Hobbie


Eu sempre chego por volta das 9:30 da noite. As crianças em geral estão sempre brincando no chão da sala ou assistindo televisão, essas porcarias do YouTube podem hipnotizar seus filhos por horas a fio. Não que isso seja um problema, na maioria das vezes é a solução.

A Tamara consegue garantir todos os dias que a comida esteja bem fresca para o momento que eu chego. Uma mulher incrível! Lava, passa, cozinha, cuida dos pirralhos. Não é nada além de sua obrigação, mas isso não muda o fato de ela ser incrível, eu mesmo não trocaria um dia de escritório por essa rotina. Ser condicionado a se relacionar com os programas de bem estar pela manhã, os utensílios domésticos e seus produtos de limpeza a tarde, a novela e o fogão no começo da noite e por fim ter apenas duas crianças com menos de 13 anos para poder conversar. Eu ficaria louco no primeiro dia. Ainda com tudo isso ela nunca deixou, nos 7 anos que temos de casamento, uma noite se quer sem ter fogo por mim.

Boa noite princesa. Eu entrego uma rosa com um botão enorme aberto.Como foi seu dia?

Ela suspira e me beija como se não houvesse amanha. Porém os lábios molhados, doces e delicados encontram um pedaço de carne fino e seco que é a minha boca. Eu não sinto o mesmo entusiasmo que ela. Pra falar a verdade, eu não sinto nada por nada aqui.

Após o jantar, me isolo na sala de leitura. Ligo meu Notebook e finjo que estou trabalhando. Enquanto isso ela fica brincando com as crianças, tentando gastar tempo esperando que eu me decida subir para dormir. É algo lastimável. Eu querendo que ela suba sem mim e ela esperando para subir comigo. Minha cabeça começa a doer, lembro de todas as problemáticas que precisarei resolver no escritório. Lembro que preciso ficar esperto para receber a conta do cartão de crédito antes que ela consiga pegar primeiro. São tantas coisas.

Amor. Vou sair para dar uma volta e esfriar a cabeça. Digo isso enquanto vou em direção a porta. Mas a essa hora? Toda sexta feira vai fazer isso agora? É bem claro a expressão de preocupação no rosto branco e delicado dela. Talvez tenha medo que eu esteja tendo um caso e acabe perdendo tudo que ela tem de bom na vida para outra mulher. Ou talvez esteja preocupada com a minha segurança. Pode ser um pouco dos dois, ou muito de ambos. Não devo demorar. Fecho a porta logo ao terminar a frase, sem chances para uma tréplica.

Na garagem encontro o meu fiel companheiro. Um Honda CR-V totalmente negro. Ele tem o tamanho e a força de um rinoceronte e sentir o couro gelado do banco e o perfume fresco de um carro recém lavado não tem preço. Quando giro a chave no comando escuto seu roncar sério e preparado, isso faz os pelos dos meus braços se atiçarem.

São cerca de 23:14 da noite, eu ando pelas ruas com o farol baixo para não chamar muita atenção. Passo 20 minutos procurando de esquina em esquina. Esse carro tem potência, alcança velocidades incríveis em pouco tempo, mas agora eu dirijo a 10 ou 15 km por hora. Devagar e quieto, como um predador no meio da selva escura de concreto. Mais 15 minutos rondando entre ruas e vielas eu encontro minha presa. Usando uma saia preta bem curta com uma blusinha a mostrar o umbigo. Ela deve estar congelando lá fora, mas precisa fazer aquilo, precisa atrair alguns machos para garantir sua sobrevivência. O problema é que todo aquele brilho e maquiagem também chamou minha atenção.

Ao vê-la virando uma esquina eu desligo meus faróis. Lentamente, em ponto morto vou avançando. Quando chego na esquina engato o carro e viro, vejo-a andar rebolando se equilibrando na guia da calçada.

EU SOU UM TIGRE!

O ponteiro vai de 10km/h a 90 em instantes e no último momento eu acendo os faróis, exibindo minhas presas a infeliz criatura. Eu a acerto de lado, como um chute de trivela e assisto seu corpo girar no ar pelo retrovisor.

São meia noite e meia quando chego em casa. Verifico que não há nenhum arranhão no meu Honda. Estou ficando profissional nisso. Deixo meus sapatos na entrada ao lado da porta para não fazer barulho e acordar às crianças. Subo as escadas. A adrenalina ainda pulsa no meu corpo. Eu estou ligado a 220 e agora entendo o motivo pelo qual a cocaína gera tanto dinheiro. Ao entrar no quarto vejo Tamara adormecida na cama e por Deus, nunca senti tanto tesão por ela.

Contos – Rubem Fonseca

fonseca

Poha.

Recentemente tive contato com os contos de Rubem Fonseca e digo: Poha!

Que forma de escrever maravilhosa. É seco, violento, realista e palpável. Ele escreve algo totalmente concreto na qual você consegue sentir fisicamente a história. E por sentir fisicamente deve-se entender socos na cara que recebemos a cada paragrafo.

Um amigo definiu Rubem como um escritor que faz uma casa crua sem nenhum tipo de reboco ou enfeite. Ela é pura, cimento sobre tijolo. É apenas essência e estrutura.

Eu vi a busca por uma realidade tao bruta como a de Bukowski, porém sendo este um autor que utiliza muitos atos fantásticos nas suas histórias enquanto Fonseca chega a beirar o absurdo do limite humano.

É provável que ao ler você se sinta assistindo aqueles telejornais que a cada dia contam uma história mais e mais mirabolante mas que não são fantasia. Aquilo que as pessoas fazem quando ninguém esta vendo. Tirar a mascara e a roupa do convívio social para buscar episódios do interior humano, como se você fosse uma câmera de vídeo filmando os momentos mais íntimos e isolados das pessoas, aquilo que não é aceito socialmente.

Rubem Fonseca é a verdade que ninguém quer acreditar que exista. O desejo reprimido de se identificar com algo socialmente não permitido. Chega ao animalesco.

Enfim, acredito que o autor traduza bem o titulo do Blog e não é a primeira vez que escrevemos sobre ele (clique aqui para ver o ultimo post sobre o autor), mas acredito que o mesmo merece em muito ser lembrado e re-lembrado, lido e re-lido. Mas esteja pronto para aceitar que a parte mais sedenta por sangue dentro de você vai adorar as obras do autor.