Palhaço!

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Com trilha sonora , que acompanha no fim do post

Por Anderson Estevan – Publicado também em Outras Estórias

– Olha o palhaço, amiguinho! Exclamou o homem que sapateava rente a calçada.

Pintado de maneira impecável, com batom, babados e sapatos gigantes, ele agitava um grande saco de doces com uma das mãos. Com a outra, oferecia, com uma imensa alegria as duas mulheres que relutavam em dedicar sua atenção aos galanteios do pierrô.

Right About Now

The Funk Soul Brother

E ele, fazendo cara de choro, insistia, em meio ao trânsito infernal, um pouco de atenção das jovens colombinas. A música alta, eletrônica e grave, impedia que as garotas lhe ouvissem.

Check It Out Now

The Funk Soul Brother

A situação era ridícula. Por mais puto que estivesse, ele permanecia sorrindo, mesmo suando sob a fervente roupa de paetê. Não chovia há dias. E, apesar do calor, era tudo o que ele não desejava que ocorresse. Na mais ridícula acepção da palavra, era um palhaço.

Right About Now

O carro andou um pouco, ele seguiu a sua marcha, oferecendo as balas e batendo no vidro. Do lado de dentro, as garotas, refrescadas pelo ar condicionado e inebriadas com os seus aparelhos celulares, finalmente perceberam a presença do homem que se desdobrava pelo lado. Trocaram sorrisos.

The Funk Soul Brother

Check It Out Now

– É só uma balinha, amiguinha. Aceita. Disse o palhaço

A mensagem, abafada, chegou ao entendimento das duas, que se olharam. A dúvida pairou no ar. Ficaram tensas por alguns instantes. Novamente o trânsito fluiu um pouco mais.

The Funk Soul Brother

Nova corrida do palhaço. E, assim que alcançou o automóvel, deparou-se com os olhos verdes das moças, que, ansiosas, aguardavam as balas que o palhaço lhes ofereceria.

Right About Now

The Funk Soul Brother

O palhaço paralisou por um momento, uma gota rala de suor escorregou por sua testa. Enquanto enfiava a mão no saco, um sorriso exagerado começava a se desenhar pelo rosto colorido.

– Muito bem amiguinha, vai querer uma balinha?

Check It Out Now

As garotas sorriram, inocentes, e estenderam as mãos em direção ao homem.

The Funk Soul Brother

Right About Now

Mantendo o sorriso e a serenidade, mas com ares sombrios, o palhaço tirou, rapidamente, uma pistola 45 mm, prateada e gelada. Após sacá-la, em um rápido movimento, ele a posicionou entre os olhos da motorista, que, em um misto de surpresa e pavor, ainda mantinha o sorriso no rosto.

– Dá tudo logo, porra! Celular bolsa e relógio, vai! No sapatinho!

Check It Out Now

The Funk Soul Brother

Antevendo a reação catártica da amiga ao volante, a que ia no banco do passageiro entregou-lhe tudo o que queria.

– Agora, uma balinha para cada um – falou o palhaço, jogando o saco de doces janela a dentro, enquanto corria pelos becos que cercavam a avenida.

Right About Now

The Funk Soul Brother

Cobertas por lágrimas, ambas jamais chegariam perto de um circo em suas vidas.

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O cheiro do espelho

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Publicado também em Outras Estórias

Poucas coisas podem perturbar mais a mente humana que o zumbido da Dermatobia hominise, conhecida também como mosca varejeira. Não adianta. Por mais concentrado que o indivíduo esteja, até mesmo os mais concretos pensamentos podem ser estraçalhados pelo seu farfalhar ligeiro de asas, patas e torso. O mesmo vale para os sonhos. A estranha frequência do ruído tem o poder, quase sobrenatural, de arrancar-nos dos mais profundos períodos de inércia.

Aurélio se encaixava na segunda categoria de perturbados por moscas. Dormia profundamente, porém completamente imóvel. Em um piscar de olhos, um estalo mental. Um momento. E o insistente som cumpriu o seu objetivo, trazendo-lhe de volta ao mundo concreto, despertando-o em um susto que o fez arregalar os olhos negros e fundos, até então grudados de água e fluidos corporais.

