A Leprechaun

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O ferro acima da cabeça estava puro gelo. O corpo abaixo do crânio queimava por dentro. Havia alívio no toque gélido do metal que fazia com que o suor interno não fosse algo duramente tortuoso.

As pálpebras pesavam e estranhamente ficavam cada vez mais rígidas. Cada singelo som do lugar representava uma nova martelada em sua massa cinzenta, fosse o ruído dos fones de ouvido altos o suficiente para escorrer por fora da orelha do rapaz que estava a sua esquerda ou fosse pelas risadas estridentes das duas mulheres de meia idade a sua direita.

Uma pontada de dor abaixo das costelas, pela lateral das costas representava uma cotovelada advinda dos empurrões da última parada. Era assim todo santo dia. A mesma rotina com as mesmas ocorrências, em ordem aleatória, mas nenhuma delas faltava uma vez sequer.

O problema não era o ambiente, a isso já havia se tornado seu habitat natural, mas sim que hoje o inferno queimava dentro do seu corpo e a fraqueza de espírito naquele momento fazia-o perceber quanto era deprimente ter se acostumado aquela opressão diária.

A temperatura do aço, acima de suas ideias, já havia se tornado ambiente e não tendo onde ou como estender a outra mão para buscar um novo pedaço de salvação acabou por aceitar que sua condenação estava sentenciada.

De repente sentiu um ligeiro choque passando por suas têmporas, fazendo sua testa enrugar ao tempo em que sua arcada dentária travava, enquanto sugava a sobra de saliva na boca percebeu que algum tipo de poeira cármica preenchia a parede de suas narinas. A sensação da morte certa se aproximava, vinda do fundo de seus pulmões, subindo pelos canos internos do corpo ao qual ele não sabia seus nomes. Uma força descontrolada como o estouro de uma debandada explodiu pelo seu nariz fez com que sentisse uma badalada dos sinos de Notre Dame batendo dentro de sua caixa craniana. Mas ele nunca havia ouvido Notre Dame. Um muco viscoso se acumulava dentro de seu sistema respiratório e o fato de não ter sido expelido brutalmente em todas as pessoas ao seu redor fez com que sua fé em Deus fosse restaurada.

Depois da explosiva reação de limpeza natural das suas narinas os olhos fecharam inconscientemente. Lentamente, enquanto os abria, percebeu uma nova figura no local. Em cima do ombro esquerdo do jovem negro sentado a sua frente havia um pequenino senhor barbudinho, vestido de um mini terno verde folha, com calças verde musgo, sapatos verde água e um chapéu verde escuro. Na parte detrás de suas calças ficava preso o caule de uma folha que o protegia a cima da cabeça. O seu rostinho enrugado somado ao monóculo preso em seu olho direito dava a entender que aquele sujeitinho já estava com uma idade bem avançada.

Era curioso. Aquela criatura havia surgido de algum ou qualquer lugar e estava examinando atentamente o rapaz, dono daquele ombro, mas ele parecia não poder perceber a presença do intrigante ser esverdeado. Foi então que, após concluir sua análise, o pequenino duende tirou um saquinho que estava junto a seu cinto e jogou um punhado de poeira no rosto daquela pessoa que em alguns instantes se pôs a dormir.

O velho elfo então caminhou pelo trapézio do dorminhoco e desapareceu ao entrar pelo seu ouvido. Aquela situação era bizarra e assustadora! E a surpresa fez com que pudesse até mesmo esquecer, por algum momento, a temperatura de suas entranhas aumentando. Quando pensou em acordar o rapaz sentado a sua frente para avisá-lo do parasita em sua cabeça percebeu que o pequeno gnomo agora se revelava em outro lugar.

