A Leprechaun

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O ferro acima da cabeça estava puro gelo. O corpo abaixo do crânio queimava por dentro. Havia alívio no toque gélido do metal que fazia com que o suor interno não fosse algo duramente tortuoso.

As pálpebras pesavam e estranhamente ficavam cada vez mais rígidas. Cada singelo som do lugar representava uma nova martelada em sua massa cinzenta, fosse o ruído dos fones de ouvido altos o suficiente para escorrer por fora da orelha do rapaz que estava a sua esquerda ou fosse pelas risadas estridentes das duas mulheres de meia idade a sua direita.

Uma pontada de dor abaixo das costelas, pela lateral das costas representava uma cotovelada advinda dos empurrões da última parada. Era assim todo santo dia. A mesma rotina com as mesmas ocorrências, em ordem aleatória, mas nenhuma delas faltava uma vez sequer.

O problema não era o ambiente, a isso já havia se tornado seu habitat natural, mas sim que hoje o inferno queimava dentro do seu corpo e a fraqueza de espírito naquele momento fazia-o perceber quanto era deprimente ter se acostumado aquela opressão diária.

A temperatura do aço, acima de suas ideias, já havia se tornado ambiente e não tendo onde ou como estender a outra mão para buscar um novo pedaço de salvação acabou por aceitar que sua condenação estava sentenciada.

De repente sentiu um ligeiro choque passando por suas têmporas, fazendo sua testa enrugar ao tempo em que sua arcada dentária travava, enquanto sugava a sobra de saliva na boca percebeu que algum tipo de poeira cármica preenchia a parede de suas narinas. A sensação da morte certa se aproximava, vinda do fundo de seus pulmões, subindo pelos canos internos do corpo ao qual ele não sabia seus nomes. Uma força descontrolada como o estouro de uma debandada explodiu pelo seu nariz fez com que sentisse uma badalada dos sinos de Notre Dame batendo dentro de sua caixa craniana. Mas ele nunca havia ouvido Notre Dame. Um muco viscoso se acumulava dentro de seu sistema respiratório e o fato de não ter sido expelido brutalmente em todas as pessoas ao seu redor fez com que sua fé em Deus fosse restaurada.

Depois da explosiva reação de limpeza natural das suas narinas os olhos fecharam inconscientemente. Lentamente, enquanto os abria, percebeu uma nova figura no local. Em cima do ombro esquerdo do jovem negro sentado a sua frente havia um pequenino senhor barbudinho, vestido de um mini terno verde folha, com calças verde musgo, sapatos verde água e um chapéu verde escuro. Na parte detrás de suas calças ficava preso o caule de uma folha que o protegia a cima da cabeça. O seu rostinho enrugado somado ao monóculo preso em seu olho direito dava a entender que aquele sujeitinho já estava com uma idade bem avançada.

Era curioso. Aquela criatura havia surgido de algum ou qualquer lugar e estava examinando atentamente o rapaz, dono daquele ombro, mas ele parecia não poder perceber a presença do intrigante ser esverdeado. Foi então que, após concluir sua análise, o pequenino duende tirou um saquinho que estava junto a seu cinto e jogou um punhado de poeira no rosto daquela pessoa que em alguns instantes se pôs a dormir.

O velho elfo então caminhou pelo trapézio do dorminhoco e desapareceu ao entrar pelo seu ouvido. Aquela situação era bizarra e assustadora! E a surpresa fez com que pudesse até mesmo esquecer, por algum momento, a temperatura de suas entranhas aumentando. Quando pensou em acordar o rapaz sentado a sua frente para avisá-lo do parasita em sua cabeça percebeu que o pequeno gnomo agora se revelava em outro lugar.