Sacudiu-se, esticando o corpo ao máximo. Ouviu alguns estalos e sentiu que o dedo mínimo do pé esquerdo se descolava dos demais. Não doeu absolutamente nada. Virou-se para o outro lado da cama, espantando os insetos que lhe interrompiam o sono. Levantar parecia uma tarefa hercúlea. A preguiça lhe envolvia dos pés à cabeça. Um cheiro incômodo, porém, daqueles de revirar o estômago, tratou de levá-la para além-mar.

Levantou-se em um salto, ignorando toda a sua indisposição. Chocou-se contra a cômoda, posicionada estrategicamente ao lado da cama. Esfregou o machucado, meramente por costume, e cambaleou até a porta do quarto. Abriu a porta e um jato luminoso invadiu o cômodo. O lusco-fusco o impediu de olhar claramente, mas a sua visão, pouco a pouco, se acostumou às sombras que começavam a se formar.

Quando já tomava ciência da enorme bagunça que o apartamento abrigava, o infernal réquiem das moscas voltou, desta vez carregado pela iluminação de seus sentidos. O odor esquisito, forte em demasia, mas que não conseguia identificar. Suas narinas identificavam a cozinha como origem para o que parecia uma mistura esquisita de carne e comida embolorada. Aurélio apostou em algum defeito na geladeira.

Ele continuou se arrastando, com sono, enquanto suas córneas se ajustavam às mudanças que a luminosidade lhe causara. Papéis, embalagens e garrafas cobriam a paisagem desordenada. Alcançou a cozinha e encontrou a geladeira como imaginava: totalmente aberta. Porém não havia nada lá.

O cheiro aumentava à medida que caminhava, falho, e sem direção pela casa. Suas memórias teimavam em falhar, formando uma densa bruma branca, inundando o seu passado recente em imenso véu de esquecimento. Imagens distorcidas e sons desconexos tornavam a tarefa ainda mais desafiadora. O banheiro, talvez? Foi a sua nova aposta.

Desviando dos cacos de vidro, com grande atenção, o rapaz notou que as suas unhas dos pés estavam além do tamanho aceitável, assim como as das mãos, conferidas em seguida. Ao que lhe pareceu, havia muito que estava naquela casa.

Chegou ao banheiro e os seus sentidos denunciavam a aproximação da podridão. Era esse o local em que aquela carniça estava escondida. As moscas apareceram, aos montes, acompanhando o caminho que havia feito há pouco. Aurélio examinou minuciosamente os armários e também o boxe. Nada. Abriu a tampa da privada na esperança de encontrar algo que resolvesse o mistério. Nada.

Ficou à deriva por alguns segundos. Que poderia ser aquilo? Um novo estalo mental. Cheirou-se as axilas. Uma, duas, três vezes. Era dele que o odor exalava. Quantos dias havia ficado sem tomar banho? Deu um sorriso e passou as mãos pelo próprio rosto. A barba estava bem desenvolvida, proeminente, não era algo que se lembrasse. Decidiu olhar-se no espelho.

Silêncio. Ao olhar sua aparência, entendeu exatamente os pormenores da situação. Era óbvio que o cheiro exalasse dele. Como fora tão ingênuo. Em um novo piscar de olhos tudo ficou cristalino. Do outro lado do espelho, estático, jazia a sua figura morta, ou melhor, a definição mais próxima de um morto que alguém poderia poderia estar. Um belo furo à bala no meio da testa não deixava dúvidas: alguém o havia matado.

Embasbacado, encarou  a sua face branca e sem mobilidade por alguns segundos, quando decidiu mover o corpo e voltar a dormir. No meio do caminho mudou de ideia. Voltou ao armário e pegou uma das cervejas que o enfeitava. Abriu-a com um dos dentes, que, por sinal, saiu rolando pelo chão da casa e manteve-se inundado em pensamentos. Mesmo com as moscas, agora ainda mais insistentes, conseguia pensar com uma clareza cristalina.

Que loucura, pensou. Afinal, como é que tudo isso foi acontecer?

