Por mensagens

quando-o-sol-bater-na-janela-do-teu-quarto

Por: Mauricio Lahan Jr

Eu gosto de observar. Gosto de não apenas olhar, mas também adoro conhecer. Será isso minha sina? Meu pedaço de psicose? Sim. Por tudo aquilo que me chame atenção. Eu tento, ao máximo, descobrir cada detalhe, sobre cada linha de sua história. Seja o que for. Um prédio, uma música, um livro ou uma cidade inteira. Mas, recentemente, estive de olho em algo novo.

Estive observando uma garota nos últimos tempos. Quando a encontrei estava em frente a lente de uma câmera. De pele morena, em um tom chocolate avelã, com cabelos, negros e lisos, jogados sobre o ombro esquerdo, sentada em uma estrutura quadrada de pedra, segurava uma de suas pernas pelo joelho. Ahh.. Que pernas. Daqui, de longe, elas parecem tão firmes.

Vestia-se com roupas simples. Blusinha preta, um shorts jeans curto e uma botinha escura. Mas ainda havia alguns detalhes. Um óculos, uma correntinha prateada e um laço amarrado em torno a cabeça. Vermelho.

Aquelas pernas. Aquele laço vermelho. Ainda haviam outros detalhes. O seu olhar, somado a um sorriso discreto, faz chamar minha atenção. Eu quero aquela foto. Eu quero conhece-la.

Continuei observando-a de longe. Conheci pessoas ao seu redor. Busquei por mais alguns detalhes. Futura professora, gosta de ouvir Legião Urbana para se definir. Uma… Comunista? Tudo bem. Eu adoro Vermelho.

Ela soube sobre mim. Não importa. Eu gosto de um jogo jogado por dois. Mas, preciso ir a fundo. Lhe escrevi uma mensagem. Duas. Algumas. E as respostas? Ahh… Que mulher!

Disse que não poderia sonhar. Que viveria por suas metas com os pés no chão. É mentira. Talvez ela nem mesmo saiba que está mentindo. Afinal, se quer ser uma revolucionária, precisa aprender a voar! Ter um sonho, um ideal pelo qual lutar.

Mas ainda é pouco.

Quem é você? Foi a próxima pergunta. Uma eterna metamorfose. Foi a resposta. Pronto. Atiçou minha curiosidade.

Preciso de mais. Como posso chegar perto? Lhe questiono sobre as pessoas ao seu redor. Ela responde com sobriedade. Diz que todas fazem parte de uma construção social – mulher inteligente – mas que é tolerante a erros.

Droga. A morena é imprevisível. Começo a ficar empolgado. As perguntas surgem de uma só vez em minha cabeça. Há tanto que preciso saber. Não. Desta vez sou eu que estou mentindo. Eu não preciso saber. Mas quero saber.

Já sei! Um desafio! Algo realmente grande. A próxima mensagem que escrevo é sobre o mundo todo! Sobre tudo.

– Posso viver mil anos e não vou saber te responder, é muito complexo.

Ela não cai na armadilha. A menina não é fútil. Não é o tipo de pessoa que pensa conhecer sobre tudo. Mas e eu? Estou preso. Envolvido demais. Preciso parar… Ir devagar. Não posso deixar que ela tome o controle.

Mas preciso de uma ultima jogada. Preciso de algo mais. Alguma coisa profunda.

– O que é amar para você?

Essa foi a ultima mensagem. A ultima pergunta. Por enquanto pelo menos. A resposta? É minha.

Crie você a sua.

Anúncios

Nossa primeira Viagem

pin

Por: Mauricio Lahan Jr

* Okay, é mais uma com musica… Mas.. Sei la.. Da aquele play la embaixo antes 😉

O ponteiro estralava por volta de 115 km/h

A garota ao meu lado pegava um bolo de notas e o cheirava profunda e longamente. Depois jogava sua cabeça para trás e gargalhava alto, de forma gostosa como aquelas crianças que aparecem em virais de internet.

Estava com um vestidinho rodado, preto com bolinhas brancas. Sua franja estava bagunçada, devido ao vento da estrada, mesmo assim era lindo ver como combinavam seus cabelos negros, sua pele bem branquinha e suas tatuagens coloridas. Duas rosas na altura dos ombros e no centro de seus seios uma caveira sem mandíbula, apenas com a parte de cima do cranio. Ela era sexy e quente. Com um pequeno piercing de bolinha prateada no canto esquerdo do busso e um batom vermelho, que deixavam seus lábios enormes, completava seu estilo Pin Up usando um óculos grande e arredondado.

– Eu faço de tudo para te ver rindo deste jeito pelo resto da vida.

Ela sorri de forma leve e passa a mão nos pelos da minha curta barba.

