Los Hermanos – 18/05/2019

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Eu estava pensando em escrever sobre memória. Estou terminando o livro famoso do Kazuo Ishiguro e a algum tempo venho conversado com um camarada sobre a questão da memória e esse tema que em nossa opinião também foi tratado muito brilhantemente no filme dos Vingadores.

Mas decidi mudar de ideia. Pois pensando sobre o tema me veio em mente o ultimo Show da turnê do Los Hermanos que aconteceu em São Paulo no Allianz Parque.

Foi nesse momento que percebi como é bom revisitar algumas coisas do passado. Coisas que estiveram ao seu lado dia após dia. Que te acompanham e que estão ligadas a momentos e sentimentos, tendo a sorte de poder ainda ao longo de todos esses anos ter os mesmos momentos e sentimentos.

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Fazia tantos anos que fui a ultima vez num show dos caras e já são tantos mais que ouvia as musicas dos seus 4 CD’s que a principio não parecia que seria uma noite espetacular.

Na verdade, eu já estava até enjoado de ouvir Los Hermanos. É uma das poucas bandas que conheço praticamente todas as letras de todos os CD’s. E como já tive a experiencia de ver um de seus shows então a “Hype” estava bem baixa.

Não tive pressa de ir ao show, chegar cedo para conseguir os melhores lugares ou ficar com o frio na barriga e a ansiedade, contando as horas para o evento. Mas isso foi antes de chegar no lugar…

 

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Quando entrei no estádio estava acompanhado de uma boa galera. Um camarada da Faculdade, que na época foi o meu maior parceiro de estudos e o qual eu mais dividi ideias e ideais, e seu amigo. Meus dois primos que tenho como irmãos de vida e que convivemos juntos desde pequenos, responsáveis por me apresentarem a banda a uns 11 ou 12 anos atrás. E a minha namorada. Que me acompanha até o inferno se for preciso e que mais do que isso se apaixonou pela banda quando eu a mostrei.

Além disto, havia encontrado um casal de amigos, dentro do estádio onde o show iria acontecer. Também estava no local uma amiga de infância mas, infelizmente, não consegui encontra-la no meio daquela multidão.

Por fim, parecia tudo perfeito. Meus irmãos de vida, amigos no qual passei anos dividindo ideias, conhecimento e ideologias e a Mulher que eu Amo.

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Bom. Então o show começou. E tudo aquilo que pensei, de que não haveria borboletas no estomago, emoções descontroladas e ansiedade, mudou.

Acabamos nos enfiando no meio do povo até o mais próximo do palco possível. Cantamos. Gritamos. Ficamos sem voz. Nos abraçamos, pulamos e nos debatemos. Toda aquela energia ainda era a mesma depois de tantos e tantos anos. E mesmos que os barbudinhos parecessem um tanto velinhos em cima do palco ainda sim cantavam com toda força de vontade. Havia sinceridade na voz daqueles caras.

Praticamente duas horas e meia de show, uma visita por todos os quatro CD’s da banda. Por todas as suas fases. Por todas as nossas fases. A cada música memórias e mensagens voltavam e vinham a tona. O tempo que dividimos e ainda vamos dividir. Los Hermanos é uma banda histórica. Odiada por uma multidão, sim! Mas que após anos longe da mídia, sem produzir novos discos, consegue lotar estádios pelo país inteiro e gravar fundo suas letras na memória de seus fãs!

E isso é o foda sabe? É passar anos longe mas quando se está lá parece que nunca esteve tão perto. Todas aquelas letras que a tempos e tempos não havia escutado ou cantado saiam simplesmente da nossa boca, de todos nós. Como se nunca tivéssemos deixado de canta-las.

 

“Eu só aceito a condição de ter você só pra mim..
Eu sei não é assim,
Mas deixa eu fingir.. E rir!”

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Apesar de Você

Sem temer

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
Lá lá lá lá laiá

Cinco segundos e o que vem depois…

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Publicado também em Outras Estorias

O farfalhar das teclas incomodava. Aliás, quando não incomodou. O lapso temporal entre a intenção, as relações neurais, os eletrochoques e a ação motora é quase instantâneo. Como é que tudo pode ser tão acelerado? Antes mesmo de concluir o pensamento, a palavra já migrou do mundo analógico, que chamamos de real, para um ambiente gasoso, invisível, que apelidamos de internet. Isso sim é magia.

Em menos de um segundo, um simples desejo se materializou em ação, escorreu entre os dedos e se transformou em um oceano binário, que explodia em luz na tela do computador. Era mais um dia de digitação pesada para Melquíades.

Mal lembrava-se como era escrever à mão. Sustentava cada clique e campainha – eram muitas, uma de cada rede social – com uma reação distinta. Do assovio, levantava apenas a sobrancelha; da campainha, apenas sorria; quando soava o clique, apressava-se para visualizá-la. Com a maestria de um Mozart, comandava essa verdadeira sinfonia de ruídos com as pontas dos dedos. Cansou-se. Era um sinal do corpo de que aquilo se esgotara.

Prestes a entregar os pontos, sentiu os ouvidos arranharem mais uma vez. Assim que o relógio alcançou a décima segunda unidade de tempo, dissipou-se a sua angústia, ao menos por alguns instantes. Após longas e intermináveis horas, a vida desenrolava-se, mesmo aos poucos, para que pudesse tornar-se algo. Até então, ao menos nesse dia, fora somente objeto.

Respirou fundo a poluição da cidade e sentiu-a rasgar suas narinas assim que colocou os pés na rua. E arrastando-se, continuou até que um pingo d’água lhe atingisse o nariz. Espanto. E novamente o cérebro trabalhando. O simples contato inesperado entre elemento e elementar produziu uma onda generalizada de tremores e formigamentos em todo o seu corpo. O cheiro da chuva se destacou dos demais.

Sem que pudesse se dar conta disso, o seu sistema nervoso acelerou seus batimentos cardíacos. Outro choque e o sistema límbico gerou uma resposta imediata ao organismo. Com isso, noradrenalina e serotonina são liberadas e jorram com destino certo. Ao receber o estímulo, o sistema nervoso independente contrai e estressa as glândulas em questão. Uma lagrima escorre pela bochecha, atravessando ligeira a barba mal feita.

O que se nota a seguir é uma profusão de água, que se mistura, quase instantânea, quando o céu desaba sobre o homem inerte à beira da calçada. Não se sabe se a tempestade vem de dentro ou fora. O que se pode ter certeza, além das inúmeras certezas absolutas que qualquer um pode ter, é que ele fora tocado pela liberdade. E, para isso, não há remédio.