Mastigando fatos

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Publicado também em Outras Estórias

Esse conto é uma continuação informal do post 14º andar

Mascar um chiclete era a sua terapia predileta. O delicado gesto lhe conferia uma série de sensações que tiravam toda a tensão e os pequenos espasmos musculares produzidos pela concentração que o seu trabalho lhe exigia. Além da respiração, é claro. Seis aulas de yoga e já conseguia ver os benefícios na concentração e na clareza de pensamento.

O café também permanecia inseparável. Morno, descafeinado e com adoçante, afinal, tinha de cuidar da saúde, o pequeno copo para viagem se mantinha na pequena mureta, esfriando. Há poucas coisas na vida que sejam tão desanimadoras quanto a frustração de descobrir que o seu café perdeu a magia das bebidas quentes. Por isso, entre um ajuste e outro, interrompia o mastigar da goma e bebericava o extrato do nobre grão.

Sussurrou reclamando o frio que fazia e puxou as mangas do casaco. A mescla de vento e água beliscava os seus punhos, que permaneciam arrepiados. A espera a estava deixando aborrecida. Teve tempo suficiente para terminar a maquiagem, prender os cabelos, que teimavam em cair nos olhos, e atualizar-se de todas as novidades das redes sociais. E nada dele.

Olhou novamente no relógio e lá estava. Atrasado como sempre. Porém, sem o menor traço de preocupação. Sempre fora assim. Livre, desimpedido, uma espécie de espirito livre e sem amarras. Certa preguiça guiava o seu caminhar, assim como os velhos chinelos e as meias esgarçadas. A calça de moletom e a camisa amarrotada, assim como os cabelos despenteados e a barba por fazer, poderiam colocar em dúvida a qualquer um que lhe conhecia. Mas, para ela, não havia uma dúvida sequer: era o seu escritor.

Ele não era popular. Quase anônimo. Não para ela. Quase um ano de observações ininterruptas e tudo o que ele pôde produzir foi aquele livro patético? Quem ele acha que é? Hemingway? Kafka? Tolstói? Ao invés de tomar café, ele deveria estar produzindo o maior romance já feito. Aquilo não poderia mais continuar.

Voltou a mascar o chiclete e o assistiu, com seus passos vagarosos, cruzar a cafeteria e chegar ao caixa. Pediu o mesmo café com leite e os pães de queijo de sempre. Pagou em cédulas, pois, como já havia deixado claro em uma entrevista a um blog underground, odiava cartões de crédito, e voltou caminhando para a mesma mesa do lado de fora. Ao contrário dela, o escritor adorava o frio.

Sentou-se e estendeu o jornal, escondendo-se completamente sob o manto de notícias. Melhor assim.

Que previsível, ela sussurrou enquanto fazia os últimos ajustes no rifle. Quantas e quantas vezes havia feito as contas para que o disparo seja o mais limpo e sonoro possível. Muitos vão achar que ele padeceu de um mal súbito. Era só uma questão de relaxar e deixar o M14 fazer a sua parte. O tripé, assim como a correia estavam prontos, a mira eletrônica também.  Graças à internet poderia cumprir à risca o seu plano traçado minuciosamente por mais de um ano.

PAM! O baque surdo do rifle quase deslocou o seu ombro direito. Assim como tinha imaginado, o estrondo saiu limpo e alcançou o seu alvo com precisão suíça. Embrulhado no jornal ele jazia estatelado sobre a mesa do pequeno café. O que restava dos músculos do seu coração agora eram metal e pólvora. Morreu em menos de um segundo.

Esboçou um sorriso. Quase chorou de emoção. Todos agora sairiam ganhando. O dono do café faria do lugar um ponto turístico. Ele, o escritor, finalmente alcançaria o sucesso, após a morte trágica. E ela, por sua vez, seria a única a ter todos os livros autografados pelo seu escritor favorito.

Ela mal podia se conter. Mordeu os lábios para conter o sorriso e saiu caminhando calmamente enquanto o som das sirenes aumentava exponencialmente. Olhou para o céu e piscou somente o olho direito. Em seguida indagou a si mesma:

– “Que tal, escritor? Arrume um final melhor que esse.