A menina recostada na porta do vagão estava lendo algum livro qualquer sobre como tocar o foda-se para as coisas da vida de maneira correta. Uma garota esbelta e alta, de pele clara, com poucas sardas no rosto facilmente confundidas com canduras. Tinha longos cabelos louros que estavam enrolados em si mesmos no topo de sua cabeça formando um coque. E foi ali, sentado como um passarinho verde num ninho de palha dourada que o homenzinho estava. Observando do alto parecia muito interessado nas reações que a senhorita expressava a cada página lida. E no momento em que ela hesitou em virar uma página e, ao invés disso voltou a página anterior, o ser humaninho fez sua mágica! Uma leve chuva de pó verde recaiu sobre o rosto e os olhos da menina que lentamente deixou o corpo se apoiar mais entre a porta e o recosto do banco ao seu lado, o livro provou seu peso sobre a mão amolecida e foi se fechando enquanto o braço sedia ao apoio da mochila que carregava a frente do corpo. Dormiu. Essa com a boca aberta ainda, coitada. Aquela versão de papai Noel fundida a Luigi do Mario Bros, se aproveitou da situação e descendo pelo rosto, da indefesa e adormecida mulher, entrou em sua boca. Sumiu.

Após ter sido testemunha de mais uma cena sem nenhum tipo de explicação plausível começou a questionar então sua sanidade. Ao mesmo tempo, sentia pequenos tremores deslizarem por todo o seu corpo enquanto o suor gelado praticamente lavava seu rosto. Foi neste momento que sem aviso percebeu pequenos e leves toques subindo das costas, pelo pescoço até seu ombro esquerdo. Lá estava ele, a diminuta criatura. No fundo, já sabia que cedo ou tarde também seria a sua vez, mas não havia o que pudesse fazer para sua proteção e segurança. Seu corpo agora pesava toneladas e seus glóbulos oculares estavam duros como bolas de gude. Quando percebeu que a batalha estava perdida e demonstrou sua rendição ao deitar suas pálpebras sobre os olhos antes mesmo que o pó verde fosse necessário, escutou no pé do ouvido uma voz rouca e animadora:

– Hoje o Velho Leprechaun vai te levar para uma viagem muito doida cara!

Depois da última palavra o breu total tomou conta do mundo. E, como se um buraco tivesse aberto aos seus pés, ele caiu. Caiu mais. Caiu fundo e pesado. Sentia a turbulência do caminho enquanto seu corpo era jogado de um lado para o outro, tremendo sem nenhum controle. Os olhos, mesmo fechados, eram atingidos por diversos lampejos de luzes coloridas. “O caminho do arco-íris!” Pensou e sentiu que havia sorte em tudo aquilo, pois tinha certeza que ganharia um pote de ouro ao final da viagem.

Se lhe perguntarem, com certeza, não saberia responder por quanto tempo essa loucura durou. Mas em algum momento uma luz forte atingiu a pele de seus olhos pelo lado de fora e um toque suave e macio de uma mão rechonchuda apertava seu braço enquanto uma voz firme dizia: Acorda Rapaz! Demorou alguns momentos até ter forças para levantar as pálpebra se se acostumar com a luz do local que era refletida brilhantemente pelas paredes claras. Em sua frente havia o que parecia duas moedas douradas, bem pequenas “O Tesouro!” pensou. Mas infelizmente, quando o nublado turvo dos olhos passou percebeu que aquele ouro eram apenas dois comprimidos amarelos na palma da mão de uma enfermeira da estação de metrô. O frio que sentia era ao ponto de bater o queixo e prometeu a si mesmo nunca mais seria enganado pela febre ou por um Leprechaun.

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Pausa para um café com Kafka – Part I

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Primeiro pedacinho de um conto que escrevi um tempo atrás, espero que apreciem ~~

Eu poderia conquistar a porra do mundo todo. Tenho certeza que conseguiria. Sou capaz e competente para isso e vejo tanta gente mediana ou sem… Como posso dizer… Sem brilho que está por aí cheia de dinheiro no bolso.

É! Eu poderia ser um cara cheio de dinheiro no bolso, mas eu não ligo para isso. De verdade. Não quero ser o cara cheio do dinheiro. Eu quero ter o mínimo para viver bem. Sei lá, uns quinze mil mangos por mês tava ótimo. E eu sei que eu posso conseguir isso.