A menina recostada na porta do vagão estava lendo algum livro qualquer sobre como tocar o foda-se para as coisas da vida de maneira correta. Uma garota esbelta e alta, de pele clara, com poucas sardas no rosto facilmente confundidas com canduras. Tinha longos cabelos louros que estavam enrolados em si mesmos no topo de sua cabeça formando um coque. E foi ali, sentado como um passarinho verde num ninho de palha dourada que o homenzinho estava. Observando do alto parecia muito interessado nas reações que a senhorita expressava a cada página lida. E no momento em que ela hesitou em virar uma página e, ao invés disso voltou a página anterior, o ser humaninho fez sua mágica! Uma leve chuva de pó verde recaiu sobre o rosto e os olhos da menina que lentamente deixou o corpo se apoiar mais entre a porta e o recosto do banco ao seu lado, o livro provou seu peso sobre a mão amolecida e foi se fechando enquanto o braço sedia ao apoio da mochila que carregava a frente do corpo. Dormiu. Essa com a boca aberta ainda, coitada. Aquela versão de papai Noel fundida a Luigi do Mario Bros, se aproveitou da situação e descendo pelo rosto, da indefesa e adormecida mulher, entrou em sua boca. Sumiu.

Após ter sido testemunha de mais uma cena sem nenhum tipo de explicação plausível começou a questionar então sua sanidade. Ao mesmo tempo, sentia pequenos tremores deslizarem por todo o seu corpo enquanto o suor gelado praticamente lavava seu rosto. Foi neste momento que sem aviso percebeu pequenos e leves toques subindo das costas, pelo pescoço até seu ombro esquerdo. Lá estava ele, a diminuta criatura. No fundo, já sabia que cedo ou tarde também seria a sua vez, mas não havia o que pudesse fazer para sua proteção e segurança. Seu corpo agora pesava toneladas e seus glóbulos oculares estavam duros como bolas de gude. Quando percebeu que a batalha estava perdida e demonstrou sua rendição ao deitar suas pálpebras sobre os olhos antes mesmo que o pó verde fosse necessário, escutou no pé do ouvido uma voz rouca e animadora:

– Hoje o Velho Leprechaun vai te levar para uma viagem muito doida cara!

Depois da última palavra o breu total tomou conta do mundo. E, como se um buraco tivesse aberto aos seus pés, ele caiu. Caiu mais. Caiu fundo e pesado. Sentia a turbulência do caminho enquanto seu corpo era jogado de um lado para o outro, tremendo sem nenhum controle. Os olhos, mesmo fechados, eram atingidos por diversos lampejos de luzes coloridas. “O caminho do arco-íris!” Pensou e sentiu que havia sorte em tudo aquilo, pois tinha certeza que ganharia um pote de ouro ao final da viagem.

Se lhe perguntarem, com certeza, não saberia responder por quanto tempo essa loucura durou. Mas em algum momento uma luz forte atingiu a pele de seus olhos pelo lado de fora e um toque suave e macio de uma mão rechonchuda apertava seu braço enquanto uma voz firme dizia: Acorda Rapaz! Demorou alguns momentos até ter forças para levantar as pálpebra se se acostumar com a luz do local que era refletida brilhantemente pelas paredes claras. Em sua frente havia o que parecia duas moedas douradas, bem pequenas “O Tesouro!” pensou. Mas infelizmente, quando o nublado turvo dos olhos passou percebeu que aquele ouro eram apenas dois comprimidos amarelos na palma da mão de uma enfermeira da estação de metrô. O frio que sentia era ao ponto de bater o queixo e prometeu a si mesmo nunca mais seria enganado pela febre ou por um Leprechaun.

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Cerveja, Frio e Red Hot

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You don’t know my mind
You don’t know my kind
Dark necessities are part of my design, and
Tell the world that I’m
Falling from the sky
Dark necessities are part of my design

A meia luz, da sala iluminada pelas dezesseis horas que deveriam ser lá fora, fazia contraste com as imagens e sombras pulando na tela da televisão. Uma lata de cerveja gelada na mão direita introduzindo um liquido raso e amargo que escorregava pela língua passando garganta a dentro.

Havia uma coluna também. Feita de ossos, localizada no centro das costas, levemente dobrada, próxima a região do pescoço. A pior e mais confortável posição para simplesmente se deixar livre em cima de um sofá meio cama.

Um barulho sonoramente agradável preenchia a sala de estar no volume setenta e quatro, por que números quebrados tem um certo “qué” atrativo, faz com que você se sinta fora da curva, talvez um ser diferenciado que não pensa como todo mundo.