Cinco segundos e o que vem depois…

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Publicado também em Outras Estorias

O farfalhar das teclas incomodava. Aliás, quando não incomodou. O lapso temporal entre a intenção, as relações neurais, os eletrochoques e a ação motora é quase instantâneo. Como é que tudo pode ser tão acelerado? Antes mesmo de concluir o pensamento, a palavra já migrou do mundo analógico, que chamamos de real, para um ambiente gasoso, invisível, que apelidamos de internet. Isso sim é magia.

Em menos de um segundo, um simples desejo se materializou em ação, escorreu entre os dedos e se transformou em um oceano binário, que explodia em luz na tela do computador. Era mais um dia de digitação pesada para Melquíades.

Mal lembrava-se como era escrever à mão. Sustentava cada clique e campainha – eram muitas, uma de cada rede social – com uma reação distinta. Do assovio, levantava apenas a sobrancelha; da campainha, apenas sorria; quando soava o clique, apressava-se para visualizá-la. Com a maestria de um Mozart, comandava essa verdadeira sinfonia de ruídos com as pontas dos dedos. Cansou-se. Era um sinal do corpo de que aquilo se esgotara.

Prestes a entregar os pontos, sentiu os ouvidos arranharem mais uma vez. Assim que o relógio alcançou a décima segunda unidade de tempo, dissipou-se a sua angústia, ao menos por alguns instantes. Após longas e intermináveis horas, a vida desenrolava-se, mesmo aos poucos, para que pudesse tornar-se algo. Até então, ao menos nesse dia, fora somente objeto.

Respirou fundo a poluição da cidade e sentiu-a rasgar suas narinas assim que colocou os pés na rua. E arrastando-se, continuou até que um pingo d’água lhe atingisse o nariz. Espanto. E novamente o cérebro trabalhando. O simples contato inesperado entre elemento e elementar produziu uma onda generalizada de tremores e formigamentos em todo o seu corpo. O cheiro da chuva se destacou dos demais.

Sem que pudesse se dar conta disso, o seu sistema nervoso acelerou seus batimentos cardíacos. Outro choque e o sistema límbico gerou uma resposta imediata ao organismo. Com isso, noradrenalina e serotonina são liberadas e jorram com destino certo. Ao receber o estímulo, o sistema nervoso independente contrai e estressa as glândulas em questão. Uma lagrima escorre pela bochecha, atravessando ligeira a barba mal feita.

O que se nota a seguir é uma profusão de água, que se mistura, quase instantânea, quando o céu desaba sobre o homem inerte à beira da calçada. Não se sabe se a tempestade vem de dentro ou fora. O que se pode ter certeza, além das inúmeras certezas absolutas que qualquer um pode ter, é que ele fora tocado pela liberdade. E, para isso, não há remédio.

Por mensagens

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Por: Mauricio Lahan Jr

Eu gosto de observar. Gosto de não apenas olhar, mas também adoro conhecer. Será isso minha sina? Meu pedaço de psicose? Sim. Por tudo aquilo que me chame atenção. Eu tento, ao máximo, descobrir cada detalhe, sobre cada linha de sua história. Seja o que for. Um prédio, uma música, um livro ou uma cidade inteira. Mas, recentemente, estive de olho em algo novo.

Estive observando uma garota nos últimos tempos. Quando a encontrei estava em frente a lente de uma câmera. De pele morena, em um tom chocolate avelã, com cabelos, negros e lisos, jogados sobre o ombro esquerdo, sentada em uma estrutura quadrada de pedra, segurava uma de suas pernas pelo joelho. Ahh.. Que pernas. Daqui, de longe, elas parecem tão firmes.

Vestia-se com roupas simples. Blusinha preta, um shorts jeans curto e uma botinha escura. Mas ainda havia alguns detalhes. Um óculos, uma correntinha prateada e um laço amarrado em torno a cabeça. Vermelho.

Aquelas pernas. Aquele laço vermelho. Ainda haviam outros detalhes. O seu olhar, somado a um sorriso discreto, faz chamar minha atenção. Eu quero aquela foto. Eu quero conhece-la.

