Cerveja, Frio e Red Hot

v0128275_posterframe

You don’t know my mind
You don’t know my kind
Dark necessities are part of my design, and
Tell the world that I’m
Falling from the sky
Dark necessities are part of my design

A meia luz, da sala iluminada pelas dezesseis horas que deveriam ser lá fora, fazia contraste com as imagens e sombras pulando na tela da televisão. Uma lata de cerveja gelada na mão direita introduzindo um liquido raso e amargo que escorregava pela língua passando garganta a dentro.

Havia uma coluna também. Feita de ossos, localizada no centro das costas, levemente dobrada, próxima a região do pescoço. A pior e mais confortável posição para simplesmente se deixar livre em cima de um sofá meio cama.

Um barulho sonoramente agradável preenchia a sala de estar no volume setenta e quatro, por que números quebrados tem um certo “qué” atrativo, faz com que você se sinta fora da curva, talvez um ser diferenciado que não pensa como todo mundo.

Aquelas pessoas do outro lado da rua nunca vão entender seus prazeres ou os nossos. Elas simplesmente parecem ter os mesmos gostos e sabores, o que não muda o fato de você vivenciar suas experiencias de igual forma quando se está encurralado de toda essa gente. Bem no momento em que se atravessa a calçada. Talvez elas tenham as mesmas necessidades estranhas que você, para se aliviar do dia a dia falso, recheado de sorrisos, beijos, abraços, fofocas, reclamações do chefe e abusos sexuais nos vagões do metrô super lotado.

Será que o vizinho ao lado fica nu enquanto canta e dança como o Renato russo na frente de um espelho grande? Ou talvez aquela secretária dos cabelos cheios fica vendo pornografia de transgêneros a noite toda e por tal motivo sempre tem olheiras profundas durante a manhã de serviço. Talvez a sua tia amélia esteja no Tinder procurando jovens a qual possa gastar suas sobras de dinheiro enquanto o tio Valter cheira cocaína todo santo dia pela manhã e após o almoço.

Será que a gerente geral do escritório de advocacia se diverte sozinha vendo desenhos e comendo docinhos entre a atualização de seu Storys com uma foto a frente do “PC” e outra naquela balada sertaneja de alto padrão?

Afinal de contas será que entendemos ou estamos prontos a conhecer as necessidades mais puras e simples que cada um, deste e do outro lado da cidade, sentem e não podem compartilhar? Estranho pensar que o mais normativo está profundamente enterrado em nossas obscuras e diferentes necessidades.

Anúncios

Los Hermanos – 18/05/2019

img-20190518-wa00407913776898771383569.jpeg

Eu estava pensando em escrever sobre memória. Estou terminando o livro famoso do Kazuo Ishiguro e a algum tempo venho conversado com um camarada sobre a questão da memória e esse tema que em nossa opinião também foi tratado muito brilhantemente no filme dos Vingadores.

Mas decidi mudar de ideia. Pois pensando sobre o tema me veio em mente o ultimo Show da turnê do Los Hermanos que aconteceu em São Paulo no Allianz Parque.

Foi nesse momento que percebi como é bom revisitar algumas coisas do passado. Coisas que estiveram ao seu lado dia após dia. Que te acompanham e que estão ligadas a momentos e sentimentos, tendo a sorte de poder ainda ao longo de todos esses anos ter os mesmos momentos e sentimentos.

img-20190518-wa00251957715353286896295.jpeg

Fazia tantos anos que fui a ultima vez num show dos caras e já são tantos mais que ouvia as musicas dos seus 4 CD’s que a principio não parecia que seria uma noite espetacular.

Na verdade, eu já estava até enjoado de ouvir Los Hermanos. É uma das poucas bandas que conheço praticamente todas as letras de todos os CD’s. E como já tive a experiencia de ver um de seus shows então a “Hype” estava bem baixa.

Não tive pressa de ir ao show, chegar cedo para conseguir os melhores lugares ou ficar com o frio na barriga e a ansiedade, contando as horas para o evento. Mas isso foi antes de chegar no lugar…

 

img-20190518-wa00313874906512830012939.jpeg

Quando entrei no estádio estava acompanhado de uma boa galera. Um camarada da Faculdade, que na época foi o meu maior parceiro de estudos e o qual eu mais dividi ideias e ideais, e seu amigo. Meus dois primos que tenho como irmãos de vida e que convivemos juntos desde pequenos, responsáveis por me apresentarem a banda a uns 11 ou 12 anos atrás. E a minha namorada. Que me acompanha até o inferno se for preciso e que mais do que isso se apaixonou pela banda quando eu a mostrei.

Além disto, havia encontrado um casal de amigos, dentro do estádio onde o show iria acontecer. Também estava no local uma amiga de infância mas, infelizmente, não consegui encontra-la no meio daquela multidão.

Por fim, parecia tudo perfeito. Meus irmãos de vida, amigos no qual passei anos dividindo ideias, conhecimento e ideologias e a Mulher que eu Amo.

img-20190518-wa00392898554909215083228.jpeg

Bom. Então o show começou. E tudo aquilo que pensei, de que não haveria borboletas no estomago, emoções descontroladas e ansiedade, mudou.

Acabamos nos enfiando no meio do povo até o mais próximo do palco possível. Cantamos. Gritamos. Ficamos sem voz. Nos abraçamos, pulamos e nos debatemos. Toda aquela energia ainda era a mesma depois de tantos e tantos anos. E mesmos que os barbudinhos parecessem um tanto velinhos em cima do palco ainda sim cantavam com toda força de vontade. Havia sinceridade na voz daqueles caras.

Praticamente duas horas e meia de show, uma visita por todos os quatro CD’s da banda. Por todas as suas fases. Por todas as nossas fases. A cada música memórias e mensagens voltavam e vinham a tona. O tempo que dividimos e ainda vamos dividir. Los Hermanos é uma banda histórica. Odiada por uma multidão, sim! Mas que após anos longe da mídia, sem produzir novos discos, consegue lotar estádios pelo país inteiro e gravar fundo suas letras na memória de seus fãs!

E isso é o foda sabe? É passar anos longe mas quando se está lá parece que nunca esteve tão perto. Todas aquelas letras que a tempos e tempos não havia escutado ou cantado saiam simplesmente da nossa boca, de todos nós. Como se nunca tivéssemos deixado de canta-las.

 

“Eu só aceito a condição de ter você só pra mim..
Eu sei não é assim,
Mas deixa eu fingir.. E rir!”