Aquelas pessoas do outro lado da rua nunca vão entender seus prazeres ou os nossos. Elas simplesmente parecem ter os mesmos gostos e sabores, o que não muda o fato de você vivenciar suas experiencias de igual forma quando se está encurralado de toda essa gente. Bem no momento em que se atravessa a calçada. Talvez elas tenham as mesmas necessidades estranhas que você, para se aliviar do dia a dia falso, recheado de sorrisos, beijos, abraços, fofocas, reclamações do chefe e abusos sexuais nos vagões do metrô super lotado.

Será que o vizinho ao lado fica nu enquanto canta e dança como o Renato russo na frente de um espelho grande? Ou talvez aquela secretária dos cabelos cheios fica vendo pornografia de transgêneros a noite toda e por tal motivo sempre tem olheiras profundas durante a manhã de serviço. Talvez a sua tia amélia esteja no Tinder procurando jovens a qual possa gastar suas sobras de dinheiro enquanto o tio Valter cheira cocaína todo santo dia pela manhã e após o almoço.

Será que a gerente geral do escritório de advocacia se diverte sozinha vendo desenhos e comendo docinhos entre a atualização de seu Storys com uma foto a frente do “PC” e outra naquela balada sertaneja de alto padrão?

Afinal de contas será que entendemos ou estamos prontos a conhecer as necessidades mais puras e simples que cada um, deste e do outro lado da cidade, sentem e não podem compartilhar? Estranho pensar que o mais normativo está profundamente enterrado em nossas obscuras e diferentes necessidades.

Hobbie


Eu sempre chego por volta das 9:30 da noite. As crianças em geral estão sempre brincando no chão da sala ou assistindo televisão, essas porcarias do YouTube podem hipnotizar seus filhos por horas a fio. Não que isso seja um problema, na maioria das vezes é a solução.

A Tamara consegue garantir todos os dias que a comida esteja bem fresca para o momento que eu chego. Uma mulher incrível! Lava, passa, cozinha, cuida dos pirralhos. Não é nada além de sua obrigação, mas isso não muda o fato de ela ser incrível, eu mesmo não trocaria um dia de escritório por essa rotina. Ser condicionado a se relacionar com os programas de bem estar pela manhã, os utensílios domésticos e seus produtos de limpeza a tarde, a novela e o fogão no começo da noite e por fim ter apenas duas crianças com menos de 13 anos para poder conversar. Eu ficaria louco no primeiro dia. Ainda com tudo isso ela nunca deixou, nos 7 anos que temos de casamento, uma noite se quer sem ter fogo por mim.

Boa noite princesa. Eu entrego uma rosa com um botão enorme aberto.Como foi seu dia?

Ela suspira e me beija como se não houvesse amanha. Porém os lábios molhados, doces e delicados encontram um pedaço de carne fino e seco que é a minha boca. Eu não sinto o mesmo entusiasmo que ela. Pra falar a verdade, eu não sinto nada por nada aqui.

Após o jantar, me isolo na sala de leitura. Ligo meu Notebook e finjo que estou trabalhando. Enquanto isso ela fica brincando com as crianças, tentando gastar tempo esperando que eu me decida subir para dormir. É algo lastimável. Eu querendo que ela suba sem mim e ela esperando para subir comigo. Minha cabeça começa a doer, lembro de todas as problemáticas que precisarei resolver no escritório. Lembro que preciso ficar esperto para receber a conta do cartão de crédito antes que ela consiga pegar primeiro. São tantas coisas.

Amor. Vou sair para dar uma volta e esfriar a cabeça. Digo isso enquanto vou em direção a porta. Mas a essa hora? Toda sexta feira vai fazer isso agora? É bem claro a expressão de preocupação no rosto branco e delicado dela. Talvez tenha medo que eu esteja tendo um caso e acabe perdendo tudo que ela tem de bom na vida para outra mulher. Ou talvez esteja preocupada com a minha segurança. Pode ser um pouco dos dois, ou muito de ambos. Não devo demorar. Fecho a porta logo ao terminar a frase, sem chances para uma tréplica.

Na garagem encontro o meu fiel companheiro. Um Honda CR-V totalmente negro. Ele tem o tamanho e a força de um rinoceronte e sentir o couro gelado do banco e o perfume fresco de um carro recém lavado não tem preço. Quando giro a chave no comando escuto seu roncar sério e preparado, isso faz os pelos dos meus braços se atiçarem.