Continuei observando-a de longe. Conheci pessoas ao seu redor. Busquei por mais alguns detalhes. Futura professora, gosta de ouvir Legião Urbana para se definir. Uma… Comunista? Tudo bem. Eu adoro Vermelho.

Ela soube sobre mim. Não importa. Eu gosto de um jogo jogado por dois. Mas, preciso ir a fundo. Lhe escrevi uma mensagem. Duas. Algumas. E as respostas? Ahh… Que mulher!

Disse que não poderia sonhar. Que viveria por suas metas com os pés no chão. É mentira. Talvez ela nem mesmo saiba que está mentindo. Afinal, se quer ser uma revolucionária, precisa aprender a voar! Ter um sonho, um ideal pelo qual lutar.

Mas ainda é pouco.

Quem é você? Foi a próxima pergunta. Uma eterna metamorfose. Foi a resposta. Pronto. Atiçou minha curiosidade.

Preciso de mais. Como posso chegar perto? Lhe questiono sobre as pessoas ao seu redor. Ela responde com sobriedade. Diz que todas fazem parte de uma construção social – mulher inteligente – mas que é tolerante a erros.

Droga. A morena é imprevisível. Começo a ficar empolgado. As perguntas surgem de uma só vez em minha cabeça. Há tanto que preciso saber. Não. Desta vez sou eu que estou mentindo. Eu não preciso saber. Mas quero saber.

Já sei! Um desafio! Algo realmente grande. A próxima mensagem que escrevo é sobre o mundo todo! Sobre tudo.

– Posso viver mil anos e não vou saber te responder, é muito complexo.

Ela não cai na armadilha. A menina não é fútil. Não é o tipo de pessoa que pensa conhecer sobre tudo. Mas e eu? Estou preso. Envolvido demais. Preciso parar… Ir devagar. Não posso deixar que ela tome o controle.

Mas preciso de uma ultima jogada. Preciso de algo mais. Alguma coisa profunda.

– O que é amar para você?

Essa foi a ultima mensagem. A ultima pergunta. Por enquanto pelo menos. A resposta? É minha.

Crie você a sua.

Nossa primeira Viagem

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Por: Mauricio Lahan Jr

* Okay, é mais uma com musica… Mas.. Sei la.. Da aquele play la embaixo antes 😉

O ponteiro estralava por volta de 115 km/h

A garota ao meu lado pegava um bolo de notas e o cheirava profunda e longamente. Depois jogava sua cabeça para trás e gargalhava alto, de forma gostosa como aquelas crianças que aparecem em virais de internet.

Estava com um vestidinho rodado, preto com bolinhas brancas. Sua franja estava bagunçada, devido ao vento da estrada, mesmo assim era lindo ver como combinavam seus cabelos negros, sua pele bem branquinha e suas tatuagens coloridas. Duas rosas na altura dos ombros e no centro de seus seios uma caveira sem mandíbula, apenas com a parte de cima do cranio. Ela era sexy e quente. Com um pequeno piercing de bolinha prateada no canto esquerdo do busso e um batom vermelho, que deixavam seus lábios enormes, completava seu estilo Pin Up usando um óculos grande e arredondado.

– Eu faço de tudo para te ver rindo deste jeito pelo resto da vida.

Ela sorri de forma leve e passa a mão nos pelos da minha curta barba.

Eu estou de terno, gravata, calça e sapatos pretos. Junto a uma camisa branca eram esses os itens do meu uniforme de motorista.

Com seus dedos finos ela puxa meu queixo tirando toda a visão da estrada ao me olhar nos olhos.

– Nós vamos Foder o Mundo Todo!

Depois do beijo, e uma forte mordida no meu lábio inferior, ela me solta e aumenta o som do Carro até o ultimo volume gritando:

– É a Nossa MUSICA Baby!

You Only Live Once do Strokes sempre foi a nossa preferida.

Já não importa mais as consequências. Os três milhões de reais que estavam guardados embaixo da cama do velho Mathias, dentro de um fundo falso no chão, estão agora em bolsas na traseira do carro e não há nada que eu possa fazer para mudar isso. Ele dizia que não confiava nos bancos. Uma velha mania para um velho com muito dinheiro.

Ela belisca minha bochecha e faz com que eu caia em mim novamente.

