vestidinhos coloridos que sempre estavam a cima do joelho e cortando a Flor ao meio. A Curiosidade é a verdadeira razão do Tesão. Não é saber ou ver aquilo que está por baixo de todas as roupas vestidas em pessoas nas ruas e sim imaginar, se perguntar e tentar adivinhar o que está por baixo. Esse período de desejar saber é o segredo do Tesão.

Eu não tinha tesão pela obra do Poe, pior ainda é que me apaixonei. No fim acredito que ela percebeu minha falta de interesse em quase tudo que me dizia. E isso é por causa do Ed. Se fosse Shakespeare, Bukowski ou Kafka, com toda certeza eu teria conseguido algo com a garota. Eu juro que nunca vou ler um livro se quer desse puto.

 

 

Contos – Rubem Fonseca

fonseca

Poha.

Recentemente tive contato com os contos de Rubem Fonseca e digo: Poha!

Que forma de escrever maravilhosa. É seco, violento, realista e palpável. Ele escreve algo totalmente concreto na qual você consegue sentir fisicamente a história. E por sentir fisicamente deve-se entender socos na cara que recebemos a cada paragrafo.

Um amigo definiu Rubem como um escritor que faz uma casa crua sem nenhum tipo de reboco ou enfeite. Ela é pura, cimento sobre tijolo. É apenas essência e estrutura.

Eu vi a busca por uma realidade tao bruta como a de Bukowski, porém sendo este um autor que utiliza muitos atos fantásticos nas suas histórias enquanto Fonseca chega a beirar o absurdo do limite humano.

É provável que ao ler você se sinta assistindo aqueles telejornais que a cada dia contam uma história mais e mais mirabolante mas que não são fantasia. Aquilo que as pessoas fazem quando ninguém esta vendo. Tirar a mascara e a roupa do convívio social para buscar episódios do interior humano, como se você fosse uma câmera de vídeo filmando os momentos mais íntimos e isolados das pessoas, aquilo que não é aceito socialmente.

Rubem Fonseca é a verdade que ninguém quer acreditar que exista. O desejo reprimido de se identificar com algo socialmente não permitido. Chega ao animalesco.

Enfim, acredito que o autor traduza bem o titulo do Blog e não é a primeira vez que escrevemos sobre ele (clique aqui para ver o ultimo post sobre o autor), mas acredito que o mesmo merece em muito ser lembrado e re-lembrado, lido e re-lido. Mas esteja pronto para aceitar que a parte mais sedenta por sangue dentro de você vai adorar as obras do autor.

A dificuldade de escrever um Conto.

Aaaaaarrrrrgghh!!

Como escrever um conto é difícil! Você passa horas na frente do teclado e nada sai. Você escreve e escreve e tudo parece um lixo. Tem preguiça de ler o que escreveu e suas melhores ideias surgem quando se está amassado no metrô indo pro trabalho.

Parafraseando Haruki Murakami, digo que existe um certo limite para que se pode escrever para alguém como eu que está mais vendido a um escritório do que disponível para aquilo que gosto.

Mas nada disso em si serve de desculpas. A melhor forma de se escrever um conto é justamente escrevendo. Mesmo que seja uma frase por dia. Escreva, escreva e escreva mais e mais. Se ficar um lixo escreva de novo. Faça 100 contos horríveis se for preciso para que 1 deles saia bom.

Essa é a ideia! O trabalho duro pode superar até mesmo uma mente genial. E esse vai ser meu mantra. Eu revivi o Crime Sem Castigo para justamente escrever, seja para o que for e pelo que for. Não tenho nenhum tema central mas espaço vai servir para que eu possa todo dia trabalhar com as palavras.

Espero que gostem dos meus conteúdos e que concordem comigo sobre o essencial para se produzir um conto. Vou continuar escrevendo todos os dias e espero que um dos melhores dias ainda chegue até mim.