Eu estou de terno, gravata, calça e sapatos pretos. Junto a uma camisa branca eram esses os itens do meu uniforme de motorista.

Com seus dedos finos ela puxa meu queixo tirando toda a visão da estrada ao me olhar nos olhos.

– Nós vamos Foder o Mundo Todo!

Depois do beijo, e uma forte mordida no meu lábio inferior, ela me solta e aumenta o som do Carro até o ultimo volume gritando:

– É a Nossa MUSICA Baby!

You Only Live Once do Strokes sempre foi a nossa preferida.

Já não importa mais as consequências. Os três milhões de reais que estavam guardados embaixo da cama do velho Mathias, dentro de um fundo falso no chão, estão agora em bolsas na traseira do carro e não há nada que eu possa fazer para mudar isso. Ele dizia que não confiava nos bancos. Uma velha mania para um velho com muito dinheiro.

Ela belisca minha bochecha e faz com que eu caia em mim novamente.

Balançando os ombros e o queixo faz algumas caretas cantando bem alto

I can’t see the SUNSHIIIINE!,
Ela aperta as mãos sobre o peito
I’ll be waiting for you, baby,
Fecha a cara
‘Cause I’m through

Decido entrar na onda e relaxar meus ombros, enquanto ela começa a jogar nossos RGs originais pela janela, levantar os braços e dançar nós cantamos:

– SIT ME DOWWNNN
SHUT ME UUUUP!!!
I’LL CALM DOWN,
AND I’LL GET ALONNNG  WITH YOU!

 

Pedaço de um Conto

 

 

dadada3

 

Por: Mauricio Lahan Jr

* Post meio grande.. É uma parte de um conto que estou escrevendo. Não é o começo e nem o fim, então talvez fique meio sem sentido algumas partes. Mas estou sem inspiração para criar algo novo entãaaaooo decidi dividir um pouquinho daquilo que já estava preparando. Tenham paciência.. Leiam tudo por gentileza e me digam suas opiniões sobre ~~

“- Que nova ordem é essa?
– É que nós, por assim dizer, estamos mortos, Excelência.”

Bobók, Fiódor Dostoiévski

*Ploc, Ploc, Ploc*

Esse é o barulho que seu salto faz enquanto caminha. Um passo de cada vez, firme e confiante. Sua postura é elegante, seu terninho é justo. Cabelos curtos, muito bem arrumados, lisos e presos. Seus óculos estão um pouco caídos em seu nariz, desta forma ela sempre te olha de cima para baixo, mesmo sendo uma mulher de estatura baixa sua posição permite que faça isso, afinal ela está em pé, caminhando, enquanto nós estamos aqui sentados. Sua função é simples: supervisionar nosso trabalho. Garantir que os fiéis paguem suas dívidas e ao mesmo tempo recebam um tratamento especial, para sentir que fazem parte de tudo aquilo e que o “Seu Deus” importa-se com eles.

Ninguém consegue encara-la nos olhos. Sua voz nunca tem variações de tons. Parece ser uma mulher sem dúvidas, sem medos. Dura e exigente. Tendo sempre o controle da situação em suas mãos. Dizem entre as conversas que: esta é uma mulher de poder!

– Talvez você pudesse faltar à aula em sua faculdade hoje…

Ela cochicha isso em meu ouvido. Claro que todos pensam que é apenas mais um “puxão de orelha”, afinal ela tem uma imagem a preservar.

Uma mulher poderosa… Firme e confiante.

Uma mulher frágil… Mas isso ninguém sabe.

– Vem… Me abraça… Me segura forte.

Ela está ofegante. Seu coração acelerado.

– Me beija… Assim… Isso…

Eu gosto de estar por cima. Parece que assim ela se sente protegida. Aqui, neste quarto, ela pode ser frágil. Os óculos jogados ao pé da cama, o cabelo bagunçado e solto, seus olhos revirando enquanto suas unhas gravam linhas avermelhadas em minhas costas. E suas pernas, tão firmes em seu caminhar, agora se estremecem.

Depois de meia hora olhando para o espelho de teto pensando em todos os clientes dos últimos dias, em todas as negociações bem feitas e não feitas, somando números para tentar calcular a porcentagem de bônus que ganharei no final do mês, decido me levantar, tomar uma última ducha, pegar minhas coisas e ir embora.

Uma hora mais tarde uma mulher vai acordar sozinha numa cama de Motel. Ela vai acender um cigarro e sorrir aparentemente sem motivos. Vai prender seus cabelos, abotoar seu terninho, ajustar sua saia, deslizar sua meia-fina e encaixar seus sapatos de salto. Por fim vai se olhar no espelho, colocar seus óculos e sentir novamente o prazer de vestir uma mascara falsa em sua personalidade.