São cerca de 23:14 da noite, eu ando pelas ruas com o farol baixo para não chamar muita atenção. Passo 20 minutos procurando de esquina em esquina. Esse carro tem potência, alcança velocidades incríveis em pouco tempo, mas agora eu dirijo a 10 ou 15 km por hora. Devagar e quieto, como um predador no meio da selva escura de concreto. Mais 15 minutos rondando entre ruas e vielas eu encontro minha presa. Usando uma saia preta bem curta com uma blusinha a mostrar o umbigo. Ela deve estar congelando lá fora, mas precisa fazer aquilo, precisa atrair alguns machos para garantir sua sobrevivência. O problema é que todo aquele brilho e maquiagem também chamou minha atenção.

Ao vê-la virando uma esquina eu desligo meus faróis. Lentamente, em ponto morto vou avançando. Quando chego na esquina engato o carro e viro, vejo-a andar rebolando se equilibrando na guia da calçada.

EU SOU UM TIGRE!

O ponteiro vai de 10km/h a 90 em instantes e no último momento eu acendo os faróis, exibindo minhas presas a infeliz criatura. Eu a acerto de lado, como um chute de trivela e assisto seu corpo girar no ar pelo retrovisor.

São meia noite e meia quando chego em casa. Verifico que não há nenhum arranhão no meu Honda. Estou ficando profissional nisso. Deixo meus sapatos na entrada ao lado da porta para não fazer barulho e acordar às crianças. Subo as escadas. A adrenalina ainda pulsa no meu corpo. Eu estou ligado a 220 e agora entendo o motivo pelo qual a cocaína gera tanto dinheiro. Ao entrar no quarto vejo Tamara adormecida na cama e por Deus, nunca senti tanto tesão por ela.

Palhaço!

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Com trilha sonora , que acompanha no fim do post

Por Anderson Estevan – Publicado também em Outras Estórias

– Olha o palhaço, amiguinho! Exclamou o homem que sapateava rente a calçada.

Pintado de maneira impecável, com batom, babados e sapatos gigantes, ele agitava um grande saco de doces com uma das mãos. Com a outra, oferecia, com uma imensa alegria as duas mulheres que relutavam em dedicar sua atenção aos galanteios do pierrô.

Right About Now

The Funk Soul Brother

E ele, fazendo cara de choro, insistia, em meio ao trânsito infernal, um pouco de atenção das jovens colombinas. A música alta, eletrônica e grave, impedia que as garotas lhe ouvissem.

Check It Out Now

The Funk Soul Brother

A situação era ridícula. Por mais puto que estivesse, ele permanecia sorrindo, mesmo suando sob a fervente roupa de paetê. Não chovia há dias. E, apesar do calor, era tudo o que ele não desejava que ocorresse. Na mais ridícula acepção da palavra, era um palhaço.

Right About Now

O carro andou um pouco, ele seguiu a sua marcha, oferecendo as balas e batendo no vidro. Do lado de dentro, as garotas, refrescadas pelo ar condicionado e inebriadas com os seus aparelhos celulares, finalmente perceberam a presença do homem que se desdobrava pelo lado. Trocaram sorrisos.

The Funk Soul Brother

Check It Out Now

– É só uma balinha, amiguinha. Aceita. Disse o palhaço

A mensagem, abafada, chegou ao entendimento das duas, que se olharam. A dúvida pairou no ar. Ficaram tensas por alguns instantes. Novamente o trânsito fluiu um pouco mais.

The Funk Soul Brother

Nova corrida do palhaço. E, assim que alcançou o automóvel, deparou-se com os olhos verdes das moças, que, ansiosas, aguardavam as balas que o palhaço lhes ofereceria.

Right About Now

The Funk Soul Brother

O palhaço paralisou por um momento, uma gota rala de suor escorregou por sua testa. Enquanto enfiava a mão no saco, um sorriso exagerado começava a se desenhar pelo rosto colorido.

– Muito bem amiguinha, vai querer uma balinha?

Check It Out Now

As garotas sorriram, inocentes, e estenderam as mãos em direção ao homem.

