Contos – Rubem Fonseca

fonseca

Poha.

Recentemente tive contato com os contos de Rubem Fonseca e digo: Poha!

Que forma de escrever maravilhosa. É seco, violento, realista e palpável. Ele escreve algo totalmente concreto na qual você consegue sentir fisicamente a história. E por sentir fisicamente deve-se entender socos na cara que recebemos a cada paragrafo.

Um amigo definiu Rubem como um escritor que faz uma casa crua sem nenhum tipo de reboco ou enfeite. Ela é pura, cimento sobre tijolo. É apenas essência e estrutura.

Eu vi a busca por uma realidade tao bruta como a de Bukowski, porém sendo este um autor que utiliza muitos atos fantásticos nas suas histórias enquanto Fonseca chega a beirar o absurdo do limite humano.

É provável que ao ler você se sinta assistindo aqueles telejornais que a cada dia contam uma história mais e mais mirabolante mas que não são fantasia. Aquilo que as pessoas fazem quando ninguém esta vendo. Tirar a mascara e a roupa do convívio social para buscar episódios do interior humano, como se você fosse uma câmera de vídeo filmando os momentos mais íntimos e isolados das pessoas, aquilo que não é aceito socialmente.

Rubem Fonseca é a verdade que ninguém quer acreditar que exista. O desejo reprimido de se identificar com algo socialmente não permitido. Chega ao animalesco.

Enfim, acredito que o autor traduza bem o titulo do Blog e não é a primeira vez que escrevemos sobre ele (clique aqui para ver o ultimo post sobre o autor), mas acredito que o mesmo merece em muito ser lembrado e re-lembrado, lido e re-lido. Mas esteja pronto para aceitar que a parte mais sedenta por sangue dentro de você vai adorar as obras do autor.

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Rubem Fonseca: 50 anos de beijos, tiros e sangue

Rubem-Fonseca-foto-de-Zeca-fonseca

Por: Anderson Estevan

“Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.

Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse”

Confesso que ao terminar de ler estre trecho de Feliz ano novo, conto/título do livro de Rubem Fonseca, esta hipnotizado. A sua mistura coesa de violência estilizada, linguagem corrida e literatura noir me ganhou em menos de cinco minutos.

E em menos de um mês já havia lido seis de seus livros em ritmo acelerado. Em pouco tempo, pude conhecer Mandrake, o advogado canastrão e mal humorado; Gustavo Flávio, o escritor atormentado de Buffo e Spalanzani; e o comissário Mattos, de Agosto, com ovos, copos de leite e a sua úlcera crônica.

E o pior: eu sempre queria mais!

Até então, nunca havia lido ninguém que conseguisse transmitir tão bem a atmosfera urbana brasileira, na periferia e no centro, como ele. Embora suas histórias se passem no Rio de Janeiro, elas poderiam perfeitamente estar alojadas no coração de São Paulo sem nenhum problema.

Outra coisa que merece ser destacada nesta resenha/declaração é o trato com os protagonistas. Não há piedade nem sentimentalismo. Na literatura de Fonseca, ninguém é à prova de morte.

O padrão branco, alto, bonito e de olhos claros também passa longe dos personagens principais. Por seus contos, novelas e romances há gente feia, desdentada, suada e com problemas que fariam qualquer personagem de um romance adolescente chorar e pedir arrego. Essas figuras bizarras, que eu e você encontramos caídos pela rua, gente de verdade, estas sim são as personagens ideais do escritor.

E essa atmosfera dos fodidos, dos segregados, esta é a realidade para a literatura de Fonseca. Sabe toda aquela fúria e descontrole que vez ou outra acompanhamos na televisão? Em sua obra ela ganha contornos de arte. Já as mulheres sedutoras e com um quê de ingenuidade. Tipos tupiniquins de Femme fatale que todo mundo espera encontrar por aí, mas não encontra nunca. Talvez por que estejam todas na literatura de Fonseca.

De Os prisioneiros, seu primeiro livro, lançado há 50 anos, até hoje, são mais de 26 obras, entre coletâneas, novelas e romances. Mesmo assim, o velho Rubem Fonseca continua vigoroso, sendo um cronista cada vez mais atual da situação sócio política brasileira.

Não vou dizer que todos devem “devorar” Rubem Fonseca, mas que ao menos uma espiada em alguma coisa do velho escritor não faz mal a ninguém. Ou melhor, faz sim, e no máximo você pode acabar ficando viciado em um dos mestres da literatura policial brasileira.