Uma mulher frágil vai sair por esta porta, em mais ou menos duas horas, com uma postura ereta, de passos firmes, olhando para a moça da recepção de cima para baixo.

No fundo pouco me importa o que pode acontecer depois. Às vezes não sei por qual motivo ainda mantenho uma relação com ela. Talvez, tente preencher algum lugar vazio dentro de mim.

A pizza in the heart of Vacationland

 

Originalmente publicado em: Outras Estórias

Afrânio tem um problema. E, por mais que muita gente pense que não é nada de mais, ele contesta. Sofre demais e a razão é a seguinte: Não consegue comer pizzas com azeitonas. Na capital mundial da pizza na pós-modernidade, São Paulo, isso pode ser um verdadeiro problema.

“Não adianta. Peço sem as malditas azeitonas, todas as vezes. Não adianta. Elas sempre estão lá”, gritou, em um café na região central da cidade. De acordo com ele, até mesmo os motoboys já sabem da sua fama pregressa e saem em disparada assim que foi paga.

Essa é uma tendência pela cidade e não uma exclusividade da mente cansada e estressada do comerciante. Valquíria, auxiliar administrativa, tem pavor a cebolas. Para evitar ter a sua pizza de calabresa “infectada” pela verdura. “Chego a ir à pizzaria e acompanhar tudo in loco. Se colocam uma delas – cebolas – por desatenção, reclamo e faço desmontarem a pizza”, concluiu ela.

Muitas pizzarias estão investindo na capacitação dos seus funcionários e a customização dos pedidos. Álvaro, dono da pizzaria “The Pitição”, desenvolveu um sistema de preenchimento eletrônico que pode ser feito antes do primeiro pedido. “Os clientes entram em nosso site, se cadastram e colocam as suas preferências num questionário. É muito bom”.

E os resultados são impressionantes. Segundo o empresário, as recusas das pizzas de salmão defumado com croutons e linhaça salpicada diminuíram a menos de 5% dos pedidos. A de petit gâteau também é mais bem recebida do que antigamente. “A customização do sabor é a arma do negócio”, concluiu Álvaro.

Já Fritz Hansen, Psiquiatra e Pós Doutor em neuroses cotidianas pela Universidade Federal de Caxambu é lacônico. “Façam terapia ou deixem de frescura”.

A Brochada latina

Por: Anderson Estevan

Era a sua primeira noite com ela. Finalmente havia conseguido levá-la para a cama. Todos os paparicos, as adulações e os presentinhos valeram a pena. Somado a uma conversa bem agradável, sua colega de setor sucumbira aos seus encantos.

Levou-a para jantar em um restaurante japonês. Claro, japonês sempre funciona. Conversaram sobre o trabalho, sobre a possibilidade do chefe  usar peruca e também sobre como estariam daqui dez anos.

Beberam vinho, deram boas risadas, tudo estava como ele havia planejado. Saíram do restaurante num ritmo bem amigável.Em frente ao prédio dela ele foi convidado para subir. Deixou o carro na garagem e já se agarraram no elevador.

O seu vestido preto lhe caia muito bem, nem muito colado, nem muito largo. Aquela roupa devia ter sido feita para o seu corpo. As mãos se procuravam e se perdiam enquanto o elevador chegava ao andar certo.

Entraram em seu apartamento meio apressados. Ele nem havia reparado na decoração. Na verdade ele não conferiu nada ali. Foram direto para o quarto dela.

Em meio aos amassos e carícias ele subitamente estacou. Algo lhe deixou perplexo, paralisado. Algo que também estava estático e também o encarava.

Um pôster em tamanho real do Julio Iglesias o observava e a sua cena de amor. O sorriso metálico, a pele bronzeada e aquela quase peruca estavam todos lá. Lembrou-se de sua mãe cantarolando junto com o rádio. Brochou na hora.

E para explicar, o que diria? Ah, isso nunca me aconteceu… Estou com muitos problemas no trabalho… Ou a verdade, de que não conseguia transar sob o olhar malicioso do pôster de Julio Iglesias?

Analisou a situação e saiu de lá como um verdadeiro mestre.

– Calma, querida, não estamos indo rápido demais, não?

– Como assim?

– É que eu não acho certo fazer isso com você

– Isso o quê? Transar comigo?

– Não, mas acho devíamos sair novamente antes disso

Imagine, caro leitor, esta cena surreal se desenrolando na cabeça da moça. Todas as suas expectativas, inseguranças e medos fundindo-se em um simples: – Ok, tudo bem.

Mesmo sem entender direito a situação ela concordou. Pensou também na possibilidade dele ter brochado. Logo desconsiderou. Um homem daqueles não devia brochar assim. Vai ver ele era estranho assim mesmo.