The Funk Soul Brother

Right About Now

Mantendo o sorriso e a serenidade, mas com ares sombrios, o palhaço tirou, rapidamente, uma pistola 45 mm, prateada e gelada. Após sacá-la, em um rápido movimento, ele a posicionou entre os olhos da motorista, que, em um misto de surpresa e pavor, ainda mantinha o sorriso no rosto.

– Dá tudo logo, porra! Celular bolsa e relógio, vai! No sapatinho!

Check It Out Now

The Funk Soul Brother

Antevendo a reação catártica da amiga ao volante, a que ia no banco do passageiro entregou-lhe tudo o que queria.

– Agora, uma balinha para cada um – falou o palhaço, jogando o saco de doces janela a dentro, enquanto corria pelos becos que cercavam a avenida.

Right About Now

The Funk Soul Brother

Cobertas por lágrimas, ambas jamais chegariam perto de um circo em suas vidas.

O cheiro do espelho

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Publicado também em Outras Estórias

Poucas coisas podem perturbar mais a mente humana que o zumbido da Dermatobia hominise, conhecida também como mosca varejeira. Não adianta. Por mais concentrado que o indivíduo esteja, até mesmo os mais concretos pensamentos podem ser estraçalhados pelo seu farfalhar ligeiro de asas, patas e torso. O mesmo vale para os sonhos. A estranha frequência do ruído tem o poder, quase sobrenatural, de arrancar-nos dos mais profundos períodos de inércia.

Aurélio se encaixava na segunda categoria de perturbados por moscas. Dormia profundamente, porém completamente imóvel. Em um piscar de olhos, um estalo mental. Um momento. E o insistente som cumpriu o seu objetivo, trazendo-lhe de volta ao mundo concreto, despertando-o em um susto que o fez arregalar os olhos negros e fundos, até então grudados de água e fluidos corporais.

Sacudiu-se, esticando o corpo ao máximo. Ouviu alguns estalos e sentiu que o dedo mínimo do pé esquerdo se descolava dos demais. Não doeu absolutamente nada. Virou-se para o outro lado da cama, espantando os insetos que lhe interrompiam o sono. Levantar parecia uma tarefa hercúlea. A preguiça lhe envolvia dos pés à cabeça. Um cheiro incômodo, porém, daqueles de revirar o estômago, tratou de levá-la para além-mar.

Levantou-se em um salto, ignorando toda a sua indisposição. Chocou-se contra a cômoda, posicionada estrategicamente ao lado da cama. Esfregou o machucado, meramente por costume, e cambaleou até a porta do quarto. Abriu a porta e um jato luminoso invadiu o cômodo. O lusco-fusco o impediu de olhar claramente, mas a sua visão, pouco a pouco, se acostumou às sombras que começavam a se formar.

Quando já tomava ciência da enorme bagunça que o apartamento abrigava, o infernal réquiem das moscas voltou, desta vez carregado pela iluminação de seus sentidos. O odor esquisito, forte em demasia, mas que não conseguia identificar. Suas narinas identificavam a cozinha como origem para o que parecia uma mistura esquisita de carne e comida embolorada. Aurélio apostou em algum defeito na geladeira.

Ele continuou se arrastando, com sono, enquanto suas córneas se ajustavam às mudanças que a luminosidade lhe causara. Papéis, embalagens e garrafas cobriam a paisagem desordenada. Alcançou a cozinha e encontrou a geladeira como imaginava: totalmente aberta. Porém não havia nada lá.

O cheiro aumentava à medida que caminhava, falho, e sem direção pela casa. Suas memórias teimavam em falhar, formando uma densa bruma branca, inundando o seu passado recente em imenso véu de esquecimento. Imagens distorcidas e sons desconexos tornavam a tarefa ainda mais desafiadora. O banheiro, talvez? Foi a sua nova aposta.

Desviando dos cacos de vidro, com grande atenção, o rapaz notou que as suas unhas dos pés estavam além do tamanho aceitável, assim como as das mãos, conferidas em seguida. Ao que lhe pareceu, havia muito que estava naquela casa.

Chegou ao banheiro e os seus sentidos denunciavam a aproximação da podridão. Era esse o local em que aquela carniça estava escondida. As moscas apareceram, aos montes, acompanhando o caminho que havia feito há pouco. Aurélio examinou minuciosamente os armários e também o boxe. Nada. Abriu a tampa da privada na esperança de encontrar algo que resolvesse o mistério. Nada.