Basta eu ter uma grande idéia e já era. Vai ser de boa. Se esses caras chegaram até lá por que é que eu não posso? Eles não tem nada na cabeça. Só falam futilidades, nunca, sequer, tocaram num livro e os poucos que tocaram foram aqueles “Best sellers” de autoajuda. Fico puto com esses filhos da puta de alma vazia compartilhando suas frases de efeito no Story do WhatsApp.

“Vá aonde ninguém foi e mostre a eles que, enquanto os outros se divertem, você estava vencendo mais uma batalha” – Alcatéia

Alcatéia de cu é rola. To cercado de gente assim. Uns caras que tiveram oportunidades e outros que estão na fila esperando essa chance. Todos lendo autoajuda. Autoajuda é um câncer que se espalhou mais rápido que a dengue. Eles dizem: Seja Foda, Ganhe Dinheiro, Pense como um Milionário, Ligue o Foda-se, Acorde seu Gigante, Seja mais do que os outros acreditam… E assim vai. Um montante de tutoriais dizendo que você deve ser feliz, proativo, firme, dedicado, dinâmico, ousado, disciplinado, sonhador e etc, etc, etc.

Nem vou entrar no mérito de falar sobre igreja. Se for entrar nesse tema… Ahhh… Não. Eu prometi que não ia falar da Igreja.

Kafka escrevia sobre a solidão, depressão, frustrações e tudo o que for contrário aos temas que citei anteriormente e sabe por que? Ele falava sobre a realidade. Isso, vou soletrar:  RE-A-LI-DA-DE.

Mas de onde eu tirei Kafka? Como assim Roberto? Eu estou sendo muito rápido para você. Foda-se. Pega o pó de café ali no armário, por favor. A questão é que Kafka falava sobre a verdade que era a vida. O que ela ainda é. O cara tinha sentimentos sabe? Verdadeiros, não esses que a gente se força a demonstrar dia após dia. E ele sentia isso. E eu sei que você sente também.

Existe alguém ou alguma coisa lá fora que está fodendo sua vida. É algo que está além da sua compreensão. Algo que você não sabe quem ou o que é, mas sabe que existe um sistema, um mecanismo, um demônio, uma força universal da natureza que tá te fodendo.

É o acordar cedo todos os dias, se melecar no suor do abafado trem misturando oxigênio e bactérias divididas entre pessoas que você nunca vai saber o nome. Aguentar o ar condicionado, as dores da bursite e da tendinite que você desenvolveu em cinco anos trabalhando nove horas por dia na frente de um computador, tendo de suportar o gosto escroto do café da máquina de expresso. Eu mataria, sem pensar duas vezes, o cara que criou a máquina de café expresso e dou graças a Deus que o pessoal aqui do andar decidiu comprar uma cafeteira elétrica.

Leva isso para sua vida Roberto, as coisas mais saborosas da vida devem ser feitas lentamente, para aproveitar o cheiro, o movimento e a textura de tudo. Tudo que tiver expresso no nome não presta, é o pular de etapas, o avançar sem preparo, queimar a largada. É algo com sabor falso. Assim como livros de autoajuda. Agora enche isso aqui com água.

Aonde eu estava na nossa conversa?

Sim, verdade. Kafka.

A literatura de Kafka é como café coado sem açúcar. Como assim não faz sentido? Presta atenção. A verdade é ruim de engolir. É amarga e fode seu estômago. Mas é a verdade e você tem que aceitá-la.

Você precisa enxergar que a probabilidade de tudo acabar em merda é grande. E não adianta o seus longos anos cumprindo horários todos os dias e fazendo o melhor para o crescimento da empresa. No fim você vai levar três tapinhas nas costas, e aí, meu amigo, o Kafka vai estar lá rindo da sua cara. Sabe por que? Porque os livros de autoajuda não te prepararam para isso. Eles dizem que você é individualmente especial mas o mundo te mostra que, na real, tu é só um código de barras. Tu é estática, camarada. Nada mais, nada menos.