Balançando os ombros e o queixo faz algumas caretas cantando bem alto

I can’t see the SUNSHIIIINE!,
Ela aperta as mãos sobre o peito
I’ll be waiting for you, baby,
Fecha a cara
‘Cause I’m through

Decido entrar na onda e relaxar meus ombros, enquanto ela começa a jogar nossos RGs originais pela janela, levantar os braços e dançar nós cantamos:

– SIT ME DOWWNNN
SHUT ME UUUUP!!!
I’LL CALM DOWN,
AND I’LL GET ALONNNG  WITH YOU!

 

Pedaço de um Conto

 

 

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Por: Mauricio Lahan Jr

* Post meio grande.. É uma parte de um conto que estou escrevendo. Não é o começo e nem o fim, então talvez fique meio sem sentido algumas partes. Mas estou sem inspiração para criar algo novo entãaaaooo decidi dividir um pouquinho daquilo que já estava preparando. Tenham paciência.. Leiam tudo por gentileza e me digam suas opiniões sobre ~~

“- Que nova ordem é essa?
– É que nós, por assim dizer, estamos mortos, Excelência.”

Bobók, Fiódor Dostoiévski

*Ploc, Ploc, Ploc*

Esse é o barulho que seu salto faz enquanto caminha. Um passo de cada vez, firme e confiante. Sua postura é elegante, seu terninho é justo. Cabelos curtos, muito bem arrumados, lisos e presos. Seus óculos estão um pouco caídos em seu nariz, desta forma ela sempre te olha de cima para baixo, mesmo sendo uma mulher de estatura baixa sua posição permite que faça isso, afinal ela está em pé, caminhando, enquanto nós estamos aqui sentados. Sua função é simples: supervisionar nosso trabalho. Garantir que os fiéis paguem suas dívidas e ao mesmo tempo recebam um tratamento especial, para sentir que fazem parte de tudo aquilo e que o “Seu Deus” importa-se com eles.

Ninguém consegue encara-la nos olhos. Sua voz nunca tem variações de tons. Parece ser uma mulher sem dúvidas, sem medos. Dura e exigente. Tendo sempre o controle da situação em suas mãos. Dizem entre as conversas que: esta é uma mulher de poder!

– Talvez você pudesse faltar à aula em sua faculdade hoje…

Ela cochicha isso em meu ouvido. Claro que todos pensam que é apenas mais um “puxão de orelha”, afinal ela tem uma imagem a preservar.

Uma mulher poderosa… Firme e confiante.

Uma mulher frágil… Mas isso ninguém sabe.

– Vem… Me abraça… Me segura forte.

Ela está ofegante. Seu coração acelerado.

– Me beija… Assim… Isso…

Eu gosto de estar por cima. Parece que assim ela se sente protegida. Aqui, neste quarto, ela pode ser frágil. Os óculos jogados ao pé da cama, o cabelo bagunçado e solto, seus olhos revirando enquanto suas unhas gravam linhas avermelhadas em minhas costas. E suas pernas, tão firmes em seu caminhar, agora se estremecem.

Depois de meia hora olhando para o espelho de teto pensando em todos os clientes dos últimos dias, em todas as negociações bem feitas e não feitas, somando números para tentar calcular a porcentagem de bônus que ganharei no final do mês, decido me levantar, tomar uma última ducha, pegar minhas coisas e ir embora.

Uma hora mais tarde uma mulher vai acordar sozinha numa cama de Motel. Ela vai acender um cigarro e sorrir aparentemente sem motivos. Vai prender seus cabelos, abotoar seu terninho, ajustar sua saia, deslizar sua meia-fina e encaixar seus sapatos de salto. Por fim vai se olhar no espelho, colocar seus óculos e sentir novamente o prazer de vestir uma mascara falsa em sua personalidade.

Uma mulher frágil vai sair por esta porta, em mais ou menos duas horas, com uma postura ereta, de passos firmes, olhando para a moça da recepção de cima para baixo.

No fundo pouco me importa o que pode acontecer depois. Às vezes não sei por qual motivo ainda mantenho uma relação com ela. Talvez, tente preencher algum lugar vazio dentro de mim.