Ficou à deriva por alguns segundos. Que poderia ser aquilo? Um novo estalo mental. Cheirou-se as axilas. Uma, duas, três vezes. Era dele que o odor exalava. Quantos dias havia ficado sem tomar banho? Deu um sorriso e passou as mãos pelo próprio rosto. A barba estava bem desenvolvida, proeminente, não era algo que se lembrasse. Decidiu olhar-se no espelho.

Silêncio. Ao olhar sua aparência, entendeu exatamente os pormenores da situação. Era óbvio que o cheiro exalasse dele. Como fora tão ingênuo. Em um novo piscar de olhos tudo ficou cristalino. Do outro lado do espelho, estático, jazia a sua figura morta, ou melhor, a definição mais próxima de um morto que alguém poderia poderia estar. Um belo furo à bala no meio da testa não deixava dúvidas: alguém o havia matado.

Embasbacado, encarou  a sua face branca e sem mobilidade por alguns segundos, quando decidiu mover o corpo e voltar a dormir. No meio do caminho mudou de ideia. Voltou ao armário e pegou uma das cervejas que o enfeitava. Abriu-a com um dos dentes, que, por sinal, saiu rolando pelo chão da casa e manteve-se inundado em pensamentos. Mesmo com as moscas, agora ainda mais insistentes, conseguia pensar com uma clareza cristalina.

Que loucura, pensou. Afinal, como é que tudo isso foi acontecer?

Mastigando fatos

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Publicado também em Outras Estórias

Esse conto é uma continuação informal do post 14º andar

Mascar um chiclete era a sua terapia predileta. O delicado gesto lhe conferia uma série de sensações que tiravam toda a tensão e os pequenos espasmos musculares produzidos pela concentração que o seu trabalho lhe exigia. Além da respiração, é claro. Seis aulas de yoga e já conseguia ver os benefícios na concentração e na clareza de pensamento.

O café também permanecia inseparável. Morno, descafeinado e com adoçante, afinal, tinha de cuidar da saúde, o pequeno copo para viagem se mantinha na pequena mureta, esfriando. Há poucas coisas na vida que sejam tão desanimadoras quanto a frustração de descobrir que o seu café perdeu a magia das bebidas quentes. Por isso, entre um ajuste e outro, interrompia o mastigar da goma e bebericava o extrato do nobre grão.

Sussurrou reclamando o frio que fazia e puxou as mangas do casaco. A mescla de vento e água beliscava os seus punhos, que permaneciam arrepiados. A espera a estava deixando aborrecida. Teve tempo suficiente para terminar a maquiagem, prender os cabelos, que teimavam em cair nos olhos, e atualizar-se de todas as novidades das redes sociais. E nada dele.

Olhou novamente no relógio e lá estava. Atrasado como sempre. Porém, sem o menor traço de preocupação. Sempre fora assim. Livre, desimpedido, uma espécie de espirito livre e sem amarras. Certa preguiça guiava o seu caminhar, assim como os velhos chinelos e as meias esgarçadas. A calça de moletom e a camisa amarrotada, assim como os cabelos despenteados e a barba por fazer, poderiam colocar em dúvida a qualquer um que lhe conhecia. Mas, para ela, não havia uma dúvida sequer: era o seu escritor.

Ele não era popular. Quase anônimo. Não para ela. Quase um ano de observações ininterruptas e tudo o que ele pôde produzir foi aquele livro patético? Quem ele acha que é? Hemingway? Kafka? Tolstói? Ao invés de tomar café, ele deveria estar produzindo o maior romance já feito. Aquilo não poderia mais continuar.

Voltou a mascar o chiclete e o assistiu, com seus passos vagarosos, cruzar a cafeteria e chegar ao caixa. Pediu o mesmo café com leite e os pães de queijo de sempre. Pagou em cédulas, pois, como já havia deixado claro em uma entrevista a um blog underground, odiava cartões de crédito, e voltou caminhando para a mesma mesa do lado de fora. Ao contrário dela, o escritor adorava o frio.

Sentou-se e estendeu o jornal, escondendo-se completamente sob o manto de notícias. Melhor assim.