Ele então se vestiu e após uma longa conversa foi para casa. Chegou rapidamente no lar. Tomou um banho gelado e foi dormir. Não conseguiu. A imagem aterradora do sorriso de Julio Iglesias o manteve acordado durante a noite toda.

Trote

Imagem

– Alô!? – Falou quase gritando.

– Pronto. – Respondeu a voz do outro lado.

Havia um ligeiro chiado na ligação. Realmente era difícil escutar.

– Quem é!? – Gritou novamente.

– Como assim quem é? Com quem você quer falar?

– Aqui é o Zeca, queria falar com o Alemão. – Se não fosse pelo chiado, tinha-se a impressão de que ele gritava de sacanagem.

– Olha meu senhor, não tem nenhum Alemão aqui. – Disse incisivamente.

– Ele saiu? – Gritou pela quarta vez.

Sua educação lhe impediu de desligar o telefone na mesma hora. Suspirou, colocando em prática a tolerância que o analista sempre lhe cobrava. Disse calmamente:

– Não senhor, ele não mora aqui

– Ah, entendi. Você pode me passar o telefone de onde ele se mudou? – falou em um tom menor, mas a gritaria continuava.

Pensou seriamente em desligar o telefone. Afinal, quem faria uma palhaçada dessas. Não seria possível existir um sujeito tão burro. Se não fosse imbecil era surdo, com toda certeza.

– Oi, o senhor me escutou? O telefone do Alemão – Gritou novamente.

Aquilo só poderia ser trote. Não é possível que aquilo não fosse um trote. Não seria mais feito de trouxa.

– Olha aqui, meu amigo, não existe ninguém nessa casa com esse nome e eu não conheço ninguém que se chama Alemão. Não tem ninguém que é Alemão aqui nessa casa. – Disse quase berrando.

– Ué? Mas você tem certeza de que ai não é da casa do Alemão? – Repetiu.

Sonoros xingamentos vieram do outro lado. Os anos de analise e controle de raiva foram para o espaço.

– Calma meu senhor, não precisa gritar nem me xingar – Disse em um tom ofendido.

– NÃO TEM NENHUM ALEMÃO AQUI, RAPAZ – Berrou novamente.

– Olha aqui meu caro, diga para Alemão vir pagar suas contas aqui na quitanda ou eu mando Pedrinho atrás dele com uma barra de ferro.

– SEU FILHO D – Foi subitamente interrompido pelo corte na ligação.

O TU TU TU TU TU TU TU seguiu-se enquanto o sujeito expurgava toda a sua raiva pela ligação indesejada.

Elevador (o canalha)

Imagem

Por Anderson Estevan

Ele estava atrasado. Geralmente ele se atrasava, mas nada que lhe rendesse uma bronca no trabalho. O dia era ensolarado, quente, seco, um típico começo do outono. Depois de pegar um ônibus e atravessar a cidade por baixo da terra, finalmente ele chegou ao trabalho. Era a rotina.

Como sempre, o elevador estava cheio. Ele nunca gostou muito disso. Já bastava o metrô e o seu calor humano. Mas naquela sexta-feira não teve jeito. Entrou na cabine mais cheia. Ele não queria atrasar tanto.

Além dele, estavam dois senhores, que deviam ser chefes em algum departamento. Duas estagiárias com quem ele já havia trocado olhares e dois colegas de trabalho. O vice-diretor da empresa também estava lá, ele e a sua estranha mania de tentar “se misturar” com os seus funcionários. Ele era artificial.

A porta se fechou. Coincidentemente, todos iriam sair no mesmo andar, o décimo.

Os rapazes conversavam sobre o resultado da próxima rodada do futebol, os senhores olhavam nos relógios e faziam observações pontuais e o nosso protagonista olhava para o teto.

O vice-diretor tentava cantar as duas estagiárias, que resistiam bravamente ao cavanhaque grisalho do chefe. Ele devia usar estas investidas desde os anos 70. O casamento deve tê-lo enferrujado as idéias.

Este clima pacato durou alguns segundos, todos foram emudecendo aos poucos. Alguém havia tratado com má fé os seus iguais no local. O cheiro estranhíssimo que exalou no ambiente calou a todos. Havia só uma pergunta a se fazer: Quem foi o canalha?

Todos se encaravam. O clima de desconfiança era mútuo. As garotas olhavam para os senhores do outro lado, que retribuíam o olhar, mas indicavam que também poderia ser um dos três rapazes novos. O vice-presidente tossiu, mas não disse nada.

O décimo andar finalmente chegou. Todos saíram e foram para suas respectivas funções. Ninguém conseguiu identificar o culpado, mas mentalmente todos eles o amaldiçoaram pelo resto do dia.