Que previsível, ela sussurrou enquanto fazia os últimos ajustes no rifle. Quantas e quantas vezes havia feito as contas para que o disparo seja o mais limpo e sonoro possível. Muitos vão achar que ele padeceu de um mal súbito. Era só uma questão de relaxar e deixar o M14 fazer a sua parte. O tripé, assim como a correia estavam prontos, a mira eletrônica também.  Graças à internet poderia cumprir à risca o seu plano traçado minuciosamente por mais de um ano.

PAM! O baque surdo do rifle quase deslocou o seu ombro direito. Assim como tinha imaginado, o estrondo saiu limpo e alcançou o seu alvo com precisão suíça. Embrulhado no jornal ele jazia estatelado sobre a mesa do pequeno café. O que restava dos músculos do seu coração agora eram metal e pólvora. Morreu em menos de um segundo.

Esboçou um sorriso. Quase chorou de emoção. Todos agora sairiam ganhando. O dono do café faria do lugar um ponto turístico. Ele, o escritor, finalmente alcançaria o sucesso, após a morte trágica. E ela, por sua vez, seria a única a ter todos os livros autografados pelo seu escritor favorito.

Ela mal podia se conter. Mordeu os lábios para conter o sorriso e saiu caminhando calmamente enquanto o som das sirenes aumentava exponencialmente. Olhou para o céu e piscou somente o olho direito. Em seguida indagou a si mesma:

– “Que tal, escritor? Arrume um final melhor que esse.

Cinco segundos e o que vem depois…

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Publicado também em Outras Estorias

O farfalhar das teclas incomodava. Aliás, quando não incomodou. O lapso temporal entre a intenção, as relações neurais, os eletrochoques e a ação motora é quase instantâneo. Como é que tudo pode ser tão acelerado? Antes mesmo de concluir o pensamento, a palavra já migrou do mundo analógico, que chamamos de real, para um ambiente gasoso, invisível, que apelidamos de internet. Isso sim é magia.

Em menos de um segundo, um simples desejo se materializou em ação, escorreu entre os dedos e se transformou em um oceano binário, que explodia em luz na tela do computador. Era mais um dia de digitação pesada para Melquíades.

Mal lembrava-se como era escrever à mão. Sustentava cada clique e campainha – eram muitas, uma de cada rede social – com uma reação distinta. Do assovio, levantava apenas a sobrancelha; da campainha, apenas sorria; quando soava o clique, apressava-se para visualizá-la. Com a maestria de um Mozart, comandava essa verdadeira sinfonia de ruídos com as pontas dos dedos. Cansou-se. Era um sinal do corpo de que aquilo se esgotara.

Prestes a entregar os pontos, sentiu os ouvidos arranharem mais uma vez. Assim que o relógio alcançou a décima segunda unidade de tempo, dissipou-se a sua angústia, ao menos por alguns instantes. Após longas e intermináveis horas, a vida desenrolava-se, mesmo aos poucos, para que pudesse tornar-se algo. Até então, ao menos nesse dia, fora somente objeto.

Respirou fundo a poluição da cidade e sentiu-a rasgar suas narinas assim que colocou os pés na rua. E arrastando-se, continuou até que um pingo d’água lhe atingisse o nariz. Espanto. E novamente o cérebro trabalhando. O simples contato inesperado entre elemento e elementar produziu uma onda generalizada de tremores e formigamentos em todo o seu corpo. O cheiro da chuva se destacou dos demais.

Sem que pudesse se dar conta disso, o seu sistema nervoso acelerou seus batimentos cardíacos. Outro choque e o sistema límbico gerou uma resposta imediata ao organismo. Com isso, noradrenalina e serotonina são liberadas e jorram com destino certo. Ao receber o estímulo, o sistema nervoso independente contrai e estressa as glândulas em questão. Uma lagrima escorre pela bochecha, atravessando ligeira a barba mal feita.

O que se nota a seguir é uma profusão de água, que se mistura, quase instantânea, quando o céu desaba sobre o homem inerte à beira da calçada. Não se sabe se a tempestade vem de dentro ou fora. O que se pode ter certeza, além das inúmeras certezas absolutas que qualquer um pode ter, é que ele fora tocado pela liberdade. E, para isso, não há remédio.